sábado, 14 de março de 2026

o novo sagrado

 


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as maças estão podres

macieiras também

mas não só as maças

e as macieiras -

todo o pomar está podre

frutos que pensávamos imunes

à podridão

mostram sinais de corrupção

uvas, laranjas, melões…

ninguém está a salvo

eis o normal que sobrevive

mudamos o paladar

invertemos o gosto

o que antes causava repulsa

passamos a desejar

e agora bradamos em megafones

estampamos em outdoors

nos intervalos comerciais

em panfletos, ensaios e teses:

o ruim é bom e o doentio, saudável

o que antes era exceção

esculpimos na pedra -

uma única regra canônica





sábado, 7 de março de 2026

o cão, o menino e a cerca

 

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o cão e a cerca

a cerca e o menino

o cão, o menino

e a cerca entre eles

o cão latia

o menino talatava

(provocar ruído com uma tala

de madeira, plástico ou metal)

a cerca

da direita pra esquerda

e vice-versa

e desse modo assim

todo dia

o menino se divertia

o cão ladrava

e a cerca sofria

e assim se dava

esta agonia

e parecia

que nem o cão

nem o menino

queriam

dar um fim

para esta história


 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

o alívio do instante

 

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aperto no peito

que apavora

qual nota acalmará

a ânsia do poema esquecido

entre a vigília e o sono

(limiar onde tudo nasce

mas também se perde)


aperto no peito

que aterra

qual acorde acudir

o sonho que dissipa a noite

e instaura a

lógica poética das coisas


aperto no peito

que assusta

já é hora de partir

reconciliar o movimento

no apaziguado seguir


aperto no peito

que espanta

eis o alívio inevitável

do instante



 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

às vezes penso

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às vezes penso:


tudo que aguardo


está dentro de mim


esperando pra nascer


 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

leve que nem pensamento

 

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acordei, dei corda nas horas

e pedi que fossem brincar com o tempo

para que eu pudesse alcançar infinitos sons


me remexi na cama sob efeito dos ruídos

que palavreavam dentro da minha ignorância


um chilreio ali - é o bentivi no galho ao lado

o grilo cricrila escondido ao limpar as patas

e um splastik - que estranho, quem será?

- é uma velha tartaruga pisoteando uma garrafa pet

no quintal vizinho…


experimento o vento fazer das suas

enquanto o gavião atita sobre

a xícara fumegante de café…


meus olhos embebidos de verde passeiam

o teto das casas - sinto as cigarras

estridularem seus timbales

como se fossem britadeiras

ou banda insaciável de rock


escancaro a janela

meus sentidos suam

mas acordei leve

tal qual os pensamentos

que me despertaram


 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Balas custam caro

 

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O corpo mutilado do delegado Moreira, fora encontrado na Alameda dos Anjos. O Departamento de Ordem Pública soltou uma nota afirmando que o honorável servidor público, com relevantes serviços prestados à defesa da pátria, fora vítima da insídia subversiva e que sua morte seria vingada, exemplarmente. Tinha eu uns 20 anos na época e acompanhei chocado os desdobramentos.

Alguns dias depois, as dependências do quartel general da repressão estavam lotadas de familiares, parentes, amigos, colegas, conhecidos e conhecidos dos conhecidos de todos os presos políticos e procurados pelo regime de chumbo instaurado no país em 2034. Mas não havia lugar para tanto preso.

Os detidos foram encaminhados então para outros quartéis, hospitais psiquiátricos e quando também estes ficaram superlotados a cúpula decidiu ocupar estádios. Quando nos estádios não havia mais lugar para trancafiar os inimigos do sistema, veio a ordem para começar a eliminar, lenta e gradualmente, de fome, sede, maus tratos, privações, contaminações, todos os prisioneiros. Alguém, numa ponta, questionou se não seria mais fácil dar um tiro na nuca de cada um. Pouparia queixumes. “Não”, berrou o chefe dos chefes. Estavam em fase de contenção de despesas; que seria muito dispensioso; além do que o estoque de munição mal dava para meio dia de tiroteio; que seguissem as ordens e parassem imediatamente de tentar melhorar o que não tem jeito. Ponto final.

E neste ponto, é natural que nos perguntemos: o que de fato aconteceu com o delegado-chefe do maior centro repressivo do regime? Quem realmente fora o responsável por sua morte?

O motivo do crime era assunto que percorria toda a nação ninguém encontrava resposta. Ficou claro por A mais B que nenhum comando revolucionário emitira tal ordem. Então, como um rastilho de pólvora, a pergunta bateu nas portas do Ministério da Defesa e Segurança Interna. O general Portela, ministro-chefe, deu ordens severas para que o caso fosse arquivado e que o corpo fosse enterrado com honras de Estado e a família recebesse todos os benefícios a que o oficial da lei tinha direito, acumuladas todas as gratificações e mais algumas coisinhas.

Porém, o delegado adjunto Mosca, contando com apoio de uma meia dúzia de oficiais de alta patente, descontentes com os rumos que o Alto Comando vinha imprimindo ao projeto político, decidiu investigar por conta própria. Respaldado pelo general comandante da II Região foi à luta e encontrou a prova definitiva de que o colega fora executado por ordem expressa do Palácio Central.

Esse é um encrenqueiro. Só pensa no próprio umbigo. Já estou de saco cheiro dele. Dê um fim nisto”. Perdido no meio da papelada que abarrotava o prontuário do falecido, xerografo por um cúmplice no Ministério da Guerra, Mosca encontrou o bilhete, escrito em maiúsculas numa folha de papel com o timbre da presidência da república, dirigido ao ministro. A assinatura não deixava dúvida: a ordem veio do topo da pirâmide. Era preciso romper aquele ciclo, concluiu.

Teve inicio então sua militância clandestina na oposição. Logo arrastaria para seu lado boa parte dos delegados que trouxeram procuradores, juízes, políticos e uma camada significativa da elite rentista e empresarial insatisfeita com a política de torneiras fechadas até que o bolo crescesse.

Pressionados por seus próprios aliados e ameaçados pelo bilhete encontrado por Mosca - um homem do sistema, movido pela autopreservação, calculista político - agora alçado a líder oposicionista reconhecido internacionalmente, os milicos não tiveram alternativa senão voltar aos quartéis, não antes de firmarem um pacto com o subalterno de jamais trair seus antigos comandantes. A mesa fora virada, a transição começara. O homem que encontrou a prova da incompetência fardada, cumpriu o que prometeu, levou para o túmulo o porquê Moreira morreu?

Mas se o Mosca morreu sem revelar nada, de que jeito você ficou sabendo disso tudo”, perguntou minha neta. “Ora, eu sou o autor… sei de tudo que se passa nesta história. Não gostou, inventa a sua”.


 

sábado, 31 de janeiro de 2026

horizonte oculto

 

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uma janela inexorável olha

para outra janela de persiana abaixada...

e existe, no alto, uma porta

que jamais conversa com outra porta


ai de mim que,

debaixo do cobertor,

reclamo do intermediário

que dá bom dia por mim!


- zé, diga pro 12 que ele amassou a lateral do meu pegout!

- vou olhar no replay, doutor!

- pra que, foi ele e cabou!

- vê só, o seu vizinho do 27, não tinha que estar no segundo-subsolo, já que a vaga dele é no primeiro… às 22:45 ele fez uma manobra arriscada…

(não me desculpo, não é do feitio de ninguém da minha laia)

- dê seu jeito ou processo o condominio!


apenas advogados garantem

que causas sejam lembradas:

vitória ou vingança - quem perde, perde

quem ganha jogou dinheiro fora

e recebe do volta indiferença - doença mortal

produzida por uma bactéria

que caiu na Terra, alojada num meteoro

e criou a ilusão de que a gente

nunca jamais deve conhecer o horizonte…


 

sábado, 24 de janeiro de 2026

qual é o teu céu?

 

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será que o cachorro pensa,

que quando morre

vai pro céu dos cachorros?


e as gaivotas e as cigarras,

os bem-te-vis, os gaviões, os urubus...?


e os pernilongos - não sei se sonham -

será que vão para algum céu?


de minha parte quero ir pro céu da poesia

onde as coisas simples são sublimes


e eu continue a olhar a mesma tela

desta vista que tenho diante dos meus olhos

nesta Garça Torta que é sempre mar...


meu melhor sonho de paraíso

é transitar

e lembrar apenas

da última encarnação


 

sábado, 17 de janeiro de 2026

Meu pai é um animal

 

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Até metade da minha infância me sentia igualzinha meu pai. Tinha ele muito pelo sobre o corpo e adorava exibir suas mãos grandonas e unhas grandes e envergadas. Era muito mais alto, o meu pai, maior que todos os outros pais que eu conhecia. Um gigante de nariz enorme, por onde fungava mais alto que som de carro de gente sem gosto. Acreditei que um dia, quando fosse maior – tinha eu uns 6 anos da época em que consegui vê-lo por inteiro - seria igual a ele, com a mãozorra, capaz de enchê-la com um coco, uma bola de basquete ou uma jaca e meter medo em todos à sua volta.

Um dia, meu pai perdeu o emprego, teve que gastar o pouco dinheiro que ainda tinha na poupança e começou a andar pela casa chutando a mesa, as cadeiras, dando murro na geladeira, no fogão, nas paredesTeve um dia que deu um murro tão forte na televisão que sobrou pedaço de vidro, plástico e negocinhos eletrônicos por todo a casa. Minha mãe me puxou pelo braço e trancou a gente no quarto.

No dia seguinte, meu pai tomou o café como se nada tivesse acontecido. Repousou sua mãozona sobre minha cabeça e pediu mil desculpas pelo susto. Ri pra ele um tanto desconfiada e fui pra escola. Minha mãe me contou depois que ele tinha saído para procurar emprego.

Eu estava dormindo quando ele chegou. Bêbado. Foi pra cima da minha mãe e jogou sobre ela toda culpa do mundo, a cobriu com todos os impropérios que conhecia, disse que ia embora, que não servia pra nada, que era o ser humano pior do mundo, que nós estariamos melhor sem ele… Minha mãe chorou e pediu que tivesse calma e pensasse no dia de amanhã, no meu futuro... Ele ficou mais brabo ainda, disse que ela não sabia de nada, que nunca o amou, que casara com ele por puro interesse e que agora tudo seria diferente… O choro da minha mãe aumentou e foi aí que eu levantei e fiquei atrás da cortina que separava meu quarto da sala e pedi a deus que mudasse o rumo daquela conversa, que desse ao meu pai sabedoria suficiente para enfrentar o momento ruim pelo qual estava passando e não nos deixasse no desamparo.

Não sei explicar como aconteceu. Parecia que algo ou alguém apertara algum botão no fundo deste infinito universo e transformado o meu pai num bicho, não um bicho comum: um bicho-fera. Sem mais nem porquê, empurrou minha mãe contra a parede e começou a sufocá-la. Desesperada, pulei a janela lateral a gritar por ajuda. A vizinhança chegou a tempo de arrancar os dentes do meu pai da jugular da minha mãe.

Hoje é dia de visita ao zoológico. Seis anos faço isto toda sexta-feira. Olho sempre para a placa que avisa que a gente não deve alimentar os animais. Por compaixão, desobedeço. Ao atirar na sua direção um pacote de amendoim e uma maça vermelhinha, cruzo com aqueles olhos amarelados, pedintes e lacrimosos por entre as grossas barras de ferro. Ele grunhe... Parece rir. Empalideço e dou um passo atrás.




sábado, 10 de janeiro de 2026

família

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família:

pai, mãe e filhos –

balela

comigo sempre foi mãe e dois filhos -

pai era um vocábulo inexistente

um fantasma


eventuais candidatos

não superavam

aquilo que mãe cumpria


e de mãe conheci avô

igual a todos os pais que existiam

com uma diferença: sabia contar histórias

possuia anseio poético -

sobrevivente pobre, humanidade frágil,

desejo louco de beleza,

transcendência,

apesar da máscara...


mãe contava -

pra minha indignação -

que sofrera horrores

em suas mãos severas, arbitrárias, injustas...

amava e odiava avô


mãe fundou um possível

a partir de cascos, suas falhas

reescreveu uma história -

bastou-me.


 

sábado, 3 de janeiro de 2026

a xícara vazia

 

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ouvi de um poeta

que a vida flui que nem um rio

de modo irregular, inesperado

alisando pedras

se torcendo em curvas

desviando-se

das margens que o oprimem

- penso na vida, cravou

que nem fosse um rio

a enfrentar incertezas e mistério


mas aí lembrei de outro poeta

que disse "tudo começa no pensamento -

ficção de onde começa alguma coisa

porque nada começa, tudo continua"


e arrisquei: o rio tem vontade, poeta

ele pensa ou apenas continua?


o poeta esvazia a xícara

e encerra a estrofe

- os antigos chineses

ansiavam estar de acordo

com a ordem universal

daí não pensarem o rio

pensavam o percurso...


 

sábado, 27 de dezembro de 2025

ressurreição da manhã

 

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hoje acordei em busca de conselho

e a lembrança de um encontro

me levou de imediato

a uma varanda ao luar

e àquele amor resistência

repetido por dias, por horas

todo instante… ah,

repetiria os beijos, as carícias

para que a guerra ficasse longe de mim...

e escrevi e pintei paisagens

e tirei uma foto do mar diante da janela

e lembrei doutro dia em que pintei o sete

e tomei um porre

e fiquei louco

de amor

de tesão

tanto que a poesia construiu em mim

essa virtude

e então

morri

que nem se dorme

antes de ouvir este conselho

e jamais esqueci

a ressurreição da manhã


 

sábado, 20 de dezembro de 2025

ninho

 

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tudo na vida cessa

a chuva, o frio, a sorte

até o lamento da morte

a gente esquece e passa

 

fica somente o ninho

feito de jeito e arte

pra ser abrigo e parte

da vida dum passarinho


 

sábado, 13 de dezembro de 2025

infância

 

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a criança sabia, sem saber

que o desafio da alegria

era esquecer

a melancolia, a tristeza

e viver

capitão da rua,

carrinho de rolimã,

asfalto por oceano

na ladeira, íngreme e grave...


(os apressados e distraídos adultos

com a inveja por fardo

fugiam gigantes

da fortuna de ser pleno)

 

joelhos ralados por medalhas

ranger das rodas, hino de guerra,

meu mundo era a rua

e o tempo

dolorida e doce felicidade


 

sábado, 6 de dezembro de 2025

alegria do futuro

 

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foi "amor à primeira vista"...

logo ele estava a ler jornal

e ela a cuidar da casa


os filhos cresceram

e quanto tiveram idade

o amor repetiu o rito


refugiou todos a casa

ele fechado no jornal

e ela a tecer crochê


outras crianças vieram

ele abusara de ler jornal

enquanto ela pregava botões


o espaço encurtou

vovô, contrariado,

passou a cruzar palavras…


e vovó, liberta,

todos os botões pregados,

começou a ser alegria…


mas faltava rir amanhã



sábado, 29 de novembro de 2025

a verdadeira história que conto e enfeito

 

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oh minha tia

tão velhinha, caidinha

já nem lembra mais

quem sou



minha tia ri

ainda é dona de muitas estórias

que só conta

se a gente ficar queitinho

e comer todos os docinhos

que ela sonha

colocar na mesa



minha tia

sempre foi antagonista

da minha mãe



para qualquer história

duas versões



jamais concordaram



mainha e titia

partiram:



jamais saberei

o desfecho verdadeiro

desta história

que teimo em contar:

era uma vez um limão

que encontrou um jeito

de fazer várias limonadas