sábado, 2 de maio de 2026

Hospício a Céu Aberto

 

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Ouvi a expressão "Hospício a Céu Aberto, de um repórter que tecia considerações acerca do avanço da extrema-direita no Brasil e o seu objetivo final. Aí, joguei no Gemini, pedi que compusesse um pequeno texto satírico e ele me saiu com esta joia. Modifiquei uma coisa e outra, acrescentei alguns detalhes, e eis aqui este modesto resultado que dedico à memória de Murilo Rubião.

Na Vila do Desvario, o decreto nº 299 foi aprovado por unanimidade pela Câmara Municipal: a realidade estava terminantemente proibida. Cansados de secas, boletos e notícias deprimentes, completamente desiludidos com a vida tal qual herdaram dos antepassados, os representantes do povo decidiram que, dali em diante, a cidade viveria num estado de "alucinação oficial coordenada".

A prefeitura foi rebatizada de "centro nervoso do faz-de-conta" e o prefeito denominado “arquiduque das nuvens”, a partir de então, não mais despachava sobre obras, melhorias e impostos... passava as tardes assinando autorizações para que os cidadãos ignorassem a lei da gravidade, interpretassem literalmente a Bíblia além de tornar obrigatório o ensino da terra plana nas escolas e delegar aos vereadores o uso capião do orçamento municipal.

- Senhor arquiduque - disse o secretário de finanças, usando um chapéu feito de cascas de banana - a contas de luz chegou.

- Transforme-as em confete, meu caro! - respondeu o governante. - Diga ao povo que a escuridão é apenas um descanso visual patrocinado pelo universo. Quem reclamar de falta de luz será multado por "excesso de pragmatismo".

A negação passou a ser o motor da economia daquela vila sertaneja. No mercado central, não se vendia mais feijão ou arroz. As prateleiras estavam repletas de caixas vazias, etiquetadas com nomes como "bife de unicórnio" ou "sorvete de saudade". As pessoas pagavam com folhas de árvore secas, jurando solenemente que eram notas de cem dólares.

O ápice do delírio institucionalizado foi a criação da “patrulha do sorriso, do contentamento e caluda”. Se alguém fosse pego suspirando ou olhando para um buraco na rua com desaprovação, era imediatamente levado para o "centro de reeducação criativa" (a cargo de um pelotão de choque da vetusta, insigne e ilibada polícia política, treinada nas melhores e mais eficazes técnicas de fazer calar um inimigo) onde o meliante era forçado a assistir a vídeos de gatinhos tocando piano, desfiles de bandas marciais e sermões de religiosos redpill’s até admitir que o buraco, na verdade, era uma entrada para um reino mágico.

Certo dia, um engenheiro tentou avisar que a ponte da cidade estava prestes a desabar por falta de manutenção. - A estrutura está podre! - gritou ele. A comunidade se reuniu na margem do rio. Olharam para as vigas rachadas e, sob o comando do arquiduque, fecharam os olhos e entoaram em coro:

- A ponte é de algodão doce! - A ponte é feita de desejos! Quando a estrutura finalmente ruiu com um estrondo, ninguém se desesperou. Um morador, vendo as tábuas boiando no rio, comentou com um sorriso satisfeito: - Vejam só! A ponte decidiu virar um barco. Que criatividade maravilhosa a nossa cidade tem!


Na Vila do Desvario, a verdade era a única coisa que não encontrava guarida. A maioria esmagadora dos desvarianos preferiam afundar no rio, abraçados ao delírio, do que admitir que estavam molhados.

Ao decreto nº 299 seguiu-se o nº 300: "É proibido morrer de causas naturais." Em Desvario, ninguém morria; as pessoas apenas "decidiam se tornar estátuas invisíveis". Quando o velho Adauto, comerciante de livros deteriorados de astrólogos desconhecidos, caiu estrebuchando no meio da calçada, vítima de um infarto fulminante, a multidão não chamou a ambulância. O arquiduque das nuvens aproximou-se, derramou um balde de purpurina sobre o cadáver, ainda quente, e declarou: - Vejam a performance artística do Adauto! Ele agora interpreta o papel de “pedra de calçamento imóvel”. Não pisem nele, ou quebrarão o encanto!

Três dias depois, o cheiro de putrefação empestava a rua principal, mas os habitantes passavam com lenços perfumados, importados da Tailândia, amarrados no nariz, elogiando o "perfume exótico de flores raras do submundo" que Adauto exalava.

A “patrulha do sorriso” evoluiu. Agora, eles portavam agulhas cirúrgicas e fios de nylon transparentes. Se o "centro de reeducação criativa" não funcionasse, eles garantiam a felicidade do cidadão costurando os cantos da boca diretamente nas maçãs do rosto. O resultado era uma população de rostos esticados, olhos arregalados de pânico e dentes permanentemente expostos, apodrecendo por trás de sorrisos eternos.

O horror atingiu o ápice da negação criativa, quando o “seu” Machado, não tendo mais como comerciar carne animal, visto eles terem entrado em extinção volutária, passou a oferecer o "filé de amigo imaginário”. - É carne de anjo, freguesa - dizia ele, entregando um pedaço de músculo humano, tatuado com o nome Lourdes, a uma recatada e piedosossíma senhora.

- Oh, Machado, que textura divina! - respondeu a mulher, ignorando o dedo indicador que ainda balançava no fundo da embalagem. - A Lourdes sempre teve um expírito elevado, agora finalmente nos alimenta de sua luz!


O delírio institucionalizado passou a exigir sacrifícios. Quando as crianças choravam de fome, as mães lhes entregavam pequenos seixos e as convenciam de que eram "balas de silêncio eterno".

Na noite em que a ponte de algodão doce desabou e os moradores caíram no rio, eles não lutaram contra a correnteza. Afundavam com os pulmões cheios de lama, borbulhando risadas histéricas e gritando, entre engasgos, que a água era, na verdade, champanhe francês.

O engenheiro, único que ainda enxergava o sangue e o chorume, foi cercado pela “patrulha”: - Você está sendo antipatriota, disse o arquiduque, enquanto os guardas preparavam a agulha e o nylon. - Vamos te ajudar a ver o mundo como ele realmente é: uma grande piada que nunca termina.

Enquanto a agulha perfurava sua bochecha, o engenheiro percebeu que o verdadeiro terror de um hospício a céu aberto não era a loucura em si, mas a obrigação de ser feliz enquanto se é devorado.

Para coroar esse ciclo de horror e negação, Desvario instituiu o seu feriado mais sagrado: o dia do grande rega bofe. Nessa data, uma vez por ano, o "hospício a céu aberto" suspendia qualquer resquício de moralidade fingida. Sob o sol do meio-dia, o arquiduque das nuvens, paramentado com suas centenas de medalhas confecionadas a partir de tampinhas de refrigerantes e botons de campanha política, soava um berrante feito de osso humano e o pacto era renovado. O canibalismo tornava-se um sacrifício ritualístico. A regra era simples: cada cidadão deveria entregar "um pedaço de si ou do seu vizinho" para a grande caldeira na praça. Em meio a risos histéricos e danças coreografadas, eles mutilavam uns aos outros com fações de prata, com uma polidez aterrorizante. Enquanto devoravam a carne daqueles com quem compartilharam o pão o ano todo, o efeito era químico e espiritual: a aniquilação da empatia. Ao mastigar o próximo, o morador destruía em si a capacidade de reconhecer o outro como humano. Naquela noite, qualquer crime era permitido. Saques, linchamentos e violações eram chamados de "expressões espontâneas de alegria". O sangue nas calçadas era ignorado ou elogiado como "pintura abstrata de frescor matinal".

Porém, assim que o sol nascia no dia seguinte, a "paz" voltava. Durante os 364 dias restantes, a cidade operava sob um código penal rigoroso, onde o sistema de justiça mostrava sua verdadeira face.

Em Desvario, você podia roubar se dissesse que estava "pegando emprestado um sonho". Você podia ferir, desde que chamasse a ferida de "beijo do destino". Agora que todo sinônimo havia se tornado seu antônimo sem qualquer possibilidade de reciprocidade, tentar acordar a comunidade era considerado um ato de terrorismo. E o agente perpetrador do dolo, passava a ser considerado um lesa-pátria. Se alguém apontasse para o cheiro dos corpos sob o sol, era preso por "poluição sonora da harmonia"; Se um pai chorasse a morte do filho no dia do rega bofe, era condenado por "exibicionismo melancólico"; Se alguém ousasse dizer que as folhas secas não eram dólares, era enforcado em praça pública sob a acusação de "tentativa de homicídio da imaginação coletiva".

O ritual anual garantia que todos tivessem as mãos sujas de sangue. Assim, durante o resto do ano, ninguém ousava denunciar a loucura do vizinho pois seria admitir o próprio sabor da carne humana ainda preso entre os dentes.

E a Vila do Desvario seguia assim: um lugar onde o assassinato era um detalhe artístico, mas a verdade era uma heresia insuportável. Eles morriam felizes, devorando uns aos outros em silêncio, apenas para não terem que admitir que o hospício nunca teve muros porque eles próprios eram as celas.



sábado, 25 de abril de 2026

inventário do pó


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sei do raro gás o segredo e o nó

mas para criar água me queimo:

unir o sopro ao fôlego da vida

explode em fogo a mão atrevida


na cidade, carcaça de metal e pressa

(onde o aço range sonho de extinção), 

o automóvel e as grades adornam

a cela da minha inóspita e amada solidão


no asfalto, trafego vaidosos espelhos

catedrais de luxo desumano

que sugam o sangue da eletricidade

enquanto o deserto reclama seu plano


de mim cobram ouro, brilho, apogeu

como se a chama em surto final

fosse a saúde daquilo que ainda vive

no espasmo do curto-circuito fatal


vendem-me tudo em parcelas risonhas

mas cospem no sábio que observa a brasa

preferem a ilusão do instante bento

ao seguro teto da reconstruída casa


filtro o mar com fúria e descrença

em busca de um gole de paz e luz,

mas o que sobra da bacia imensa

é puro sal que me humilha e reduz


interditei meu pais, o rio, a floresta - 

velhos gagás que nunca tiveram juízo

esqueço a salmoura que no fundo resta:

resíduo amargo do meu eterno prejuízo. 



sábado, 18 de abril de 2026

imã de geladeira

 

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emagrecer

fazer limpeza de pele

botar ordem no intestino

parar de tomar tanto remédio

fazer exercícios físicos

viajar de navio

olhar as estrelas

plantar uma árvore

visitar a China

escrever um romance

dirigir um filme

e só depois por fim morrer


 

sábado, 11 de abril de 2026

experiência pontual

 

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ponto de partida

ponto de ônibus

ponto no jogo

ponto de costura

ponto cruz

ponto da fervura

ponto pacífico


carne ao ponto


ponto fraco

ponto de fuga

ponto de taxi

ponto de encontro

ponto comercial

ponto de vista

ponto da aula


relógio de ponto


ponto de umbanda

ponto teatral

ponto e vírgula

ponto de interrogação

ponto de exclamação

ponto cego

ponto de luz


dois pontos


ponto de equilíbrio

ponto de apoio

ponto eletrônico

ponto de observação

ponto morto

ponto de virada

ponto de chegada


ponto final



sábado, 4 de abril de 2026

transição...

 

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(o dia em que deixei de ser criança

o dia em que, pela primeira vez, o adulto em mim, se mostrou

o dia em que a criança em mim teve que dar passagem ao adulto

o dia em que o adulto e a criança não se reconheceram um no outro


esse dia estranho não existe

esse dia não é

esse dia é uma invenção

busca tornar-se realidade

eis que a criança mostra seu olhar, seu sentir

o adulto os calos das suas mãos

sem violência é este confronto

para extrair sentido da lembrança

desse não-acontecido


esse dia

pois é...

esse dia não é meu

talvez não seja de ninguém

mas foi um dia sim

qualquer um pode afirmar:

seria bom construir

o drama daquele momento

daquele encontro interior

onde o espanto

teve que curar feridas

sem deixar cicatriz)


veio de um estalo

no olhar de Clarice

na última fala pública

ali, enxerguei no vácuo

a criança que não se foi

o adulto que não se apaga:

o drama de dois estranhos

assinando, em silêncio

um tratado de paz

para que o corpo, enfim,

se mantenha inteiro


 

sábado, 28 de março de 2026

três tempos

 

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cedo,

aprendi que bastava chorar

para o mundo se mover

e satisfazer minha vontade


logo, servo de mim,

sempre que a gana surgia

eu próprio corria

para satisfazê-la


agora,

quando arde o desejo

a consumir este corpo que lembra

me ponho a imaginar… e sonhar


 


sábado, 21 de março de 2026

O tempo das metáforas acabou

 

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o amor não é fogo que arde sem se ver

é reação química exotérmica

ardência real se for herpes labial


a alegria não é uma pipa no céu

mas um estado emocional transitório

uma elevação momentânea do humor


os olhos não são janelas da alma

mas uma gelatina protegida por córnea, íris e retina

que transforma luz em impulsos elétricos


o tempo não é um rio que corre

porque um rio desagua no mar

e o tempo não molha ninguém


o vento não é mensageiro

não traz recados, só poeira,

pólen e às vezes resfriado


os pés não são raízes

mas estruturas ósseas feitas para andar,

e se fincam é por cansaço


a vida não é um breve incêndio

mas mitocôndrias que queimam glicose e produzem energia

o último suspiro apaga não um fogo mas um pulsar


eis o mundo de desencanto

o tempo das metáforas

acabou


a vida tem sido tão literal

que a poesia, envergonhada

encontra-se escondida nalguma esquina



sábado, 14 de março de 2026

o novo sagrado

 


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as maças estão podres

macieiras também

mas não só as maças

e as macieiras -

todo o pomar está podre

frutos que pensávamos imunes

à podridão

mostram sinais de corrupção

uvas, laranjas, melões…

ninguém está a salvo

eis o normal que sobrevive

mudamos o paladar

invertemos o gosto

o que antes causava repulsa

passamos a desejar

e agora bradamos em megafones

estampamos em outdoors

nos intervalos comerciais

em panfletos, ensaios e teses:

o ruim é bom e o doentio, saudável

o que antes era exceção

esculpimos na pedra -

uma única regra canônica





sábado, 7 de março de 2026

o cão, o menino e a cerca

 

Google Gemini 


o cão e a cerca

a cerca e o menino

o cão, o menino

e a cerca entre eles

o cão latia

o menino talatava

(provocar ruído com uma tala

de madeira, plástico ou metal)

a cerca

da direita pra esquerda

e vice-versa

e desse modo assim

todo dia

o menino se divertia

o cão ladrava

e a cerca sofria

e assim se dava

esta agonia

e parecia

que nem o cão

nem o menino

queriam

dar um fim

para esta história


 

sábado, 28 de fevereiro de 2026

o alívio do instante

 

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aperto no peito

que apavora

qual nota acalmará

a ânsia do poema esquecido

entre a vigília e o sono

(limiar onde tudo nasce

mas também se perde)


aperto no peito

que aterra

qual acorde acudir

o sonho que dissipa a noite

e instaura a

lógica poética das coisas


aperto no peito

que assusta

já é hora de partir

reconciliar o movimento

no apaziguado seguir


aperto no peito

que espanta

eis o alívio inevitável

do instante



 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

às vezes penso

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às vezes penso:


tudo que aguardo


está dentro de mim


esperando pra nascer


 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

leve que nem pensamento

 

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acordei, dei corda nas horas

e pedi que fossem brincar com o tempo

para que eu pudesse alcançar infinitos sons


me remexi na cama sob efeito dos ruídos

que palavreavam dentro da minha ignorância


um chilreio ali - é o bentivi no galho ao lado

o grilo cricrila escondido ao limpar as patas

e um splastik - que estranho, quem será?

- é uma velha tartaruga pisoteando uma garrafa pet

no quintal vizinho…


experimento o vento fazer das suas

enquanto o gavião atita sobre

a xícara fumegante de café…


meus olhos embebidos de verde passeiam

o teto das casas - sinto as cigarras

estridularem seus timbales

como se fossem britadeiras

ou banda insaciável de rock


escancaro a janela

meus sentidos suam

mas acordei leve

tal qual os pensamentos

que me despertaram


 

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Balas custam caro

 

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O corpo mutilado do delegado Moreira, fora encontrado na Alameda dos Anjos. O Departamento de Ordem Pública soltou uma nota afirmando que o honorável servidor público, com relevantes serviços prestados à defesa da pátria, fora vítima da insídia subversiva e que sua morte seria vingada, exemplarmente. Tinha eu uns 20 anos na época e acompanhei chocado os desdobramentos.

Alguns dias depois, as dependências do quartel general da repressão estavam lotadas de familiares, parentes, amigos, colegas, conhecidos e conhecidos dos conhecidos de todos os presos políticos e procurados pelo regime de chumbo instaurado no país em 2034. Mas não havia lugar para tanto preso.

Os detidos foram encaminhados então para outros quartéis, hospitais psiquiátricos e quando também estes ficaram superlotados a cúpula decidiu ocupar estádios. Quando nos estádios não havia mais lugar para trancafiar os inimigos do sistema, veio a ordem para começar a eliminar, lenta e gradualmente, de fome, sede, maus tratos, privações, contaminações, todos os prisioneiros. Alguém, numa ponta, questionou se não seria mais fácil dar um tiro na nuca de cada um. Pouparia queixumes. “Não”, berrou o chefe dos chefes. Estavam em fase de contenção de despesas; que seria muito dispensioso; além do que o estoque de munição mal dava para meio dia de tiroteio; que seguissem as ordens e parassem imediatamente de tentar melhorar o que não tem jeito. Ponto final.

E neste ponto, é natural que nos perguntemos: o que de fato aconteceu com o delegado-chefe do maior centro repressivo do regime? Quem realmente fora o responsável por sua morte?

O motivo do crime era assunto que percorria toda a nação ninguém encontrava resposta. Ficou claro por A mais B que nenhum comando revolucionário emitira tal ordem. Então, como um rastilho de pólvora, a pergunta bateu nas portas do Ministério da Defesa e Segurança Interna. O general Portela, ministro-chefe, deu ordens severas para que o caso fosse arquivado e que o corpo fosse enterrado com honras de Estado e a família recebesse todos os benefícios a que o oficial da lei tinha direito, acumuladas todas as gratificações e mais algumas coisinhas.

Porém, o delegado adjunto Mosca, contando com apoio de uma meia dúzia de oficiais de alta patente, descontentes com os rumos que o Alto Comando vinha imprimindo ao projeto político, decidiu investigar por conta própria. Respaldado pelo general comandante da II Região foi à luta e encontrou a prova definitiva de que o colega fora executado por ordem expressa do Palácio Central.

Esse é um encrenqueiro. Só pensa no próprio umbigo. Já estou de saco cheiro dele. Dê um fim nisto”. Perdido no meio da papelada que abarrotava o prontuário do falecido, xerografo por um cúmplice no Ministério da Guerra, Mosca encontrou o bilhete, escrito em maiúsculas numa folha de papel com o timbre da presidência da república, dirigido ao ministro. A assinatura não deixava dúvida: a ordem veio do topo da pirâmide. Era preciso romper aquele ciclo, concluiu.

Teve inicio então sua militância clandestina na oposição. Logo arrastaria para seu lado boa parte dos delegados que trouxeram procuradores, juízes, políticos e uma camada significativa da elite rentista e empresarial insatisfeita com a política de torneiras fechadas até que o bolo crescesse.

Pressionados por seus próprios aliados e ameaçados pelo bilhete encontrado por Mosca - um homem do sistema, movido pela autopreservação, calculista político - agora alçado a líder oposicionista reconhecido internacionalmente, os milicos não tiveram alternativa senão voltar aos quartéis, não antes de firmarem um pacto com o subalterno de jamais trair seus antigos comandantes. A mesa fora virada, a transição começara. O homem que encontrou a prova da incompetência fardada, cumpriu o que prometeu, levou para o túmulo o porquê Moreira morreu?

Mas se o Mosca morreu sem revelar nada, de que jeito você ficou sabendo disso tudo”, perguntou minha neta. “Ora, eu sou o autor… sei de tudo que se passa nesta história. Não gostou, inventa a sua”.


 

sábado, 31 de janeiro de 2026

horizonte oculto

 

Google Gemini




uma janela inexorável olha

para outra janela de persiana abaixada...

e existe, no alto, uma porta

que jamais conversa com outra porta


ai de mim que,

debaixo do cobertor,

reclamo do intermediário

que dá bom dia por mim!


- zé, diga pro 12 que ele amassou a lateral do meu pegout!

- vou olhar no replay, doutor!

- pra que, foi ele e cabou!

- vê só, o seu vizinho do 27, não tinha que estar no segundo-subsolo, já que a vaga dele é no primeiro… às 22:45 ele fez uma manobra arriscada…

(não me desculpo, não é do feitio de ninguém da minha laia)

- dê seu jeito ou processo o condominio!


apenas advogados garantem

que causas sejam lembradas:

vitória ou vingança - quem perde, perde

quem ganha jogou dinheiro fora

e recebe do volta indiferença - doença mortal

produzida por uma bactéria

que caiu na Terra, alojada num meteoro

e criou a ilusão de que a gente

nunca jamais deve conhecer o horizonte…