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sábado, 26 de março de 2022

A guerra que nos vive

 

War, Marc Chagall, 1915



Partiria. Atenderia ao chamado, decidiu.

Que o esperasse, com uma torta de frango sobre a mesa, pediu e jurou, diante dos olhos tristes da mulher, que retornaria assim que o conflito terminasse.

A ela (enquanto ajudava na arrumação da mochila) ocorreu que o caos não duraria para sempre…

Até riu, e contentou-se, tudo passa, fixou!


Mas o esperado demorou…

E o tempo, implacável, se sucedeu em opressiva inutilidade.

Então, as mãos cansaram, os seios murcharam… os dentes caíram até


Numa desavisada manhã, sem que nenhum estrídulo de sirene arranhasse o ar, a própria esperança se extinguiu e o relógio cessou a vigília.


O que era vivo faleceu e o que tinha perecido insistia em viver.


Enfardado de cicatrizes e remorsos, o maltrapilho homem cruzou o vão da porta morta.

Automática, a vista perscrutou a sala fúnebre e ao sentar-se à mesa defunta sentiu que o abandono era sua única companhia.

E ali, habituado ao vazio conquistado, compreendeu que morrera no instante em que partira.


Lá fora, a guerra zurrava. 



        

sábado, 25 de janeiro de 2020

Um bom dia para desenterrar tesouro


Ilustração de N.C.Wyeth 
para o livro A Ilha do Tesouro
de Robert Louis Stevenson



Thomas Clement Douglas era um pastor batista, nascido na Escócia, que tornou-se um proeminente político social-democrata no Canadá. Como primeiro-ministro da província de Saskatchewan, de 1944 a 1961, pelo partido CCF (Cooperative Commonwealth Federation), liderou o primeiro governo socialista da América do Norte e introduziu o modelo de saúde pública universal, o Medicare. Morreu em 1986. Lembrado por sua sagacidade e atuação destemida em favor dos direitos constitucionais, em 2004 foi eleito o maior canadense de todos os tempos. A Carta dos Direitos de Saskatchewan precedeu, em 18 meses, a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela ONU. Seu idealismo pode ser reconhecido neste conto político conhecida como Mouseland, contada por ele num discurso proferido no ano de 1944. Vamos à fábula:

Esta é a história de Ratolância, uma país semelhante em tudo aos demais. Ali, os ratos viviam e brincavam, nasciam e morriam. Da mesma maneira que eu e você. Em Ratolândia tem casa, tem rua, tem praça, tem fábrica, igreja, escola, hospital… tem também Parlamento. Por isso, a cada quatro anos os ratos faziam uma eleição. Iam às urnas e votavam. Como você e eu. E todas as vezes, os ratos, os camundongos e as ratazanas elegiam um governo. Um governo composto de grandes e gordos... gatos pretos.
Se você acha estranho que ratos escolham um governo composto de gatos, basta olhar para a história do Canadá nos últimos 90 anos e talvez você perceba que eles não são mais idiotas do que nós.
Não tenho nada contra os gatos, acho até que são boa gente… Conduzem o governo com dignidade. Aprovam boas leis - isto é, leis que são boas para os gatos. Mas as leis que são boas para os gatos não são muito boas para os ratos. Uma das leis diziam que os buracos de ratos têm que ser grandes o suficiente para que um gato possa colocar a pata. Outra, obrigava os ratos a viajarem em certas velocidades - de modo que um gato possa tomar seu café da manhã sem pressa. Todas as leis são boas leis…. para gatos.
A vida era dura para os ratos. E foi ficando cada vez mais difícil. Cansados desse estado de coisas, os ratos decidiram que precisavam fazer algo a respeito. Chegaram à conclusão de que deveriam votar, em massa, nos gatos brancos porque eles tinham feito uma campanha fantástica, cujo slogan era: “Abra seu olho”. Em todos os meios de comunicação apareciam os candidatos brancos afirmando: “O problema de Ratolância são esses buracos de rato redondos que temos. Vote em nós que criaremos buracos de ratos quadrados."
E fizeram. Só que os buracos de rato quadrados eram duas vezes maiores do que os buracos de rato redondos, e agora um gato conseguia colocar não uma, mas as duas patas. E a vida foi ficando mais dura do que nunca. Quando os ratos não aguentaram mais, votaram e trocaram o governo dos gatos brancos por… gatos pretos.
E a cada eleição votavam ora nos brancos ora nos pretos. E houve uma eleição, que pra variar, votaram em gatos meio pretos e gatos meio brancos. E chamaram isso de coalizão. E na eleição seguinte votaram nos gatos com manchas. Como podem ver, meus amigos, o problema não é com a cor do gato. O problema é que eles eram gatos. E porque são gatos, naturalmente cuidam de gatos em vez de ratos.
E aí surgiu um ratinho com uma ideia. E disse aos outros ratos: "Por que continuamos a eleger um governo composto de gatos? Por que não elegemos um governo composto de ratos?"…
- Oh, disseram, ele é um comunista. E o colocaram na cadeia. Mas esta é uma atitude inútil, de nada adianta. Afinal, os carcereiros jamais conseguem prender uma ideia e basta que ela consiga entrar na maioria das cabeças para, finalmente, tornar-se realidade”.


sábado, 21 de setembro de 2019

Fábula com notas


O Futuro chegou faz pouco, Fede Biagioli, Argentina



Como se ocorresse num conto futurista (no velho e mundialmente consagrado estilo science-fiction opera), meia dúzia de cópias piratas de personagens mal-ajambrados e toscos invadem a cidade e causam um tremendo estrago com sua linguagem chula, injúrias e insultos pornograficamente inaceitáveis.

Através de edital, o chefe da polícia convoca o Homem “Branquinho” - super-herói pau-para-toda-obra e professor particular de gramática, para dar um jeito naquelas monstruosidades atentatórias aos costumes talentosamente criativos do povo do lugar.

Pintada como o combate do século, pelas forças de segurança(1), a porrada come solta em cada canto, cada beco, cada brecha da lei, sem nunca se atrever disputar audiência com a novela das nove por justa e legítima reivindicação da primeira e única rede de mídia nacional.

E tal qual nos conflitos épicos típicos, o herói apanha pra chuchu no começo para somente no final conseguir realizar seu objetivo que, coincidentemente (2), devido a providencial ajuda das mais requintadas agências de propaganda, é o mesmo da população que o assiste e acompanha através das redes sociais e dos costumeiros noticiários e comerciais.

Chegado neste ponto, imediatamente após o estupro da liberdade de expressão pela intolerância, o herói oficial consegue finalmente apagar do sistema, um a um, as esdrúxulas criaturas – não sem deixar um rastro de más recordações e péssimas lembranças, o que é perfeitamente normal e aceitável, já que, diz o adágio popular, não se faz omelete sem quebrar alguns ovos.

Com o tempo ficamos sabendo que tudo não passou de uma cortina de fumaça. Tinha sido o prefeito, dono de empreiteira, o cérebro por trás daquelas criaturas. Tudo fizera para destruir a cidade, com o propósito de pressionar a população na aprovação de novas e vultosas verbas para a construção de um novo empreendimento que atraísse turistas do mundo inteiro para a sua rede de hotéis temáticos arrendados a preço vil para um conglomerado de mídia internacional, exatamente o mesmo encarregado de transmitir ao vivo, através de sua cadeia de televisão, toda a movimentação de tropas pela libertação da rua de baixo das garras sangrentas e ignóbeis dos autonomistas prejudicados que atuam em conluio com uma legião de multifacetados criadores de trovas e quadrinhas.

Em meio aquela confusão, o alcaide não só embolsou a grana como, pê da vida, ateou fogo em tudo e foi curtir a boa vida, de braços dados com Madame (aquele caso perdido que não vale a pena discutir), no paraíso fiscal conhecido como La House of Nooca, longe e a salvo dos mosquitos, saúvas e cucarachas.
E todos – uma fauna e flora exuberantes e com alta taxa de diversidade – viveriam infelizes para sempre, sem nunca encontrarem o rumo de casa, não fosse o pessoal de Bacurau chegar a tempo de impedir que aquela lambança continuasse.

No apagar das luzes, quando já estávamos prontos para a subida dos créditos, a comunidade serenamente irritada, de saco mui cheio e com uma peixeira nos dentes, pegaram o prefeito, sua curriola e cupinchas dos naipes executivo, legislativo e judiciário, botaram pra pentear macacos, catar coquinho, chupar pregos até virar tachinhas e foram aplaudir o pôr do sol porque o amanhã, entre nós, reza a lenda, fica pra depois e nada é tão urgente que não possa esperar uns cinco minutinhos.


Notas
(1) As mesmas que, na ausência de um inimigo externo, faz com que seus generais, visando manter as tropas em prontidão, insistam na velha e surrada manobra de inventar um saco de pancada local no qual - tais cachorros loucos - possam descarregar seu ódio na porção mais fraca da raça humana. Dizem os mais proeminentes psicanalistas, tratar-se de uma profunda negação do self, misturado com um alto teor de vergonha pequeno-burguesa, pelo fato de serem todos filhos da tia do cafezinho com o motorista do patrão.

(2) Na tenra idade, talvez anterior ao útero, aprendemos que privilégios são inatos. Desta forma, certos uns (segundo a teoria da meritocracia e chancelada pelo personagem mítico conhecido pela alcunha de meupapai) não têm o que temer quando se trata de disputar o filé na Colina dos Recursos Escassos.



sábado, 31 de agosto de 2019

Fábula Anônima


Nature morte à la racine et au cordage jaune
Le Corbusier, 1930



Era uma vez dois países separados por um rio, rápido, largo, perigoso, no qual muitos se afogavam ao tentar atravessá-lo.
Um dos países se chamava Felicidade, pois lá leite e mel fluíam das pedras. O outro, devastado pela preocupação e destroçado por brigas, era chamado Infelicidade.
Um dia, um homem, ao observar aquele meio, decidiu fazer algo.
– Esticarei uma corda de uma margem à outra. Mesmo que eu morra ao enfrentar os perigos do rio, não importa. No futuro, outros poderão apanhar a corda, atravessar o rio com segurança e atingir a Felicidade.
Encontrou uma corda, amarrou uma das extremidades em uma árvore, agarrou a outra ponta e mergulhou na correnteza, a lutar contra as ondas.
No meio da espuma e dos redemoinhos, caçadores confundem-no com um animal e atiram nele, ferindo-o mortalmente. Num último esforço, o homem atingiu a outra margem e, pouco antes de morrer, conseguiu amarrar a corda a uma árvore.
Pessoas que assistiram seu sacrifício, passaram a reverenciá-lo como um homem de coragem, dizendo:
– Ele morreu para nos salvar, portanto é digno do nosso amor.
E muitos passaram a render-lhe homenagens mas ninguém seguia seu exemplo por medo da morte.
– A água é fria e o rio tão largo… Grande é o perigo da travessia.
E no decorrer dos anos, a corda foi esquecida. Coberta de algas e de galhos, deixou de ser visível.
Porém, o culto ao herói sobreviveu: o povo construiu monumentos em sua memória, cantou hinos em sua honra e continuou evocando o seu nome. Vieram as gerações: a segunda, a terceira, a quarta… Oradores, cientistas e letrados falavam das virtudes do herói e contavam como que, morrendo, ele salvara os homens.
Mas nunca mais se falou da corda jogada por cima do rio. Tinha sido esquecida.
Os argumentos, os discursos e os ensinamentos dos sábios acabaram criando uma grande confusão. Oradores declaravam: Por que esta disputa? A única coisa necessária é adorar o herói e acreditar que ele morreu para nos salvar. Quando morrermos, entraremos sem dificuldades no país da felicidade. Se o nosso corpo nos proíbe, por enquanto, a travessia do rio, após a morte a nossa alma voará para o outro lado. O amor, a potência e a coragem do herói foram tão grandes que tudo o que pedirmos ao seu espírito ele nos concederá.
E o povo, ao ouvir isto sentiu uma alegria imensa e cobriu de honrarias os oradores.
– Grande é a vossa sabedoria, disseram as pessoas, vocês nos mostram um caminho fácil. É simples: adorar, rezar e solicitar ao nosso herói a salvação na hora da nossa morte. Agora, comamos, bebamos, sejamos alegres e aproveitemos da melhor maneira a nossa estada no lugar onde estamos.
Enquanto isso o espírito do herói contemplava o povo com tristeza, escutando as suas orações e súplicas. Todos haviam esquecido o principal: a ligação que havia entre um país e outro.
É que aquele povo perdera a chave que lhes permitiria compreender o gesto do herói. Estavam por demais acostumados a usar os olhos da carne em vez de buscarem enxergar com os olhos da alma. Ainda surdos, não conseguiam ouvir a voz do herói a clamar:
– A corda… A corda… A corda…



sábado, 6 de outubro de 2018

Fábula Estúpida


Personagens do Mamulengo Presepada, Brasília-DF



No Reino do Bafafá, era uma vez, um capetão da cavernas (também conhecido como o inominável) que um belo dia, na padaria da esquina, onde toda tarde tomava um sisudo cafezinho, encontrou uma viúva (conhecida na vizinhança como a baranga histérica) e logo deram de trocar umas ideias. Conversa vai, conversa vem, decidiram (para espanto geral) que era hora de juntarem armas.
Feitos os acordos, emendaram os fios dos bigodes e após tomarem posse da vaquinha arrecadada pela seita que os uniu, foram passar a lua de mel na Casa de Noca - reduto de uma massa destra e bastante fashion, a crème de la crème de uma seleta brava gente de patrióticos e brancos corações.
Quando chegou a hora do onça beber água, quer dizer, na hora de botar a rotina pra funcionar, ela, dona de uma rede de mercadinhos, louca de pedra pelo retorno da dita-dura (que a tempos não curtia) começou a perceber que dois e dois não resultavam quatro e tratou de botar olheiros para monitorar as escapadelas do varão.
E não é que o belo saía para se encontrar ora com uma loira recatada e do lar, ora com uma ruiva limpinha e cheirosa… e houve vezes até que foi filmado, gravado e fotografado dentro de uma quitinete (devidamente preparada para abater incautos de qualquer sexo) com um halterofilista desempregado conhecidíssimo na baixada pela alcunha de prepúcio glande.
A bocca chiusa comenta-se que, o musculoso levantador de pesos mortos, após acalentar a baioneta, por várias e repetidas vezes, diante de um público ávido por emoções baratas, conseguira do capetão (agora presidente da cadeia varejista de secos e molhados da mulher) uma boquinha como gerente de marketing encarregado de criar frases de efeitos para serem esculpidas em letras de fogo logo acima das tabelas de preços.
Na hora, sem pensar, o bruto e serelepe prepúcio cuspiu algo que vivia guardado a sete chaves em seu caderno de notas com jeitão de diário: “Literatura, Filosofia, Sociologia e Arte são ótimas para libertar a mente mas quem precisa de liberdade se a boa e velha Sacanagem nos mantém com os pés no chão”.
Encantado com a perspicácia e charme do seu tonitruante auxiliar o capetão se riu tanto que estourou-lhe as pregas. Estimulado, prepúcio aproveitou a oportunidade para tecer elogio ao seu tripé macroeconômico, declarando-se pronto para desenvolver, para gáudio da indústria nacional, uma potente e monumentosa produtora de filmes educativos sexualmente, totalmente customizados e ao gosto do cliente.
Fula da vida (porque puta ela não podia ficar, sob pena de pisotear seus próprios princípios) a baranga histérica, que tudo vira e ouvira, sem pestanejar, em sua tela de plasma e agora, absoluta e definitivamente recalcada, vendo que seus encantos de fêmea de nada lhe valiam, resolveu enfiar o dedo nas fuças do marido, chamando-o, na cara dura de, nada mais nada menos, um tremendo viado boiola e baitola desmunhecado da silva, logo que ele lhe pedisse para servir o jantar. Vixe, praquê! Suas amídalas foram parar do outro lado do Atlântico, vítimas de um cirúrgico pescoção nos cornos.
Decidida a buscar justissa a qualquer preço, deu uma chegada no quartel mais próximo de casa e registrou queixa, em nome da moral e dos bons costumes. Porém, a cúpula judiciária-midiática-militar, sorteada para julgar o caso, baseada da teoria da dependência, decidiu pela nulidade do processo sob a alegação de que o principio “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, supera todas as disposições em contrário.
A baranga histérica ainda cogitou buscar outros meios de reparação mas, como haviam sido revogados todos os outros meios, engendrou derramar água quente no ouvido do cônjuge. E foi assim que viveram infelizes para sempre.
Moral da história: em terra dos tais homens de bem, ninguém vale um vintém.



sábado, 24 de fevereiro de 2018

Um Grão de Montanha


Montanhas, Omar Rayo, 1955








O que não tem conserto, consertado está”
Ibraim Al’Xazira de Saragoça
Mestre Cervejeiro, século XI




Um filho tinha pais bastantes idosos. Embora o peso fosse considerável, carregava-os nos ombros para onde quer que fosse. Para complicar, os velhos levavam, cada um, uma montanha sobre a cabeça. Andar daquele jeito tornara-se insuportável.

O filho pediu aos pais que abandonassem aquele excesso. Os velhos responderam que não, que estavam acostumados; que as montanhas eram tudo que herdaram de seus antepassados e que, sem aquele peso, ficariam tão leves a ponto de saírem à deriva pelo espaço, igual um balão desgovernado, indo aonde o vento os levasse.

O filho, então, procurou um homem engenhoso e falou-lhe do problema. O perito perguntou ao velho o que mais gostaria de aproveitar na vida. Recebeu como resposta: admirar uma bela paisagem. Ao perguntar à velha, ela não hesitou: cuidar de um belo jardim.

O homem habilidoso trouxe suas ferramentas e esculpiu sobre a cabeça do velho uma linda paisagem; sobre a cabeça da velha, um primoroso jardim. Ao fim, os dois ficaram ansiosos para contemplarem o resultado da obra.

O homem astuto disse que, pra isso, precisava retirá-las de sobre suas cabeças… Os velhos relutaram mas acabaram concordando. E ficaram tão encantados com o que viram que desceram dos ombros do filho e, como um último favor, pediram ao artista que colocasse sobre suas cabeças um grão da montanha correspondente, para que seus antepassados não se sentissem ultrajados.

E o filho daí então podia fazer suas caminhadas aliviado, afinal seu velho pai, até o último dos seus dias, dedicou-se a admirar a linda paisagem enquanto a velha mãe não se cansava de cuidar do belo jardim. 




sábado, 20 de maio de 2017

O Circo da Onça Parda


The Wheel of Life, Stanley Pinker, 1974


A Onça sonhava em ser estrela de Hollywood. Mas como morava na Cochinchina, pediu dinheiro emprestado a uma tia, comprou uma lona e montou um circo.
No dia seguinte contratou um Domador de Pulgas, três Girafas Bailarinas, quatro Besouros Palhaços, cinco Araras Malabaristas, seis Jiboias Equilibristas, sete Macacos Trapezistas e saiu pelo mundo fazendo graça. Mas o seu grande trunfo, aquilo que chamava mesmo atenção, era o número final do espetáculo: uma peça teatral, escrita, dirigida e protagonizada por ela. E para alcançar o sucesso, a Onça desenvolvera uma engenhosa estratégia. Em cada localidade que chegava, botava seu bloco na rua à procura do assunto mais comentado. A partir daí, criava um roteiro, trocava os nomes, acrescentava alguns quiproquós, enfiava meia dúzia de piadas e zás… Não tinha erro: casa cheira todo dia.
Tinha mesmo talento pra coisa, a Onça. O que ninguém sabia era que ela se valia de uma arma secreta. Para não depender apenas da equipe, mantinha escondido no seu trailer um sistema de escuta, inventado por ela a partir de apostilas de um curso de eletrônica por correspondência. Esse equipamento lhe permitia ouvir até pensamentos. Era só apontar a antena na direção do alvo para ouvir até as batidas do coração da pessoa, estivesse onde estivesse. Desta forma, a Onça conseguia ouvir tudo que não se costumam falar na presença de estranhos e também aquilo que nem às paredes se tem coragem de confessar. Desse modo, não existia segredo para a Onça e esse era o seu segredo. Até que o circo chegou na Vila do Poxaréu.
Logo após o desfile das atrações pela rua principal do vilarejo, a Onça falou que ia tirar um cochilo, correu pro trailer e apontou o radar na direção das casas. Logo captou uma conversa estranha. Gravou que a Família Bovina se gabava de colocar água no leite e assim aumentar os lucros sem aumentar a produção. Gravou também a Família Abelha comentando que vendiam melaço de cana misturado com suco de milho como se fosse mel puro. E conseguiu escutar que a Família Leão vendia proteção e segurança enquanto chefiava uma quadrilha de Hienas e Fossas assaltantes.
De posse dessas e de outras histórias cabeludas, a Onça preparou sua apresentação da noite, certa de que estouraria a boca do balão. Afinal, todo mundo gosta de histórias escabrosas, pensou esfregando uma mão na outra.
Mas, o tiro saiu pela culatra. Quando o público viu a encenação, não houve quem conseguisse segurar a turba. Uns exigiam saber como foi que a Onça conseguiu acesso àquelas informações e quais eram suas fontes; outros alegavam que tudo não passava de uma campanha de difamação contra famílias eminentes da cidade. O que ninguém podia negar era que, nunca na história de Poxaréu se tinha ouvido falar de tanta corrupção.
O delegado emitiu ordem de condução coercitiva para que a Onça comparecesse ao tribunal, porém quando os guardas vieram prendê-la, encontraram o povaréu pronto pra tocar fogo no circo e prender os artistas, para sempre, num buraco bem fundo, no meio da floresta, sem pão nem água, para que morressem à míngua. Formou-se uma confusão, um empurra-empurra dos diabos. A Onça aproveitou uma brecha, tentou sair de fininho pra se livrar do equipamento secreto mas, alguém a segurou pelo rabo e, após descobrirem fitas e mais fitas de gravações clandestinas no seu camarim, não pensaram duas vezes: levaram-na presa para responder pelos crimes de lesa-pátria e alta traição.
No julgamento, alegou em sua defesa que apenas encenou a verdade. Se a maioria da população fosse mesmo direita, como afirmavam ser, deviam mesmo era prender e condenar os poderosos que vinha enganando todo mundo desde muito tempo.
O júri deliberou e decidiu que, pela culpa de indiscrição, a Onça teria seu equipamento destruído e um chip seria implantado na sua orelha – cada vez que tentasse ouvir uma conversa alheia receberia uma descarga elétrica. O circo pode seguir caminho mas, a trupe foi avisada de que jamais deveriam colocar os pés de novo na cidade, sob pena de morte bastante dolorosa.
Desde aquele dia, o Circo da Onça Parda nunca mais foi o mesmo. Gato escaldado tem medo de água fria, não é assim? Hoje, sobrevivem assim-assim, levam a vidinha, apresentam velhos números, fazem as mesmas piadas, encenam as mesmas peças... O problema é que, sem entusiasmo, o sucesso não bate duas vezes na mesma porta. 
Quanto a Vila do Poxaréu, depois da partida do circo, o povo decidiu processar os corruptos. Mas como eles dominavam e dominam os poderes locais, acabou acontecendo o que todos estão acostumados: deram uma mudada para que tudo continuasse como estava. 


sábado, 6 de maio de 2017

Cariátide

Pórtico do Museu de São Petersburgo
Entrada Histórica



Dois humanos se encontraram diante de uma cerrada névoa. No ponto que estavam não se enxergava um palmo adiante do nariz.
Um deles sugeriu subir nos ombros do outro para ver se conseguiria avistar o horizonte e que depois trocariam de posição. O primeiro concordou e o segundo subiu em suas costas e lá se estabeleceu.
Por vezes, o primeiro tentou saber o que se passava acima da sua cabeça e o segundo respondia que logo desceria; que logo o outro subiria para ver com os próprios olhos o que tinha para ver; que aguardasse mais um pouco; que logo seria a vez dele usufruir das maravilhas que lá em cima se projetava.
E o tempo passou, e a medida que o tempo passava o segundo construiu sob os ombros do primeiro, uma casa, depois uma rua, depois uma cidade, depois um país, depois uma nação e assim foi até construir uma cultura com todos as benesses e mazelas que o engenho pode oferecer; além disso, casou-se, multiplicou-se, legando a seus filhos o nobre encargo de prosseguiram com a edificação da Obra.
E o primeiro sempre a perguntar quando trocariam de posição e sempre recebia como resposta que tivesse paciência; que esperasse um pouco mais; que havia ainda alguns retoques, alguns ajustes, que logo, logo poderia subir e completar aquilo que havia ajudado a criar. Que se orgulhasse disso, a posteridade lhe seria grata.
O primeiro também casou-se, multiplicou-se e os seus filhos não tiveram alternativa senão seguir o pai, colocando seus ombros a serviço da Construção.
Com o tempo, aquilo se tornou normal, virou tradição. Havia os de baixo que sofriam e os de cima que usufruíam e ninguém sabia explicar porque as coisas eram daquele jeito.
Um dia, o primeiro, acabado, gritou basta. Disse que não dava mais, que dali pra frente o segundo procurasse outro para sustentar aquela excrecência.
Lá do alto, o segundo, irritado, bradou: Não podes desistir, humano sem compaixão. Se deixares de sustentar a Obra, todo o nosso esforço terá sido em vão. É isso mesmo que queres, destruir a Civilização?
E o primeiro não aguentando mais, deixou que seus ossos fossem transformados em coluna de sustentação para mais uma área em desenvolvimento.
Moral da história: O interesse é a mãe da justiça. 


sábado, 25 de fevereiro de 2017

Fábula

Calúnia, Sandro Botticelli, 1495



Um homem falou tanto que seu vizinho era ladrão que o moço acabou preso.
Alguns dias depois, descobriram que ele era inocente.
O moço foi solto mas, decidiu processar seu acusador.
Diante do juiz, em sua defesa, o homem disse:
- Foram apenas comentários, não causaram tanto mal.
O juiz, após refletir, falou:
- Escreva os comentários numa folha de papel e depois pique. Jogue os pedaços no caminho de casa. Amanhã, volte para ouvir a sentença.
O homem obedeceu e, no dia seguinte, voltou.
- O senhor terá que recolher todos os pedaços de papel que espalhou ontem, ordenou o juiz.
- Mas isto é impossível, Meritíssimo. O vento os espalhou, já não sei onde estão.
- É isso. Do mesmo modo, um simples comentário pode destruir a honra de uma pessoa e, depois, você não tem como consertar o mal, respondeu o juiz, condenando o homem à prisão.


sábado, 2 de julho de 2016

Três Fábulas

The Flabed Garden, Conroy Maddox, 1939



I

O menino e a menina eram coleguinhas de escola, numa cidade do interior de um grande e adiantado país. Um dia, entre os dedos da menina, o menino viu uma lapiseira. O menino olhou torto para a menina e elogiou a lapiseira. A menina sorriu e disse que a mãe dela a tinha dado. O menino então perguntou de onde vinha o dinheiro com o qual a mãe dela comprou a lapiseira. A menina disse que tinha vindo do trabalho dela. O menino insistiu: e quem tinha dado trabalho pra mãe dela? A menina, baixou os olhos e disse que o pai do menino havia dado o trabalho, no qual a mãe dela ganhou um dinheiro para afinal comprar a bonita lapiseira. O menino encheu o peito e exigiu a lapiseira para si porque havia sido o dinheiro do seu pai que comprara a lapiseira. A menina chorou e contou tudo pra mãe que, revoltada, pediu justiça. O pai do menino disse que aquela atitude não contribuía para a ordem e a paz na cidade e exigiu que o juiz ordenasse à diretora que expulsasse a menina da escola.



II

A China, certa vez, foi assolada por uma seca braba. O vice-rei encarregado dos negócios religiosos, queimou o estoque de um ano inteiro de incenso, na esperança de comover o coração divino. Mas o deus não estava nem aí para a súplica e as preces. Após muitos orações, ritos e oferendas, não obtendo resultado, o vice-rei entendeu que era inútil qualquer gesto. Ordenou então que o deus fosse informado que se não chovesse até determinado dia, que fosse procurar fiel noutra freguesia. E a chuva não veio. Indignado, o vice-rei proibiu adoração ao deus insensível e mandou destruir seu santuário. Quando as primeiras marretadas sobre as paredes do templo se fizeram ouvir, começou a chover. Primeiro um chuvisco, depois foi aumentando, aumentando, até virar uma tempestade que durou pra mais de mês. Quando estiou e as águas baixaram, cidades, casas, plantações, animais e a maioria da população tinha desaparecido.



III

Lá pras bandas de Pernambuco, um dia, uma cabra muito esperta foi comprada por uma dona, na feira do povoado. A mulher, grávida de gêmeos, trazia os peitos fartos, inchados de tanto leite. Mas temia que para os filhos, viesse a faltar alimento. Tratada com estimação, a cabra passou a zanzar pela casa como se fosse um membro da família. Finalmente, a mulher pariu dois meninos parrudos e comilões. Mas o leite dela não secava, jamais veio a precisar do leite da cabra que, daí em diante, toda noite, vinha devagar pra beira da cama da mulher e, após ela ter amamentado os meninos, aproveitava pra sugar um bocado do líquido generoso. A mulher, na madorna, pensava que era um dos meninos gulosos e não ligava. E a cabra bebia, bebia, bebia até não querer mais. E engordou, engordou, engordou até que o pai dos meninos achou por bem servi-la como prato principal no primeiro aniversário das crianças.  


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O Sapo Barbudo e a Princesa Magnólia

Era uma vez uma princesinha que morava numa ilha bem distante chamada terra da felicidade nas cercanias de onde canta o sabiá. Um dia, meio sem querer querendo, a serelepe moçoila, que gostava de brincar de bola, deixou a sua jabulani cair dentro da lagoa dos sonhos encaçapados. Pensando que o seu brinquedo favorito estivesse perdido para sempre, desandou a choromingar em alto e bom som, para todo mundo ouvir, e a dizer que assim não era possível, que assim não dava (ops!), que tinha que haver um jeito de retomar sua rotina de folguedos sem a intervenção desastrosa dos ventos que vinham do norte, assim sem mais nem menos, pegando a gente desprevenido, de calças curtas, com as calças na mão (melhor dizendo), tudo por conta da nossa imprevidência costumeira alimentada por pensamentos voltados para o sexo dos anjos e a prosaica fornicação das abelhas. Caída em si com tão altas e exuberantes reflexões, não percebera que à margem da lagoa miravam-na dois grandes olhos esbugalhados de um parrudo e atento sapo que, conforme pode notar na sequência, muito embora trouxesse a língua presa, articulava o verbo de maneira livre, intrépida e solta. - Olhe, quero dizer uma coisa: não é para me gambar não, mas posso botar a sua bola em campo e virar o jogo, coachou numa velada referência à partida que se desenrolava amiúde nos jardins do palácio entre as aves de rapina de plantão e as hienas suspirosas de largas experiências em campos estrangeiros e do além mar.
- Cuméquié?, despertou a donzela, tu és apenas um sapo barbudo. Duvi-dê-ó-dó.
- Quem desdenha quer comprar. Trago sim senhora, e ainda levanto a tua bola. Mas só se me prometeres um beijinho.
- Sai, sapo safado, gabola! Primeiro quer a mão, depois comes o meu braço...!
- Olhe, é pegar ou lagar, quer ou não sua alegria de volta?
- Quero. Mas só um beijinho viu, que sou moça de família!
E o anuro mergulhou nas águas espessas da lagoa e lá no fundo, após lutar dois dias e duas noites com dragão da maldade e os desígnios insondáveis da providência, conseguiu recuperar não só a bola, mas também dois velocipedes, três bonecas, cinco bambolês, uma gaita, um apito e uma carrada de bolas de gude perdidas desde tempos imemoriais pela petizada endiabrada do lugar. Depositou tudo aos pés da princesa e ficou no aguardo do beijo. Mas, a danadinha da menina, cheia de noves horas, tão logo se viu na posse do seu amado brinquedo, botou sebo nas canelas e picou a mula. - Promessa é dívida, gritou o rouco batráquio. Ah, isto não vai ficar assim não! E a partir daquele dia não deu folga à donzela. Para onde ela ia, o valoroso sapo ia atrás... de quina, de banda, de lado... nossa!, batendo um bolão. O rei, vendo aquela marcação cerrada, ordenou que levassem o sapo de volta à lagoa que era o seu lugar, de onde nunca deveria ter saído, onde já se viu? - Mas ó, majestade, vou dizer uma coisa, quero deixar bem claro que só estou cobrando uma promessa.
- Do que está falando, sapo? Disse o regente, bravo.
- Sua filha prometeu dar-me um beijo depois que eu recuperasse a bola perdida nas águas escuras, profundas e cheias de lodo acumulados por anos de descaso pela companhia de saneamento desta nossa querida e saudosa lagoa.
O rei, então, mandou chamar a filha e lhe disse que aquilo não era feitio da nobreza, que promessa era dívida e dívida era para ser paga em moeda corrente e somante, descontadas evidentemente as taxas e emolumentos de praxe estipulados em lei, além do que, algo lhe dizia que aquele entrevero podia resultar num processo deveras desgastante e insalubre perante a opinião pública e privada de dentro e de fora das margens plácidas do combalido reino. Arrependida, a princesa começou a chorar convulsa, como era de costume. E, não conseguindo segurar o saco do choro, meio a contragosto disse pragmaticamente que cumpriria a palavra dada, muito embora estivesse propensa, por educação esmerada e acerba, a deixar o dito pelo não dito visto nas hostes racionais, desenvolvidas, democráticas, liberais e progressistas não era comum esta prática de barganha. Fechou os olhos e deu um selinho na bochecha reconchuda do sapaço ali mesmo diante do olhar incrédulo de todos os presentes. Notícia que foi reportada célere em formato 12, caixa alta, por todas as agências comunicativas daqui, dali e também de acolá, para os ausentes estacionados nos quatro cantos deste mundo véio e capenga de meu deus. E não é que o impensável aconteceu? Quando todos, do alto e baixo clero, apostavam suas fichas na possibilidade de que a maquiagem da esfuziante Magnólia, após acintoso contato, simplesmente borrar e transfigurar o sublime rosto, não é que o sapo barbudo transformou-se num infante varonil, mancebo de quatro costados, macanudo como nunca na história desta ilha se viu em tão alta galhardia? Pois é, finaram-se todos e não tiveram alternativa senão aceitar os altos indices de popularidade que os seus feitos cobravam. Sim, porque tão logo consumado o casamento, o outrora oxidáctilo pôs-se em campo e, movido por audaz e valorosa campanha, não só impediu que a vaca de enfiada fosse parar no brejo como tirou leite das pedras e, sobretudo, não permitiu mais que se colocassem o carro na frente dos bois.

Anos mais tarde, divorciado da Magnólia (que não parava em casa e só queria saber de passear pelos shoppings de miami, caribe e outros paraísos terrenos, dia sim outro também, a bordo de um jatinho cedinho sem compromisso pela associação dos lobistas internacionais a serviços da indústria do teatro de variedades que, dizem a boca pequena, a título da liberdade de dar prensa, urdira um cerca lourenço, uma conversa de raposa com as uvas, visando manter seus privilégios com relação ao monopolio do papel higiênico fabricado no reino e adjacências), o sapo, digo, o jovem, agora senhor absoluto da situação, apesar da turma do conta e do faz de conta, foi agraciado com uma herdeira que, por forças das circunstâncias, gestara na sua própria cabeça, após ter-se casado, em segunda núpcias, com uma chinoca jeitosa que conhecera em suas andanças pelo interior da ilha, uma galeguinha mui prendada chamada Prudência. Mas isto é uma outra história que fica pra depois.


domingo, 14 de março de 2010

Den Chou Masti Gol On

No longínquo, ensolarado e verdejante Oásis da Tranquilidade, o austero, extravagante e ufanista Tavinho Cobra Criada, no porão do seu palácio, produz em ritmo frenético (em seu notibuque de última geração, presente do Felópio Trajano, atual monarca da ilha artificial de Dibujiti, condado de Beija, na Alta Mesopotâmia Bizantina), gráficos 3D de tendências mercadológicas, painéis gigantescos de poses atléticas e viçosas naturezas mortas, embalado ao som de folclóricas árias medievas, mixadas pelo topi da vanguarda discojoquista atual, sir Miro Talagada.

Balela, a cozinheira vesga e taquígrafa nas horas escusas, adentra ao recinto trazendo numa baixela de prata duzias de passocas, lanche predileto do monarca à hora do brequifesti. Tal qual uma matraca, do tipo biela solta, enumera os precalços cotidianos a que se vê submetida todos os dias em que tem que se dirigir ao burgo para afazeres triviais e mundanos. O preço do amendoim aumentou mais uma vez, a carne seca anda em falta no mercado e a dívida palaciana com os vendeiros, nestes últimos três meses, pulou de dez para mil, sem que novos papéis fossem emitidos para corrigir tal distorção. Exasperado, o discipulo de Gauguin, recorda que a exemplo do que foi feito em benefício dos fornecedores de rolhas, vai emitir proclamação autorizando novas concessões de lotes de florestas virgens, terrestres e marítimas que, abençoadamente, cercam o vasto continente sob seus domínios, para serem exploradas, por quem os queira, por cem anos, revogáveis por mais cem, já que a Natureza, neste último semestre, tem sido pródiga em se auto renovar por conta própria.

Burocrácio Cancela, secretário particular, guarda costas e Phd em merchandaize, interrompe os pensamentos reais com a correspondência do dia, panfletos de lojas varejistas com as mais novas e imperdíveis promoções, além de dois ou três recortes de jornais de bairros com critícas veladamente desfavoráveis à arte de bem conduzir os negócios da china praticada pelo chefe. Áspero, emite ordens para que sejam redigidas e enviadas longas cartas explosivas a estes malagradecidos e que sejam canceladas as verbas propagadísticas para todo e qualquer pasquim que se atreva a propagar em alto e bom som que existe a mais remota suspeita de que a vaca está indo, resoluta e altaneira, para o brejo.

Porém nem tudo está perdido, assevera a enorbilíssima mordoma, ao lembrar que, para gozar é preciso relaxar. Detalha amiúde os preparativos para a festa de comemoração dos trinta e cinco anos de mandato e sessenta de oito de vida da insigne majestade e garante que será a mais exuberante de todos os tempos. Presidentes e plenipotenciários das províncias adjacentes e do além mar foram convidados e setenta e seis ponto oito por cento já confirmaram presença com margem de erro de dois ponto três, para cima ou para baixo. A grande surpresa programada será a repartição do colossal bolo confeccionado sob os auspícios de Populus, o maior confeiteiro da paróquia, trazido especialmente de Xaréu do Sul para tão delicada missão. Desta vez, todo e qualquer ser vivente na Ilha receberá um pedaço generoso do suculento bolo mais um pacote de meio quilo de jujubas, de cores variadas, para que possam se distrair durante os intermináveis e justos discursos dos inúmeros inscritos na solenidade de saudação ao lider. Uma tropa, devidamente treinada nos isteites e nas ruínas da Velha Tróia, fará a tradicional exibição de pipas, espetáculo que conseguiu, graças aos esforços de eminentes compadres, ser declarado, ontem à tardinha, patrimônio artístico da humanidade pela Liga das Nações Amigas, Adjuntas e Acerbas.

O peito largo tão amado se infla e sugere que talvez seja uma boa ideia programarem uma exposição dos seus trabalhos em tela. Alcançou a marca de nada menos que seis quadros, no último trimestre. É chegada a hora, brada, do mundo conhecer um pouco mais deste seu lado tão meticulosamente trabalhado nas horas vagas desde que deixou de frequentar o bar do Quinca toda quarta à noite. Quem sabe não apareça olheiro dalguma galeria européia e aí talvez, mexendo-se os pauzinhos certos, possa figurar numa ala reservada do Museu do Louvre, do Prado, do Vaticano ou até no da Madame Tussauds. Ah, que não esqueçam de distribuir entre o populacho, gratuitamente, chapéus de feltro, óculos de sol e reloginhos digitais com estampa de pandas, importados da Mongólia em troca de algumas toneladazinha de carvão e suco de beterraba enviados mês passado.

Certos de que, com firmeza e determinação, sendo as decisões certas tomadas, o resto é só aguardar por novas novidades que, roguemos ao divino, não nos pegue nunca de calças curtas. Então, mãos à obra, conclama o atarefado e criativo regente no instante mesmo em que acaba de ser invadido, de alto a baixo, por nova inspiração para mais uma tela pitoresca.

Com pompa e circunstância e, sobretudo, o máximo de sigilo possível para não atrair olhares curiosos, dá-se início à confecção do momumental bolo que, aguarda-se, alimentará toda a população da Ilha mais os milhares de convidados ansiosamente esperados para a festa magna.

Noite alta, céu risonho, bolo descansando no elefântico e imaculado cofre de trava eletrônica devidamente criptografada, sem que se saiba como, quem, onde, quando e porque, um teco da guloseima é, sorrateiramente arrancado. Fato este descoberto na madrugada, durante a programada ronda do comandante em chefe da guarda pessoal e intransferível que, sedento, deu uma passadinha na cozinha para molhar a goela.

Calamidade nacional. Estado de sítio decretado; forças armadas em alerta vermelho escarlate; todas as fronteiras fechadas com muros de arrimo; comunicados lacônicos, em código cifrados, foram enviados a todas as embaixadas tirando o executivo da reta, além da moratória de todos os compromissos internos e externos. Medidas estas tomadas um pouco antes do galo anunciar a aurora que, naquele fatidíco dia, veio um pouco mais cedo como para certificar-se de que tal ultraje houvera sido deveras cometido contra a mais sagrada das instituições de tão provecta República.

Juizes reuniram-se, ainda de pijamas, para redigir súmulas e acordãos baseados em circunstâncias e fatos passados, presentes e futuros, tudo dentro da mais alta observância das normas jurídicas nacionais e internacionais, visando a boa ordenação dos códigos e o cristalino entendimento que daí em diante, espera-se, seja aplicado por todas as instâncias decisórias no âmbito e corredores do judiciário. Aproveitando o intervalo para o cafezinho, todos os togados, aprovaram a instituição de mais uma Corte, para que a justiça possa ganhar eficiência, rapidez e, sobretudo, agilidade no processamento sumário de todas as demandas a ela submetidas.

O Parlamento, em sessão extraordinária e altamente conturbada, aprovou, após exaustivas consultas às bases e a todas as lideranças partidárias constituídas na base de apoio às reformas profundas em pról da governabilidade, em carater de urgência, noventa e seis ponto dezenove por cento de aumento nos seus próprios salários, sob alegação unânime de que com a crise de pânico instalada naquela casa, a confraria dos psiquiatras e psicologos, em face à demanda, iriam solicitar reajuste imediato das consultas e que, em vista disto, deveriam eles, os parlamentares, estarem sobejamente forrados e prevenidos para mais esta facada típica desses profissionais sobejamente sabido não possuírem qualquer tipo de espírito cívico.

A polícia científica, devidamente assistida por abalizados, experientes e exímos agentes das melhores polícias do mundo atual e contemporâneo que, num gesto de grandiosa solidariedade colocaram à disposição dos investigadores nativos todos os recursos tecnólogicos ao alcance da mão e do bolso do carrancudo gerente do tesouro nacional que, premido pelas circunstâncias, decidiu, abrir as torneiras e fazer jorrar todo tipo de moeda disponível no mercado, afinal era a própria sobrevivência do regime que estava em jogo, conclamou, em linha direta e particular, à Casa da Moeda o primeiro mandatário. De posse de todas as traquitanas possíveis e imagináveis, pistas foram levantadas, indicios sondados, suspeitos interrogados, prisões efetuadas e, ao cabo de várias horas de labuta encheu-se páginas e páginas de prosa, causos e piadas de salão com leve toque picaresco. Tal inusitada peça, demonstrativa da capacidade poética dos ávidos e vigilantes arautos da liberdade de expressão teve que ser devidamente revisada pela Academia de Letras, afinal aprovada estava a Nova Ortografia da Língua Ilhéu e tudo tinha que sair de acordo e nos conformes gramáticos circulantes. Às nove horas em ponto, o delegado chefe do comando superior investigativo, deu entrada no Ministério Público com os trezentos volumes, ricamente encardenados. O dalilografo-assistente nível II os recebeu cerimoniosamente e, com gesto magnânimamente teatral, carimbou o tiqueti do estacionamento.

Após demoradas e dinâmicas leituras, além de centenas de exames e testes grafológicos e fonopsicoaudiométricos, por parte de peritos contratados sem licitação mas amparados por decreto extraordinário de longa data, dado o caráter de urgência urgentíssima que sustenta tais exceções, constatou-se, que a peça processual não apresentava nenhuma prova concreta e palpável na qual pudesse se basear para, metódica e impiricamente, afirmar quem tinha cometido tamanho desatino contra o coração e a alma da Pátria.

Luto geral. A Liga Ecumênica de Mulheres Acima dos Trinta promoveu uma animada procissão de desagravo pelas ruas das principais cidades, o que acabou por promover a elevação do preço das velas e dos lencinhos de papel umedecidos. Alguns pontos percentuais foram acrescentados à domada mais preocupante inflação e uma ligeira valorização da moeda local em detrimento do dólar contribuiu para que as importações aumentassem e as exportações chegassem ao nível crítico mais baixo.

Avizinhava-se um cenário de terror e devastação, ainda mais quando era anunciada mais uma frente fria, seguida de fortes pancadas de chuva, vinda do Nordeste. Os argentinos não estavam ajudando em nada, muito pelo contrário mas, em compensação, a ajuda chegou em forma de centenas de milhares de abanadores de plástico com o logotipo de próspera indústria farmacêutica multinacional desejosa de homenagear o próximo campeonato de pandorgas e, de quebra, divulgar uma aspirinazinha bem baratinha que já está disponível no mercado e nas melhores lojas do ramo de todo o país, testada e aprovada no combate à gripe mexicana que insiste em pular todas as cercas de contenção.

Desanimado e cheio de culpa por não ter considerado um apigreidi na segurança palaciana, Tavinho Boa Boca, resolveu fazer um pronunciamento em cadeia nacional, transmitido que foi para os quatro cantos do mundo moderno e civilizado. Após um ligeiro prologo recheado de chistes humorísticos, reconheceu publicamente que:
a) Isto pode acontecer nas melhores famílias, a vida é uma caixinha de surpresas, já dizia o poeta, disse ele, e que foram os dedos mas ficaram os anéis;
b) Que a hora era de união em torno da sua reeleição, programada para daqui a seis e, desde já, contavam com o voto de todos os ouvintes, videntes e, principalmente, de todos os seus parentes e aderentes.
c) Que jurava ali, para todo mundo ver, de pés juntos e braços abertos, que os culpados por tão insidiosa afronta seriam punidos exemplar e severamente na forma da lei - aguardassem para ver! E que, ao contrário do que certos bufantes empesteadores do nosso azul dulcíssimo ar, por aqui não haveria retrocessos, marcha rés, passo atrás ou ciranda cirandinha por mais que apostassem nelas os especuladores da bolsa alheia.
d) Fazia questão de deixar bem claro que a sua administração, sob a sua batuta, estava fazendo de um tudo para que o próximo campeonato mundial de cafifas, programado para daqui a quatro anos - qual toda a Ilha vem contando para sair definitivamente do buraco e adentrar finalmente ao andar de cima - entrasse para a história como o maior feito que uma nação moderna já perpetrou por estes e outros cantos desta Terra tão carente de novas perspectivas e alternativas que nos livre da herança maldita do passado de tão recente memória.

Aplaudido e ovacionado pela claque durante exatos quinze minutos, solicitou, encarecidamente, que tudo mundo fosse para suas casas, cuidar de suas vidas no recesso de seus lares privados, porque amanhã é dia de branco e não se fala mais nisso. Den chou masti gol on e quem vive de passado é museu!