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sábado, 6 de março de 2021

Oh, mal tão belo

 

Pandora, William-Adolphe Bouguereau, 18...




Oh, mal tão belo… quem te criou,

senão deuses ciumentos

e rancorosos

com a alegria e o bem estar dos homens?


Oh, mal tão belo…

ornada com as dádivas e as artimanhas divinas

foste destinada ao nosso meio

com a missão de espalhar mazelas

que nos atormentam desde sempre


Oh, mal tão belo…

adornada com flores primaveris,

cheirosa, irresistível, astuta,

cheia de ardis e fingimentos,

curiosa e cínica

vieste para nos atormentar a alma

e instaurar o reino do males sem fim,

onde nos sustenta apenas a frágil esperança


Oh, mal tão belo…

confundiste e enganaste nossa capacidade

de nos anteciparmos ao futuro,

de prevermos possibilidades

diante do Destino que nos assola implacável…


Oh, mal tão belo...

que corrompe e destrói nosso discernimento,

levando-nos a permanecer à deriva

neste oceano incerto que é a vida,

à mercê dos caprichos teus

e das divindades que te engendraram


Oh, mal tão belo”… disse o poeta

ao refletir sobre um dos seus infortúnios

enquanto admirava a beleza das mulheres,

que iam e vinham diante dos seus olhos

sem lhe dirigir sequer um olhar

quanto mais uma palavra (ou um gesto,

por mais insignificante que fosse),

completamente inacessíveis

aos seus membros túmidos de desejos e aflições.



sábado, 22 de fevereiro de 2020

pastoral


Pastoral, Tarsila do Amaral, 1930



vou voltar ao passado
encontrar um antecedente
que tenha realizado qualquer coisa de forte e positivo
de doce e compassivo
ele, bom de peleja, amor e viola…

quem sabe um daqueles heróis míticos
que faziam o que era preciso
e jamais guardavam remorso ou rancor
pelo simples fato de estar bem com a natureza
que nem planta, pedra ou peixe…

tipos corajosos que não veneravam nenhum deus
porque tal conceito, em seu tempo, era desconhecido
e não havia necessidade de inventá-lo
mesmo que as crianças fossem geniosas ou malcriadas

mas se esse meu antecedente, humano
mesmo ínfimo, possuir o tamanho das nuvens
a largura do mar
a altura do céu
tudo farei para que caiba perfeitamente entre os meus dedos
debaixo do testemunho das estrelas
que brilham sutis no universo
e arrastam meu olhar para tal lonjura
à procura dele, a pelejar… e se, nessa jornada
acaso tope com demônios em seu mais distante caos
demônios que o habitem desde a origem
num esforço de aproximação, hei de naturalizá-los,
trazê-los à luz, torná-los meus, nomeá-los,
civilizá-los e fazê-los desfilar em trabalhosa estrofe,
esculpido verso, suado e sofrido poema

(e mesmo que tomado de insegurança,
evitarei criar os meus próprios
e legá-los, selvagens, ao futuro…)

para que desse encontro
apenas resulte singela
nossa brincadeira com palavras
bendito antídoto
à nossa singular e complicada mortalidade



sábado, 8 de fevereiro de 2020

O Paraíso Deserto



Cosmic Map, Bruno Munari, 1930




João da Silva Guimarães, mestre de campo, encarregado de desbravar o sertão baiano, está velho, cansado e delirante. Passa o tempo rememorando suas andanças em busca de ouro e prata para a coroa portuguesa.
No fim da jornada, tem como propósito escrever uma carta para El Rei (e estamos falando aí de algo por volta de 1760 e alguma coisa) onde narrará as aventuras de Belchior Dias Moreira, o Muribeca (Mosca Chata), filho de Diogo Alvares Correia, o Caramuru (Moreia, em tupi) com a cunhada Moema (Abençoada), irmã da sua esposa Paraguaçu (Mar Grande). Será uma história ouvida de várias vozes de um cem números de gentes, cujo título já tem pronto: Relação histórica de uma oculta, e grande povoação antiquíssima sem moradores.
Mas como a terra gira e a lusitana roda, a missiva, se chegar a ser escrita, ficará conhecida apenas Documento 512. E ficará arquivada na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro a espera de que, um dia, alguém a decifre. Porque ali estará firmado, com todas os símbolos e letras, que Muribeca saberia da existência de uma tribo desconhecida que exibia lindos enfeites dourados e prateados. Que, após muitos obstáculos e revezes conseguiu chegar a uma montanha cintilante, coberta de cristais. Que daí seguiu por uma estrada de pedra, passou por dentro de uma montanha e, finalmente, através de um caminho pavimentado, chegou a uma grande cidade onde, na entrada, havia três arcos (um central, grande; dois menores nas laterais) com inscrições grego ptolomaico (?). Que reparou que as casas eram todas iguais e interligadas. Algumas tinham mais de um andar. Que na praça central, havia uma enorme estátua, em pedra preta, de uma figura despida da cintura para baixo, com a mão esquerda sobre o quadril e o braço direito estendido a apontar para o Norte, trazendo na cabeça uma coroa de louros. Que ao lado da praça, corria um rio que desembocava numa cachoeira rodeada de tumbas e que, neste exato local, Muribeca encontrou uma moeda de ouro, que trazia, numa face, o relevo de um rapaz ajoelhado e na outra, um arco, coroa e flecha.
Envolto nesse mistério alucinante, João Guimarães se perguntava o que significava tudo aquilo? E via a si na estrada de pedras, entrando na montanha dos cristais, atingindo o caminho pavimentado e chegando aos três arcos na entrada da grande cidade… completamente em ruínas… mas não enxergava vivalma. E beirando o rio que beira a praça, chega à cachoeira, às tumbas, ao local onde Muribeca encontrou a moeda
Súbito, já se vê às margens do Rio Paraguaçu cumprimentando seu companheiro João Gonçalves da Costa que, a mando do governador da capitania, Manuel da Cunha e Menezes, estava dando guerra aos elegantes Mogoyóis em busca de ficar pé naquelas brenhas sertanejas do que um dia seria o estado da Bahia. E ali, sem qualquer reparo ou remorso, os dois articulam um plano infernal: promover uma festa, em honra dos nativos e após embriagá-los, mata-os todos. Desta forma nasceu o arraial da Conquista, mais tarde batizada de Vitória da Conquista, terra onde este narrador que vos fala tem um vago nome e escutou, certa feita, do mestre cantador Elomar esta singela estrofe:
Depois, depois de muitos anos
Voltei ao meu antigo lar
Desilusões que desenganam
Não tive onde repousar
Cortaram o tronco da palmeira
Tribuna de um velho sabiá
E o antigo tronco do oliveira
Jogado num canto pra lá
Que ingratidão pra lá

Por que a gente insiste em voltar? Porque há sempre o retorno. Porque havemos de ver o que poderia ter sido. Porque o mais grave de tudo é a gente esquecer. Isto fui eu quem disse, porque o João da Silva Guimarães, em meio a carnificina programada, vê surgir o Muribeca, com um mapa nas mãos e larga pra lá aquele mundaréu de corpos mutilados, aquela sangueira tingindo as árvores e o segue… pelo caminho das pedras, por dentro da Montanha dos Cristais até a entrada da grande cidade deserta.
Não entendo, para onde foram todos?
Talvez tenhamos errado nalguma dobra do caminho…! Respondeu João Magalhães, sem evitar de pensar em como contar esta história a El Rei sem que desse prova de estarmos todos loucos? Mas teve que interromper sua dúvida porque o Muribeca já insistia em rumar a conversa para outra banda
De que adianta o paraíso se não há gente pra olhar?



sábado, 14 de março de 2015

Três Pórticos


Fruit Tree, Wu Guanzhong, 2000




I
Yeshe Ö, rei de Guge
Metade do dia passava rezando,
A outra metade se dedicava a pintar
Afrescos budistas
No interior da montanha Kailach.

Um dia, um jesuíta perguntou-lhe
Que tanto suplicava aos céus em suas orações.

O monarca, sereno, respondeu:
A felicidade dos outros.
Se as outras pessoas ficarem felizes
Quem me perturbará”?


II
Tzu-lu perguntou ao Mestre
Como os deuses devem ser servidos?
O Mestre respondeu:
Se não sou apto a servir as pessoas
Como posso servir aos deuses”?

Tzu-lu quis saber quanto a Morte.
O Mestre respondeu:
Se não compreendo a vida
Como posso entender a morte”?


III
Sobre e benevolência, o Mestre disse:
O fardo é pesado e a estrada longa
Talvez só compreenda
No instante mesmo da minha morte”.  


sábado, 12 de julho de 2014

A Feia Bela

Ceibo, árvore símbolo da Argentina


Às margens do Rio Paraná, no território argentino, vivia uma tribo Guarani, cujo cacique era um guerreiro valoroso. Porém o cacique orgulhava-se mais da filha que dos seus feitos heroicos. Porque a moça era feia, mas bela ao ponto de cativar quem a visse. Seu nome era Anahy, que significa “aquela de doce voz”.

Nas tardes de verão, toda a tribo se deleitava com suas canções. Canções nostálgicas e misteriosas que espalhavam harmonia ao seu redor. Canções inspiradas em seus deuses e no amor à terra na qual viviam.

Certo dia, a paz daquelas tranquilas terras foi quebrada. Um dia o espanhol chegou. Arrasaram as tribos e tomaram dos guaranis suas terras, seus deuses e sua liberdade. O grande cacique foi morto por um capitão inimigo.

Anahy, prisioneira, cega de dor, jurou vingar a morte do pai. Passou dias chorando. Muitas noites em vigília. Até que o sono venceu a sentinela e ela conseguiu escapar. Era noite sem lua. Anahy entrou no acampamento e matou o capitão espanhol. Os soldados saíram em sua perseguição e logo ela foi capturada e condenada à morte. Morte na fogueira.

Amarrada ao poste do suplício, Anahy não soltou um grito sequer. Ouviu-se apenas de seus lábios uma melancólica canção de despedida. Quando só restavam cinzas e os brancos assustados não podiam acreditar no que seus olhos viam, no lugar do sacrifício surgiu um tronco milagroso com braços transbordantes de folhas reluzentes e flores vermelhas como o sangue.

Os que lembram daquela manhã, contam pros seus descendentes que o ceibo é o símbolo de valentia e força. E nas noites de verão costumam cantar:
As harpas hoje choram arpejos que são para ti, Anahy
Indiazinha feia de voz tão doce como o Aguaí… Anahy, Anahy…
Tua raça não morreu… Estão todos ali, na flor rubi.
A noite piedosa cobriu tua dor e o dia assombrado
Viu teu martírio transformar-se em folha e flor
Indiazinha feia de voz tão doce como o Aguaí… Anahy, Anahy…
Tua raça não morreu… Estão todos aqui, na flor rubi.


sábado, 21 de dezembro de 2013

A Tradição Relativa XI


Nu Kua, Susanne Iles, 2001


A Criação do Humano


No princípio não havia nada. Tudo era escuridão e caos. O universo era um imenso ovo e dentro dele, em deliciado equilíbrio, estavam o Yin e o Yang. Havia, também, dentro do ovo, um terceiro elemento, desenvolvendo-se em total silencio: P’an Ku.

Após dezoito mil anos, P’an Ku despertou e viu-se cercado pela mais densa escuridão. Enfurecido, pulou e gritou. Com um golpe vigoroso rompeu o ovo. Separados, Yin e Yang deram inicio à existência. O mais pesado e turvo desprendeu-se e afundou, transformando-se em terra. O mais leve e etéreo subiu, formando o céu. P’an Ku ficou entre eles para evitar que se juntasse a trouxessem a escuridão de volta. Quando percebeu que não havia mais escuridão, que o azul do céu e o marrom da terra eram estáveis, deitou-se e, tranquilo, morreu.

Seu corpo imenso deu origem as montanhas; do seu olho esquerdo, surgiu o Sol; do seu olho direito, a Lua; sua respiração tornou-se o vento; sua voz, o trovão; seus pelos, as florestas; dos seus músculos, surgiram as terras férteis; dos seus dentes e ossos, as rochas e os minerais; das criaturas que habitavam seu corpo, tais como pulgas e bactérias, surgiram os animais; do seu suor, a chuva; e, do seu sangue, os lagos, os rios e os mares.

O sangue e o suor de P’an Ku, misturados, deram origem a Nü Wa, metade humana, metade serpente.

Certo dia, Nü Wa caminhava pelos campos e, ao observar as montanhas, as florestas e os animais, reparou que tudo era lindo porém, sentiu-se triste. Percebeu que as montanhas, as aves e os animais não a entendiam e que precisava de iguais para pôr fim à sua solidão.

Com este propósito, pegou lama da beira do rio e moldou uma pequena figura, semelhante ao seu reflexo na água. Ao soprar alguns resíduos, a pequena estatueta ganhou vida. Empolgada com o seu sucesso, se pôs a modelar mais e mais figuras que, por terem vindo da terra, foram, por ela, denominados humanos.

Após aprenderem a fala e conviverem breve tempo com Nü Wa, os humanos, cheios de curiosidade, agradeceram e partiram para conhecer a Terra. Porque a solidão de Nü Wa nunca acabava, continuou ela a modelar humanos. Porém, o mundo é grande demais e nunca deixa de parecer vazio. Cansada, pegou um cacho de flores da Arvore do Céu e mergulhou na lama. Depois sacudiu com força. As gotas de lama transformaram-se em humanos. Assim, Nü Wa conseguiu produzir um número maior de pessoas até ficar satisfeita com a quantidade criada.

Num dia de descanso, Nü Wa decidiu dar uma volta no mundo para verificar como os humanos estavam se saindo. Ficou surpresa ao reparar que os primeiros que ela havia criado estavam caídos no chão, com os cabelos brancos e sem vida. Viu que se quisesse manter o mundo povoado teria que modelar indefinidamente criaturinhas de barro. Isto seria sua ruína pois nunca mais teria descanso na vida.

Foi aí que teve a brilhante ideia de modelar figuras de ambos os sexos. Fez com que os humanos se reproduzissem entre si e, desta forma, formassem descendência que, para sempre, povoariam a Terra.

Depois de ter admirado o que fez, Nü Wa deitou-se e até hoje dorme no fundo do Rio Amarelo.


sábado, 23 de novembro de 2013

A Tradição Relativa X


Índio do Xingu, Elvis da Silva, 2005

O Dilúvio Brasileiro

(José de Alencar, O Guarani


"Foi longe, bem longe dos tempos de agora.
As águas caíram e começaram a cobrir toda a terra.

Os homens subiram ao alto dos montes.
Só um ficou na várzea com sua esposa: era Tamandaré.
Forte entre os fortes, sabia mais que todos.
Tupã falava-lhe de noite. 
E de dia ele ensinava aos filhos da tribo o que aprendia do deus.

Quando todos subiram aos montes, ele disse:
Ficai comigo, fazei como eu e deixai que venha a água.
Os outros não o escutaram e foram para o alto.

Ele ficou só, na várzea, com sua companheira, que não o abandonou.
Tamandaré tomou sua mulher nos braços e subiu com ela ao olho da palmeira.
Lá esperou que a água viesse e passasse.

A palmeira dava frutos que os alimentavam.
A água veio, subiu e cresceu.
O sol mergulhou e surgiu uma, duas e três vezes.
A terra desapareceu.
A árvore desapareceu.
A montanha desapareceu.

A água tocou o céu e Tupã mandou que parasse.
O sol olhou e só viu céu e água.
E entre a água e o céu, a palmeira.
A palmeira que boiava levando Tamandaré e sua companheira.

A corrente cavou a terra.
Cavando a terra, arrancou a palmeira.
Arrancando a palmeira, subiu com ela.
Subiu acima do vale, acima da árvore, acima da montanha.

Todos morreram.
A água tocou o céu três sóis com três noites.
Depois baixou.
Baixou até que descobriu a terra e veio o dia. 

Tamandaré viu que a palmeira estava plantada no meio da várzea.
Ouviram a avezinha do céu, o guanumbi, que batia as asas. 
Desceu com a sua companheira, e povoou a terra". 


sábado, 28 de julho de 2012

A Tradição Relativa IX


Izanagi e Izanami, Kobayashi Eikatu, 1885


Izanagi e Izanami, os Criadores do Mundo


Antes do Céu e da Terra virem à existência, havia o Caos ilimitado e indefinido. Dessa massa sem fronteiras e sem forma emergiu algo leve e transparente e formou o céu. Era a Planície dos Céus Elevados, na qual se materializou a Deidade do Augusto Centro do Céu. Logo depois o Céu trouxe à luz a Elevada Augusta Deidade Produtora de Maravilhas e a Divina Deidade Produtora de Maravilhas.

O que era pesado e opaco neste vazio gradualmente precipitou-se e deu origem à Terra. Levou um tempo imenso para se condensar suficientemente e formar algo sólido. A Terra era como uma mancha de óleo flutuante na superfície da água. De repente, como que jorrando por um tubo, dois seres imortais nasceram de suas entranhas: a Deidade-Príncipe Primogênito do Agradável Jorro do Tubo e a Deidade-Celestial Eternamente Pronta.

Muitos deuses nasceram em sucessão, e assim, eles cresceram em número, mas enquanto o mundo permanecia num estado caótico, não havia nada para eles fazerem. Então as Divindades Celestiais convocaram dois seres divinos, Izanagi e Izanami, e ordenaram-lhes que descessem ao lugar nebuloso, ajudando-se mutuamente para consolidar um lugar em terra firme. Foi-lhes conferido um tesouro precioso, com o qual governariam a Terra, a criação que lhes foi ordenado fazer. Receberam cada um uma lança, cravejada com pedras preciosas.

Izanagi e Izanami receberam respeitosa e cerimoniosamente a arma sagrada e dirigiram-se à Ponte Flutuante do Céu, que ficava entre o Céu e a Terra, e permaneceram um instante a olhar o que havia abaixo. O que eles avistaram foi um mundo ainda não condensado, parecendo um mar de neblina, exalando um odor de inexplicável fragrância. Primeiro, ficaram perplexos, sem saber onde e como começar, mas logo Izanagi sugeriu à sua companheira que eles deveriam tentar revolver a bruma. E assim dizendo enfiou a sua lança e descobriu que tocara em algo. Ao retirá-la, percebeu que uma gota caída da lança imediatamente coagulou e formou uma ilha. Felizes com o resultado, as duas Divindades desceram da Ponte Flutuante para a Ilha que miraculosamente havia sido criada.

Izanagi e Izanami desejaram tornar-se marido e mulher. Erigiram no centro da ilha um pilar, o Augusto Pilar Celestial, e construíram ao seu redor um grande palácio. Depois, indo em direções opostas deram a volta no pilar. Izanagi para a esquerda, Izanimi para a direita. Quando eles se encontraram no ponto de partida Izanami, falou primeiro: “Que bom encontrar um jovem tão bonito”. E Izanagi, respondeu: “Que bom deparar-me com tão linda donzela”.

Depois disto, eles se uniram no leito conjugal. Izanami deu a seu consorte um filho, mas o bebê nascera fraco e sem ossos. Pesarosos, eles o abandonaram na água, colocando-o em um bote feito de junco. O segundo filho foi tão desapontador quanto o primeiro. As duas Deidades, agora profundamente desapontadas com o seu fracasso e cheio de pressentimentos subiram aos Céus para saberem dos Deuses Celestiais qual era a causa de seus fracassos. Os Deuses fizeram uma cerimônia e então disseram: “A culpa é da mulher. Ao dar a volta no pilar, não foi correto nem apropriado que a divindade feminina falasse primeiro que a divindade masculina. Esta é a razão”.

As duas Deidades viram a verdade e resolveram retificar o erro. Então, eles voltaram à terra e mais uma vez deram a volta no Pilar Celestial. Desta vez Izanagi falou primeiro: “Que bom encontrar tão linda donzela”. E Izanami respondeu: “Estou feliz de poder encontrar um jovem tão bonito”. Depois disto, todas as crianças nascidas deles não deixaram nada a desejar. E eles tornaram-se os pais do País das Oito Grandes Ilhas, como é conhecido o Japão.  


sábado, 2 de junho de 2012

Como a Noite Apareceu



Cobra Grande, Ilustração de Laerte Silvino, 2009


No principio, a noite existia mas ninguém conhecia. Era sempre dia e ninguém dormia. Mareneíma, da tribo Tapuia, caiu na besteira de se apaixonar por um caraíba. Seu pai não gostou nadinha daquele ramerrame. Usou seus poderes mágicos. Transformou a filha numa imensa sucuri. Maraneína, muito triste com aquela separação, num ato de vingança, carregou a noite pro fundo do rio Amazonas.

É por isto que o povo da floresta morre de medo de sucuri. Quando vem à tona, não poupa vivente, derruba barrancos, encalha navios. Não existe canoa forte que resista aos seus ataques. Diante da Cobra Grande, todo valente agoniza de fraqueza.

A linda e meiga Cunhapora crescera sob os cuidados do avô, longe da mãe. Quando chegou a idade de casar, recebeu dele a benção. Aimberê, foi escolhido. Moço forte e bonito, irmão de Cauré. E foram viver na maloca da família de Aimberê.

Cauré e Aimberê não eram gêmeos mas o que um sentia o outro sentia também. O que um queria o outro dizia amém. Para onde Aimberê se movia, lá estava Cauré. Se Aimberê ia caçar, Cauré ia junto. Se Aimberê ia tomar banho, Cauré ia também. Se Aimberê ia pro matinho, Cauré dizia: me espera!

Aquilo passava por fraternidade. Mas com o tempo, o grude virou problema. “Vai ver se estou na esquina, Cauré”, pedia Aimberê. “Mas na floresta não tem esquina, Berê”, sorria o irmão. “Então vá passear na praia que quero muito dormir”, respondia Aimberê. “Mas a noite não existe”, retrucava Cauré. E Aimberê se punha a matutar num jeito de ficar sozinho com Cunhapora. A vontade de dormir bagunçava seus pensamentos. “Dormir pra que?” Cauré resmungava. “Quando a gente dorme a alma da gente vai embora. Eu não, não quero saber dessa besteira de dormir. Quando a gente morre, dorme pra sempre”.

Antes de partir para o fundo do rio, M'boia Açu prometera à filha um lindo presente. E até aquela data, necas de pitibiribas. Aimberê puxou Cunhapora pro lado e lembrou-lhe da promessa feita pela sogra. Cauré buscaria a encomenda e assim ficariam sozinhos para brincar.

Cauré aceitou a tarefa contente da vida. Afinal, faria qualquer coisa por aquele irmão. Gostava dele e fazia de um tudo para não vê-lo aporrinhado. O irmão era o irmão, o que não pedia chorando que não fizesse sorrindo? Pegou a canoa, jogou dentro um porção de frutas e, seguiu ao encontro da temida Cobra Grande.

Quando estava muitas léguas rio acima, na beirada do poente, M'boia Açu aflorou. Com sua imensa cauda, deu três lapadas na superfície da água. Cauré quis gritar mas resistiu. E engrolando as palavras disse: “Vim a mando de Cunhapora”. Ao ouvir o nome da filha, Cobra Grande sossegou. “Vim buscar o presente de casamento que você prometeu. O marido dela quer muito dormir. Não sei pra que, mas parece que a sua filha também quer”. O rasgo que servia de boca à serpente de repente escancarou. Cauré pensou: vai me devorar. Mas o que ouviu foi uma risada gostosa de quem aparenta satisfação. M'boia Açu disse: “Espera aí que vou ali e volto já”.

E não demorou segundos, estava de volta à tona com um coco. “Está aqui o que minha filha precisa. Mas olhe, tenha cuidado, não abra. O buraquinho foi muito bem tapado com cera de uruçu. Se for aberto, todas as coisas se perderão. E você vai junto, zoiudo”. Com ânimo reforçado, Cauré atalhou: “Não precisa se preocupar, M'boia Açu. Sou sujeito reservado”. E a Cobra Grande olhou bem no fundo dos seus olhos: “É bom que seja assim, senão... Agora vá, diga à minha filha que meu coração já está mais aliviado. O fato de você vir aqui é a prova de que, pelo menos ela, ainda gosta de mim”. E mergulhou num rompante que levantou uma onda do tamanho de uma casa. Cauré segurou-se nas bordas da canoa que deslizou ligeira na direção do nascente.

Faltando metade do caminho para chegar à aldeia, Cauré reparou num bocado de ruídos estranhos. Assuntou donde vinham mas não viu nada que se assemelhasse. Os ruídos continuaram. Assuntou de novo e notou que vinham de dentro do coco. Aquilo só podia ser presepada de M'boia Açu. Pegou o coco e encostou o ouvido. Sim senhor, vinha de dentro do coco aquele monte de ruídos. O que será?, o que será?... Pensou que se fizesse um furinho podia saber do que se tratava. Olhou pra frente, pra trás, para os dois lados do rio e, com a ponta da unha, retirou um tantinho da cera. Foi o bastante. A noite saiu em revoada e cobriu toda a terra. Cauré acudiu pedir socorro mas, da sua garganta, em vez de voz o que saiu foi grunhido. Cauré não era mais Cauré. Cauré agora era macaco.

Na aldeia todos foram pegos de surpresa. Não sabiam que a noite era daquele jeito: ruidosa, cheia de barulhos estranhos e assustadores. Receosos, cada um cuidou de procurar um buraco onde se enfiaram até que aquelas visagens desaparecessem. Cunhapora falou: “Cauré fez bobagem. Não era pra noite vir assim”. Aimberê, satisfeito, não queria saber de mais nada, queria o que sempre quis desde que conheceu sua amada. “Vem, Cunhapora, vem, vamos dormir”. E não notou que o cesto onde guardavam mandioca havia se transformado em onça; os gravetos que iam começar o fogo, agora eram lagartixas; a tigela onde preparavam o cauim, se mexia que nem tatu; os galhos das árvores viraram corujas; e as pedras na beira do rio metamorfosearam-se em sapos e rãs.

Não posso. Preciso dar nome as coisas. Senão tudo vai ficar perdido e a gente nunca vai conseguir encontrar coisa alguma”, disse Cunhapora. E no assento da palavra, com aquela escuridão tomando conta de tudo, foi chamando cada coisa pelo nome que lhe vinha à cabeça e, a medida que atendiam, soprava-lhes na boca a voz de cada um. Assim fez até que a noite sossegou e, finalmente, todos puderam dormir. Nove meses depois, Aimberê e Cunhapora ganharam de presente um belo kuru'mi que ri muito cada vez que a mãe lhe conta esta história.

E quanto a Cauré? Bem, passado um tempo, cansado de viver de galho em galho, voltou para a aldeia e foi destranformado. Mas sabe-se lá porque, daquele dia em diante, só consegue dormir com um olho aberto e outro fechado.


sábado, 21 de abril de 2012

A Tradição Relativa VIII



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O Dilúvio Sumério

Numa de suas muitas viagens pelo mundo, Gilgamesh encontrou um homem muito velho chamado Utnaspashtim.

Contava o ancião já ter vivido algumas centenas de anos e portanto, visto de tudo um pouco. Gilgamesh pediu então que lhe contasse algo de muito antigo, algo que tivesse visto com os próprios olhos.

Utnapashtim pensou, pensou e lembrou-se de que numa certa ocasião, a muitos séculos atrás, foi convocado por Ea, o deus da água, a desmontar sua casa e construir um barco. Um grande barco, um barco enorme e hermeticamente fechado para que pudesse abrigar “a semente de cada um dos seres vivos”, teria dito o deus.

- E porque o deus te pediu isto?
Eles estavam zangados com a humanidade
Zangados
Sim, a humanidade fazia muito barulho e eles não conseguiam dormir.

Utnapashtim contou a Gilgamesh que foi convocada uma assembleia divina onde o problema foi debatido durante muitos dias. Cada deus queria castigar a humanidade de um jeito diferente. Mas sempre embarravam na proteção que um outro deus ofertava. Até que Enlil, o deus supremo, sugeriu mandarem uma grande inundação para destruir tudo e permitir assim uma boa noite de sono aos deuses.

Mas uma inundação que destruísse tudo era por demais terrível. Concordaram que isto só seria usado uma única vez e deram a sua palavra, através de Ea, a Utnaspashtim que construiu seu barco bem a tempo, antes de chover por seis dias e seis noites, sem parar.

O dilúvio resultante encobriu a terra e afogou todos aqueles que não estavam a salvo dentro do barco. No sétimo dia, o vento amainou e as águas acalmaram.

Utnapashtim contou a Gilgamesh que abriu uma portinhola e soltou uma pomba. Que a pomba voou à procura de terra firme, mas não a encontrou e retornou. Contou então que soltou uma andorinha, mas o resultado foi o mesmo. Finalmente, disse que soltou um corvo e esperou. E o corvo não regressou. 

Deduzi que devia haver terra firme em alguma parte. Depois de um tempo, o barco pousou no topo de uma montanha que despontava das água. Foi aí que eu vi que os deuses cumpriram com a palavra
O que você viu
Vi Ishtar fazer brotar no horizonte um arco-íris. Agora, sempre que vejo um, sei que os deuses reafirmam seu compromisso de não destruir totalmente a humanidade.



sábado, 3 de março de 2012

A Tradição Relativa VII


Poster by HChangeri, in zazzle.com

O Dilúvio Chinês

Num belo dia estava um camponês a colher seu arroz, quando ouviu o ribombar de um trovão. - Estou farto de ti, deus dos trovões. Sei perfeitamente que fazes isto apenas para me aborrecer. Correu até sua casa e pendurou uma grande gaiola de ferro na parte de fora e disse aos seus dois filhos: - Fiquem dentro da casa até que eu diga para saírem. O deus dos trovões, brilhante como o som de mil sinos, bastante zangado com o camponês, apareceu por sobre a casa. - Desça daí, seu covarde - berrou o furioso camponês. - Não te escondas atrás das nuvens. E aguardou o deus empunhando sua forquilha, com os dois pés fincados no chão. Com um movimento rápido e ágil, o camponês apanhou o deus nos dentes do forcado e atirou-o dentro da gaiola. - Aí estás. Agora podes fazer barulho e enfurecer-te quanto quiseres que já não me incomodas. Não tardou que a chuva acabasse e as nuvens se dissipassem, o deus fora derrotado.

Na manhã seguinte, o camponês decidiu ir ao mercado. - Fiquem longe da gaiola. Não lhe dirijam a palavra, diga ele o que disser. Mais importante ainda, não deverão dar-lhe de beber. A uma distância segura, o filho e a filha do camponês observaram o prisioneiro na gaiola. Atrás das grades tinha uma aspecto inofensivo, contudo muito triste e desalentado. Ao longo de todo o dia o sol brilhou, até que as crianças sentiram sede e foram à fonte beber água. O deus, ao reparar numa gota que escorria pelo queixo da moça, disse com a voz fraca e em tom de lamúria bem diferente dos urros troantes do dia anterior: - Por favor, deem-me um pouco d'água. Não tendo os dois jovens lhe prestado atenção, o deus insistiu: - Tenho certeza de que o vosso pai não sabia que hoje ia estar assim tão quente. Num dia quente como este, todos deviam ter direito a um pequeno gole de água, sejam deuses ou humanos. A moça argumentou que não podiam desobedecer às ordens do pai e que aquilo era para o próprio bem dele. - E se eu vos der a minha palavra de honra que não ousarei tocar-vos?, disse sob aquele sol impiedoso. Os moços pensaram e concluíram que não haveria mal algum em aplacar a sede do deus, afinal era desumanidade negar água a quem quer que fosse. Mas não sabiam que a força e o poder do deus provinha da água. Mal a primeira gota lhe passou pelos lábios, recobrou seu antigo ânimo e libertou-se da gaiola. As crianças recuaram aterrorizadas mas o deus tranquilizou-as: - Nada temam. Disse que não vos faria mal. E pela bondade que demonstraram, vos darei um dos meus dentes. Plante-o e usem os frutos que ele gerar com sensatez. Dito isto, voltou para o céu.

Preocupados com o que o pai faria quando visse que o deus desaparecera, decidiram plantar o dente. Ao menos, quem sabe, nascesse dali alguma coisa que pudesse agradá-lo quando regressasse. Imediatamente irrompeu uma planta do chão e nasceu-lhe um único fruto: uma cabaça gigantesca e ficaram sem saber para que servia aquilo. Nesse momento voltou a chover e, quando o pai chegou do mercado, já havia grandes poças em redor da casa. - Vocês têm consciência do que fizeram? O deus dos trovões voltou para o céu e, para se vingar, irá inundar a terra. Por causa de vocês, vamos morrer todos afogados. Aquilo era uma injustiça, as crianças notaram. Havia sido ele e não elas quem tinha começado aquela querela. Mas agora era tarde, as águas já estavam à altura da cintura. - Terei que construir um barco para nós. Enfrentei o deus com uma forquilha de ferro, encerrei-o numa gaiola de ferro, por isto será num barco de ferro que irei proteger-me dele.

Lançou mãos ao trabalho e os filhos ouviam mais o ferro sendo batido que o som da chuva. O barco de ferro não tardou a ficar pronto mas as crianças não quiseram entrar a bordo. Lembraram-se do que o deus havia dito acerca do dente mágico. E descobriram a razão daquela cabaça ser imensa. Apesar dos protestos do pai quando subiu para seu próprio barco, as crianças entraram na cabaça gigante. E as águas subiram até que chegaram às portas do céu. Jamais um humano lograra aproximar-se delas, por isto, quando o camponês bateu com a força dos seus punhos e pediu ajuda, o senhor do céu foi apanhado de surpresa e quis saber que barulho terrível era aquele que se ouvia vindo da terra. Informado que tudo não passava de vingança do deus dos trovões contra o camponês, ordenou que as águas baixassem. Mas elas baixaram tão rapidamente que o barco de ferro estatelou-se na terra, partindo-se em vários pedaços ocasionando a morte do camponês. Felizmente para as crianças, a aterragem deles foi mais suave. A cabaça embateu contra o chão e balançou ainda umas quantas vezes, após o que as duas crianças pisaram o solo, nada sofrendo além de uns poucos arranhões. Foram os únicos sobreviventes daquela catástrofe. Como não havia nada para comer, o senhor do céu, os presenteou com uma bola de carne. Eles a repartiram em pequenos pedaços e espalharam ao vento. A cada pedaço que atingia a terra, nascia um novo ser humano. Dos lançados por Nu Wa, nascia mulher; dos lançados por Fu Xi, nascia homem. E assim, graças ao casal irmão primeiro, a terra pode ser novamente repovoada.


sábado, 4 de fevereiro de 2012

A Tradição Relativa VI


Deucalião e Pirra, Giovanni Maria Bottalla, 1635

O Dilúvio Grego

No inicio, a humanidade vivia como deuses – tranquilos e em paz. O trabalho não existia, porque a Terra, espontaneamente, produzia tudo. Os primeiros seres humanos jamais envelheciam e, após deixarem esta vida, recebiam o privilégio de se tornarem intermediários entre os deuses e os mortais, encarregados de vigiarem a justiça dos governantes. Quando Zeus decidiu que manteria este grupo limitado a Trinta Mil Imortais Invisíveis, uma parte da humanidade negou-se a prestar-lhe culto. Embora contrariados, os deuses permitiram que recebessem a honra de tornarem-se também intermediários entre o Céu e a Terra mas agindo de baixo para cima, na outra vida. Os que sobraram, foram irredutíveis. Entregaram-se ao império da força e da violência. Por isto foram chamados de Filhos da Lança, completamente indiferentes à justiça. Instalou-se a trapaça e a dissimulação. Todos guerreando contra todos, pilhando, conspirando, fraudando. Em nome do maldito desejo de possuir, árvores foram cortadas das encostas por puro divertimento. A terra foi demarcada, sugada toda a sua vitalidade, na busca insana de metais preciosos. Mãos ensanguentadas brandiram armas mortíferas na direção do céu, ameaçando até as estrelas. A Terra transformou-se um vale de sangue e lágrimas.

Zeus convocou a assembleia dos deuses para discutirem o futuro da humanidade. Atená interviu, solicitando que fosse dada mais uma oportunidade aos seres humanos. Zeus decidiu andar pelo mundo para ver se encontrava alguém justo, alguém que não tivesse sucumbido à loucura e ao descomedimento. Ao chegar na Arcádia, revelou-se e todos zombaram dele. Dirigiu-se ao palácio do tirano e foi recebido durante um banquete onde era servido carne humana. Indignado, Zeus os amaldiçoou e, decidiu ali mesmo afogar o resto da humanidade num grande dilúvio. Aprisionou o vento norte e baniu as nuvens. Permitiu que o vento sul zunisse suas asas gotejantes e farfalhasse seus véus negros como breu. A fúria incontrolável de Zeus recebeu ajuda de Netuno que, chamou todos os seus rios e lhes disse que abrissem suas comportas e decantassem o aguaceiro e as águas correram livres. Rios caudalosos cobriram as grandes planícies. Tudo foi varrido: flores, grão, gado, humanos, casas, cidades, bosques e os altares com seus fogos sagrados. Se algo insistia em se manter de pé, as águas engolfavam. Tudo virou um mar, um mar sem linha de praia. A inundação tomou todas as coisas, ou quase todas, e aquelas cuja água, por algum motivo poupou, acabaram conquistadas lentamente pela inanição.

Apenas os picos gêmeos do Monte Parnasso mantiveram-se acima das águas. E ali, apenas um homem e uma mulher conseguiram chegar. Deucalião e Pirra remaram sete dias e sete noites num barco construído por Prometeu, o eterno protetor da humanidade. Quando Zeus viu que o mundo era um grande oceano, que somente uma mulher restava de todas aquelas milhares delas, e só um homem entre milhares de outros, ambos inocentes, despediu as nuvens, liberou o vento norte e mostrou a terra ao céu e o céu à terra. Netuno baixou seu tridente e acalmou as ondas. E o mar novamente pode ver a praia, os rios entraram nos seus leitos e a inundação cedeu. Colinas ficaram à vista, árvores despontaram com suas folhas ainda barrentas. O mundo voltou à vida.

Deucalião, olhou em volta, vazio, em silêncio. As lágrimas escorreram-lhe quando disse à sua mulher: - Minha consorte, prima e parceira... Neste caos, olha: de toda terra, apenas nós dois! Pelo menos não estamos sozinhos, temos um ao outro. E choraram, choraram juntos. E pediram ajuda: - Ó Têmis, se a fúria dos deuses sempre ouve uma prece correta, lhe imploramos: diga-nos de que maneira nossa ruína e desolação pode ser reparada. Ajude-nos, tu, a mais gentil das deusas, a encontrar um caminho alternativo. E a deusa guardiã dos juramentos humanos, falou-lhes: - Arranquem suas túnicas, cubram a cabeça, e joguem os ossos de vossa mãe atrás de vocês. Pirra, com os lábios trêmulos, disse que não faria aquilo, que era uma impiedade. Mas a voz continuou repetindo o mesmo conselho por horas a fio. Por fim, eles entenderam que a terra era a mãe e as pedras seus ossos. E a cada pedra jogada por Deucalião, nasceu um homem. A cada pedra jogada por Pirra nasceu uma mulher. E a terra pode novamente ser repovoada.