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A
noite era perpetuamente úmida em Gromglot,
capital do reino de Zulch-Barag,
um país encravado entre montanhas de osso e pântanos de betume. No
centro do Circo
dos Ecos Perdidos,
estrutura de ferro retorcido que rangia tal
qual
mil almas em agonia, a multidão de vultos se espremia,
convocada
pelo Protetorado
do Catch, que
logo fez
soar
em todos os fones de ouvidos que aquele
não houvera
comparecido seria exilado
nos
campos borbulhantes
e enegrecidos afim de recolher
barris e mais barris do
pretume fedorento
que alimentava as caldeiras que sustentavam
o vida de
todos desde sempre.
Sob
um globo de
luz, que
mais
lembrava
um olho amarelecido, Grommuzar
K'thagg - o
Dourado, aguardava
numa
esquina do ringue. No lado oposto, seu
oponente não era um qualquer, mas sim Vlork,
o Herdeiro,
convocado para enfrentá-lo num
vale
tudo
onde
o perdedor teria sua existência apagada dos registros.
O imberbe
Vlork
passara vinte anos nos Abismos de Procyon, exilado pelo próprio pai,
que temia que o filho lhe
aplicasse
o mesmo golpe que aplicara no seu antepassado.
Fora
criado pela
Lúpula
das Cavernas Uivantes - anciã
que lhe ensinou os golpes abissais
proibidos,
os
únicos capazes de romper a simbiose entre Grommuzar e aquela
criatura que lhe servia de
máscara.
A
criatura dourada que
adornava a cabeça de Grommuzar
não era um simples
adereço:
na
verdade, era
um parasita que há décadas se alimentava de suas memórias, seus
medos e, principalmente, de sua humanidade, deixando-o cada vez mais
oco e dependente. Por
isso nunca fora um lutador legítimo, apenas
um hospedeiro que se
juntara ao verme
encontrado
num
cadáver nos pântanos. Daí,
anos
e anos após o inicio do processo, o Protetorado finalmente publicou
a sentença:
Grommuzar
enfrentaria
seu
filho mais velho num corpo a corpo fatal.
A
luta foi uma cerimônia de agonia. Grommuzar tentou seu favorito
“aperto
estrangulador
de
promessas”,
mas suas mãos escorregaram no vazio que Vlork parecia habitar. A
criatura dourada em sua cabeça chiava,
tentava
manter a aderência, enquanto Vlork
o observava com olhos que não refletiam a luz do globo com
insuficiência renal crônica.
A
multidão de vultos não se
manifestou
mas o silêncio refletido
ficou
mais pesado que qualquer grito, urro
ou clamor.
E
foi aí que Vlork
finalmente envolveu o pai num abraço de
desafeto,
frieza
absoluta. A
máscara
estremeceu, soltou-se do crânio de Grommuzar a
emitir
um som de
espinho
sendo arrancado
da
carne e caiu no chão, contorcendo-se morimbunda.
Todos
os olhos arregalados viram
que Grommuzar não tinha face,
seu
rosto
era
apenas uma superfície lisa e cinzenta, tal
qual de
uma estátua castigada
pelo tempo. Os
vultos inclinaram-se e
um murmúrio rastejou através
do
ambiente:
"Sempre foi oco”. No camarote real, a
consorte
Xylophobia,
levantou-se num
estalar de vértebras e
arremeçou um
bilhete flutuante
na direção do
Conselho: "Fui
buscar minha
chihuahua
no veterinário”.
Seus filhinhos
do peito, Grommzinho
e Ivanka-Zoth
- a Polida,
tentaram capturar a
sanguessuga, que
ainda se contorcia no
tablado, para
colocá-la na cabeça um do outro, mas o
sevandija
já murchava, tornando-se um arremedo
de uma lesma
seca.
Vlork,
olhou por um longo momento para aquela casca vazia que um dia chamara
de pai. Depois, sem uma palavra, caminhou para fora, em direção aos
pântanos,
seguido não por aplausos, mas pelo rangido aliviado da estrutura de
ferro. E no ringue, o que sobrou de Grommuzar K'thagg começou
lentamente a rachar, e de dentro das fissuras, um cheiro de promessa
vencida escapou, dissolvendo-se na umidade eterna de Gromglot, até
que não restasse nada, nem mesmo a lembrança de que ali estivera
alguém.
O
Conselho dos Ecos, satisfeito, fez
desaparecer
seu
nome dos registros e os vultos voltaram para suas moradas a
buscarem, em suas frágeis sinapses, lembrar que a
justiça, em Gromglot, era apenas outro nome para a
morte e o
esquecimento.