sábado, 10 de outubro de 2026

brasil mulato

 

Google Gemini



brasil mulato

branco, índio e negro

síntese da formação


não é papel, pardo

é alma, é história

arroz com feijão,

laje, evangélico

macumbeiro,

mesmo quarteirão


café com leite

na estatística

transborda a pele

que borra o censo


urucum na bochecha

pranto feito cantiga

orixás nos terreiros


sorriso subverte o mundo

brilho incendeia o sol

ginga a curva do quadril

fratura que vira poesia


brasil mulato

corpo de ferro

coração da melodia



 

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

a lavar os cacos

 

Chat GPT


ontem chorei

hoje choveu

chuvinha rala

mesmo assim

lágrima

doída

doida

de raiva

a lavar os cacos


hoje a criança vizinha não chorou

meninos não sairam à rua pro jogo de futebol

da escola não ouvi o alarido costumeiro 

e o trafego correu como se não existisse


meu filho disse que ia arrumar o telhado

mas acabou fazendo as malas

e avisou que partirá logo mais

ficarei sozinho

com meu choro

e a chuva


minha esperança é que chegue logo o verão


 

sábado, 3 de outubro de 2026

monstro

 

Google Gemini



de quantas fraquezas é feito um monstro

de quantos cacos se molda uma fera

de quantos silêncios se cria uma besta?


quanta dor incita os seus dentes

quantas sombras o horror esculpe

quantos segredos sustentam a miséria


seria o medo costurado ao avesso?


quantas derrotas cavam o abismo

quantos escombros escoram o tormento

quantas feridas alimentam a sombra


rascunho de nossas falhas

qual temor pariu tal colosso?


matéria frágil

que nos vive e que nos escapa:

o monstro é o acúmulo de nossas quedas

- e o humano o que dela se refaz


 

sábado, 26 de setembro de 2026

Encasulado

 

Chat GPT


Casulo em casa, na rua sonâmbulo

Fechado em rimas, planos e memórias

Crio no escuro minhas próprias histórias

Minh'alma prefácio e preâmbulo.


Mas quando a porta abre o mundo

O corpo avança e a mente silencia

Cruzo pressa, luzes e ventania

Num transe cego, vago e profundo.


A multidão me apaga da calçada

Sou só um vulto que ninguém nota

Seguindo normas de uma vida gasta.


Eis que a noite me devolve abrigo

E no silêncio que a rotina quebra

Volto ao casulo para estar comigo.


Criado em parceria com o Gemini

Revisado e editado em parceria com o DeepSeek 


 

sábado, 19 de setembro de 2026

Meu dia é hoje, minha hora é agora

Chat GPT


Segui a lição que o mundo ditou

A estressar o futuro e a vida

Na promessa que nunca chegou

Parado a esperar a partida

O tempo passou e fiquei de fora

Meu dia é hoje, minha hora é agora.


Vendi meu sangue a preço de nada

Prisioneiro de um invisível curral

A me serviu de leito a fria calçada

Eu que nasci pra ser um e plural

Cuspi fora os sapos e a droga

Meu dia é hoje, minha hora é agora.


Quebrei as algemas da servidão

Nenhuma cartilha vai me governar

O dogma inútil da minha exaustão

O dever imposto cansei de escutar

Deixo ao sistema à aleatória aurora

Meu dia é hoje, minha hora é agora.


Do chão do fracasso ergui um castelo

Lançei a semente e a chuva abraçou

Aquela verdade de um sonho singelo

Retomei o caminho donde a vida parou

Meu coração me chama à melhora

Meu dia é hoje, minha hora é agora.


Respiro o silêncio da tarde audaz

Dispenso a companhia das ameaças

O peito sossega na calma da paz

O ontem sumiu que nem vento que passa

A felicidade em mim nasceu e vigora

Meu dia é hoje, minha hora é agora.


Criado em parceria com o Gemini.

Revisado e editado em parceria com o DeepSeek


 

sábado, 12 de setembro de 2026

Ao vencedor, o silêncio

 

Google Gemini


A noite estava elétrica na Arena Tenochtitlán. Mais de vinte mil almas enchiam as arquibancadas, todas sedentas pelo espetáculo prometido, anunciado a meses. No centro do ringue, iluminado por um gigantesco holofote, El Naranjo Magnífico, com aquela pele opaca e acobreada, cujas gorduras flácidas faziam oscilar as pelancas, ergueu os braços num gesto de triunfo e exibiu sua marca principal: a peruca loiro-platinado com destaque para o topete tal qual um músculo rígido, às custas de muito laquê, deixava escorrer sobre o rosto alguns fios grossos e sebosos a cobrir-lhe o nariz e parte da boca entreaberta como se de prontidão para pronunciar alguma asneira. Duas tremulantes bandeiras saía-lhe de cada um dos lados da cabeça numa singela referência a chifres de bisão. O brilho daquela cabeleira resplandecia quem nem um farol de mau gosto, enquanto ele arranca o microfone das mãos do mestre de cerimônia e berra com aquela vozinha anazalada com sotaque caipira do sul de Sinalobola: “Eu sou eu e licuri e coco”. A multidão vaiou e aplaudiu, num êxtase esquizofrênico, tão apaixonada que as paredes tremeram contraditórias.

No canto oposto do ringue, seu desafiante não era um qualquer. Era seu filho mais novo, El Barranchón, o gigante silencioso de dois metros e meio de altura, a envergar uma máscara prateada sem nenhum adorno — a máscara "Dos Esquecidos", que Nana Lupita lhe dera antes de partir para Mictlán - a terra dos mortos.

A luta foi um horror, absolutamente sem graça. Nenhum golpe conseguiu arrancar entusiasmo da plateia. El Naranjo circulava pelo tablado a tentar surpreender El Barranchón, mas o olhar entristecido do garoto por vezes lhe comovia. Tentou uma ou duas vezes o seu famoso Aperto de Mão Trapaceiro porém a mão do jovem segurou a sua com uma força que vinha das décadas de silêncio que se impusera desde que fora abandonado naquela caverna escura, no ânus do mundo, sob o pretexto de evitar uma tragédia futura na família (na verdade El Magnifico temia que o menino feito homem lhe usurpasse a fortuna tal qual fizera com seu antepassado de triste memória).

No terceiro assalto, o impossível aconteceu: o gigante silencioso aplicou uma chave de braço simples e pura (aprendida num vídeo do YouTube na noite anterior) que El Magnifico caiu de joelhos, sua torre de cabelo dourado inclinou-se para o lado a revelar uma testa pálida e ardida de suor. O silêncio na arena se fez brutal. O árbitro ergueu o braço de Barranchón. El Magnifico tentou discursar, gritar que fora roubado, que os juizes, mesmo comprados, mijaram pra trás e deram a vitória ao filho ingrato, aquele luchador de quinta. La Dama de Hielo, a esposa-mãe, visivelmente constrangida, ao ouvir a palavra ingratidão subiu serelepe ao ringue e com um sorriso ensaiado numa tentativa de gerenciar aquela crise de imagem, retirou da bolsa de grife notas e notas de petrodólares e as derramou sobre aquele rosto moldado pela expressão de derrota tal nunca se vira em algum ser vivo desde tempos imemoriais.

El Barranchón aproximou-se daquele arremedo de pai. A multidão prendeu a respiração e aguardou o golpe de misericórdia. O rapaz não disse palavra. Ajoelhou-se, fitou aqueles confusos olhos azuis e removeu a peruca num gesto lento e delicado. As câmeras deram um close que repercutiu pelo eter até os enormes telões espalhados de costa a costa do país, atravessou fronteira e atingiu a galáxia… Não foi um mostro que contemplaram. O que os zilhões de olhos viram foi um carecón, um ratón acuado, com marcas de spray laranja a escorrer-lhe pelo rosto, tal qual maquiagem borrada por água de chuva ou enxurrada de lágrimas. 

Barranchón caminhou na direção da saída sem olhar para trás… a multidão, num crescendo, fora levado, por algum fã que sabia da história o começo, a cantar o nome do vencedor: Dodô! Dodô! Dodô! (assim como a velha Lupita o chamava)... Quando o coro atingiu o ápice, o menino feito homem, estancou e nu de fantasia pediu silêncio, encarrou o mundo, refletiu eras e, finalmente, retirou-se.





sábado, 5 de setembro de 2026

O Circo dos Ecos Perdidos

 

Google Gemini


A noite era perpetuamente úmida em Gromglot, capital do reino de Zulch-Barag, um país encravado entre montanhas de osso e pântanos de betume. No centro do Circo dos Ecos Perdidos, estrutura de ferro retorcido que rangia tal qual mil almas em agonia, a multidão de vultos se espremia, convocada pelo Protetorado do Catch, que logo fez soar em todos os fones de ouvidos que aquele não houvera comparecido seria exilado nos campos borbulhantes e enegrecidos afim de recolher barris e mais barris do pretume fedorento que alimentava as caldeiras que sustentavam o vida de todos desde sempre.

Sob um globo de luz, que mais lembrava um olho amarelecido, Grommuzar K'thagg - o Dourado, aguardava numa esquina do ringue. No lado oposto, seu oponente não era um qualquer, mas sim Vlork, o Herdeiro, convocado para enfrentá-lo num vale tudo onde o perdedor teria sua existência apagada dos registros. O imberbe Vlork passara vinte anos nos Abismos de Procyon, exilado pelo próprio pai, que temia que o filho lhe aplicasse o mesmo golpe que aplicara no seu antepassado. Fora criado pela Lúpula das Cavernas Uivantes - anciã que lhe ensinou os golpes abissais proibidos, os únicos capazes de romper a simbiose entre Grommuzar e aquela criatura que lhe servia de máscara.

A criatura dourada que adornava a cabeça de Grommuzar não era um simples adereço: na verdade, era um parasita que há décadas se alimentava de suas memórias, seus medos e, principalmente, de sua humanidade, deixando-o cada vez mais oco e dependente. Por isso nunca fora um lutador legítimo, apenas um hospedeiro que se juntara ao verme encontrado num cadáver nos pântanos. Daí, anos e anos após o inicio do processo, o Protetorado finalmente publicou a sentença: Grommuzar enfrentaria seu filho mais velho num corpo a corpo fatal.

A luta foi uma cerimônia de agonia. Grommuzar tentou seu favorito “aperto estrangulador de promessas”, mas suas mãos escorregaram no vazio que Vlork parecia habitar. A criatura dourada em sua cabeça chiava, tentava manter a aderência, enquanto Vlork o observava com olhos que não refletiam a luz do globo com insuficiência renal crônica.

A multidão de vultos não se manifestou mas o silêncio refletido ficou mais pesado que qualquer grito, urro ou clamor. E foi aí que Vlork finalmente envolveu o pai num abraço de desafeto, frieza absoluta. A máscara estremeceu, soltou-se do crânio de Grommuzar a emitir um som de espinho sendo arrancado da carne e caiu no chão, contorcendo-se morimbunda. Todos os olhos arregalados viram que Grommuzar não tinha face, seu rosto era apenas uma superfície lisa e cinzenta, tal qual de uma estátua castigada pelo tempo. Os vultos inclinaram-se e um murmúrio rastejou através do ambiente: "Sempre foi oco”. No camarote real, a consorte Xylophobia, levantou-se num estalar de vértebras e arremeçou um bilhete flutuante na direção do Conselho: "Fui buscar minha chihuahua no veterinário”. Seus filhinhos do peito, Grommzinho e Ivanka-Zoth - a Polida, tentaram capturar a sanguessuga, que ainda se contorcia no tablado, para colocá-la na cabeça um do outro, mas o sevandija já murchava, tornando-se um arremedo de uma lesma seca.

Vlork, olhou por um longo momento para aquela casca vazia que um dia chamara de pai. Depois, sem uma palavra, caminhou para fora, em direção aos pântanos, seguido não por aplausos, mas pelo rangido aliviado da estrutura de ferro. E no ringue, o que sobrou de Grommuzar K'thagg começou lentamente a rachar, e de dentro das fissuras, um cheiro de promessa vencida escapou, dissolvendo-se na umidade eterna de Gromglot, até que não restasse nada, nem mesmo a lembrança de que ali estivera alguém.

O Conselho dos Ecos, satisfeito, fez desaparecer seu nome dos registros e os vultos voltaram para suas moradas a buscarem, em suas frágeis sinapses, lembrar que a justiça, em Gromglot, era apenas outro nome para a morte e o esquecimento.


 

sábado, 29 de agosto de 2026

Ovos de ouro

 

Google Gemini


Se todo mundo apela para o mercado financeiro em busca de altos ganhos enquanto a produção de bens segue colapsada, não haverá rendimento senão ovos de ouro.

Dona Mirela Prado passa o dia consultando o movimento da bolsa dos ovos de ouro, esquecida de que a geladeira continua vazia.

Se todo mundo possui ovos de ouro e ovo de ouro não é transformado em outra coisa que não seja ovo de ouro, chegará a hora que todo ovo de ouro perderá completamente o valor e as pessoas não mais consumirão o que quer que seja porque nada foi produzido.

O senhor Rocha Prado acumulou tantos ovos de ouro que, no café da manhã, só há ovos de ouro para comer.

Antes do colapso do clima, acontecerá, inevitavelmente, o colapso do sistema financeiro global.

O casal Prado se encontra no jantar para trincarem os dentes nos ovos de ouro ganhos meritocráticamente.

Séculos depois, arqueólogos desenterraram uma residência numa área do que fora uma suposta grande cidade e encontraram, empilhados numa sala que supuseram ter sido uma cozinha, centenas de ovos de ouro.


 

sábado, 22 de agosto de 2026

O Congresso


Google Gemini


Falo de uma noitada a convite de um amigão meu (amigão mesmo), regada a lindas garotas belamente interesseiras e superfaturadas. Ali degustei uísque ao preço de 100 mil dólares a dose e devorei fatias de filé de libélula pré-históricas, importadas das zonas úmidas das Trufeiras do Basyugan na longínqua Sibéria, banhadas de ouro 24 quilates.

Esse amigo, que considero um irmão, infelizmente, nasceu filho de um nababo turco-malaio. Ainda nos cueiros decidiu usar e abusar do hobby de jogar dinheiro fora como uma forma de combater os pecados familiares e assim se livrar da maldição que assola sua genealogia desde tempos imemoriais, quando seus antepassados acumulavam fortuna através de guerras, saques e pesados impostos sobre os ombros de uns pobretões ingênuos fanatizados pelo medo do bicho papão.

Dessa noite, lembro ainda de me jogarem numa luxuosa alcova, mais bêbado que um gambá (se bem que nunca vi nenhum gambá bêbado, embora tenha visto na infância um peru de natal cambaleando pelo cozinha). Ali penetrei um universo onírico e para meu gozo despertei na imensidão do Salão Nobre do Resort & Spa Quinta da Impunidade, localizado numa ilha privada, em águas territoriais internacionais. Diligentes secretárias exigiam, com seus cantos de sereias, que eu assinasse uma papelada. Reparei que acima das nossas cabeças pendia um imenso cartaz que galvanizou minha atenção. Em letras garrafais anunciava-se um Congresso Anual dos Canalhas a ser realizado naquela madrugada. Uma voz de veludo adocicada vinda sabe-se lá de onde, articulada por uma dicção impecavelmente shakesperiana, fazia ressoar a locução: “antes que o povo chore o fim da festa, os primeiros serão celebrados”. Sem mais delongas, rubriquei as páginas, do que presumi ser um contrato, paguei as taxas e emolumentos correspondentes, recebi a chave do meu quarto, uma pasta contendo o material descritivo do congresso além de um dispositivo de votação à prova de fraude. Senti-me pleno na irresponsabilidade dos nobres franceses antes da guilhotina. 

Na primeira página, a composição da mesa diretora: um oportunista hereditário presidiria os trabalhos, acessorado por um pelotão de juristas de aluguel, uma mulher de negócios especialista em trabalhos voluntários e um publicitário encarregado de manter a sujeita da porta pra fora. 

Afogado em baba que escorria da minha boca aberta e caía sobre meu queixo caído, não consegui impedir meus dedos de virar a página e ler as presenças confirmadas: políticos, empresários, influenciadores digitais, bloqueiros de fofocas, velhos amigos de aguas passada e alguns inocentes úteis.

Meus olhos pesaram, pensei em parar, mas o livreto me agarrou e impôs às minhas retinas um mundo inescapável – a pauta. Sem rodeios ia direto ao ponto, ou seja a Institucionalização da Vantagem Própria às Custas da Boa-Fé Alheia. Definitivamente não era um evento de maldade pura, era sobretudo, um encontro para todo mundo garantir que a espada de Dâmocles não lhes caisse sobre a cabeça.

Remexi os glúteos no colchão recheado de penas de ganso zarolhos oriundos das terras altas suíças, envolto em lençóis fabricados em tendas nômades no deserto do Saara por esposas fidelíssimas, não resisti à sedução de ler um a um, pausadamente, os itens para discussão, dentre eles a Arte da Terceirização da Culpa; Técnicas avançadas de como apontar o dedo antes de ser delatado; Monetização da Narrativa e Prática de uma Honesta Canalhice; Como manter as aparências de virtude pública enquanto se opera nos bastidores, por baixo dos panos; Proclamação da Anistia Perpétua para todo e qualquer crime que venha a ser cometido por puro erro de cálculo; Mecanismos jurídicos e retóricos para perdoar os próprios desvios; Como criar regras que blindem o topo da pirâmide contra consequências reais; Engenharia de Acordos Descartáveis; Alianças temporárias baseadas estritamente na conveniência do momento; Estratégias de traição; e, a joia da coroa, um rascunho da redação do Manifesto do Cinismo – uma carta de intenções que deveria ser votada e aprovada ao final do congresso nos seguintes termos: “Nós, os arquitetos da conveniência e guardiões da hipocrisia, reunidos sob a égide do pragmatismo absoluto, declaramos o fim da culpa. A virtude rígida fracassou. O cinismo é, portanto, a única ferramenta sobrevivente para a navegação social eficiente. Fica estabelecida a supremacia da aparência sobre a essência. Afinal, o cinismo não é um desvio de caráter, mas um mecanismo de defesa. Quem exige a pureza do outro é o verdadeiro culpado pela decepção que sofrerá”. 

E finalizava enfatizando que a verdade é uma construção adaptável, que a realidade não importa, que existe uma moralidade de ocasião, que a ética é um adorno estético e que a caridade e a solidariedade são desperdício de capital político.

Fechei os olhos e deixei-me invadir pelas palavras do nosso estimado grão-mestre na abertura o conclave: “Senhoras, senhores e…. Associados de ocasião. Sejam bem-vindos ao evento onde a máscara cai para que possamos, finalmente, ajustá-la melhor. Não se olhem com desconfiança; guardem o punhal na capa, pois hoje o interesse de todos nós é exatamente o mesmo: a sobrevivência no topo. A ingenuidade construiu este auditório, mas foi a nossa astúcia que financiou a decoração. Enquanto o mundo exterior se desgasta debatendo conceitos abstratos tais como "honra" e “virtude”, nós prosperamos na única moeda que jamais inflaciona: a conveniência. Não sintam culpa. A culpa é uma invenção dos fracos para tentar enjaular a sagacidade dos audaciosos. O que as ditas almas puras chamam de traição, nós chamamos de "recalcular a rota". Iniciamos os trabalhos com uma certeza inabalável: o maior erro do mundo nunca será o nosso. O maior erro do mundo é, e sempre será, de quem escolheu acreditar. A boa-fé é um convite ao banquete e nós somos os anfitriões. Ergam suas taças, declaro aberto o nosso congresso. Que vençam os mais rápidos na arte da delação oportuna”.

E pude ouvir o eco da sua confidência informal numa rodinha de pariceiros, antes do início dos trabalhos: “Um brinde ao nosso patrono, este ausente homenageado, que tem nos ensinado que não é necessário ser virtuoso, mas sim parecer virtuoso. Graças a ele, hoje operamos na luz do dia, aplaudidos pelas mesmas vítimas que financiam o nosso banquete. E já que ele está impedido de aparecer, por motivos óbvios, o troféu que lhe seria destinado resolvemos confiscar e leiloá-lo entre os membros da diretoria”. Lembro que rimos a bandeiras despregadas.