Até metade da minha infância me sentia igualzinha meu pai. Tinha ele muito pelo sobre o corpo e adorava exibir suas mãos grandonas e unhas grandes e envergadas. Era muito mais alto, o meu pai, maior que todos os outros pais que eu conhecia. Um gigante de nariz enorme, por onde fungava mais alto que som de carro de gente sem gosto. Acreditei que um dia, quando fosse maior – tinha eu uns 6 anos da época em que consegui vê-lo por inteiro - seria igual a ele, com a mãozorra, capaz de enchê-la com um coco, uma bola de basquete ou uma jaca e meter medo em todos à sua volta.
Um dia, meu pai perdeu o emprego, teve que gastar o pouco dinheiro que ainda tinha na poupança e começou a andar pela casa chutando a mesa, as cadeiras, dando murro na geladeira, no fogão, nas paredes… Teve um dia que deu um murro tão forte na televisão que sobrou pedaço de vidro, plástico e negocinhos eletrônicos por todo a casa. Minha mãe me puxou pelo braço e trancou a gente no quarto.
No dia seguinte, meu pai tomou o café como se nada tivesse acontecido. Repousou sua mãozona sobre minha cabeça e pediu mil desculpas pelo susto. Ri pra ele um tanto desconfiada e fui pra escola. Minha mãe me contou depois que ele tinha saído para procurar emprego.
Eu estava dormindo quando ele chegou. Bêbado. Foi pra cima da minha mãe e jogou sobre ela toda culpa do mundo, a cobriu com todos os impropérios que conhecia, disse que ia embora, que não servia pra nada, que era o ser humano pior do mundo, que nós estariamos melhor sem ele… Minha mãe chorou e pediu que tivesse calma e pensasse no dia de amanhã, no meu futuro... Ele ficou mais brabo ainda, disse que ela não sabia de nada, que nunca o amou, que casara com ele por puro interesse e que agora tudo seria diferente… O choro da minha mãe aumentou e foi aí que eu levantei e fiquei atrás da cortina que separava meu quarto da sala e pedi a deus que mudasse o rumo daquela conversa, que desse ao meu pai sabedoria suficiente para enfrentar o momento ruim pelo qual estava passando e não nos deixasse no desamparo.
Não sei explicar como aconteceu. Parecia que algo ou alguém apertara algum botão no fundo deste infinito universo e transformado o meu pai num bicho, não um bicho comum: um bicho-fera. Sem mais nem porquê, empurrou minha mãe contra a parede e começou a sufocá-la. Desesperada, pulei a janela lateral a gritar por ajuda. A vizinhança chegou a tempo de arrancar os dentes do meu pai da jugular da minha mãe.
Hoje é dia de visita ao zoológico. Seis anos faço isto toda sexta-feira. Olho sempre para a placa que avisa que a gente não deve alimentar os animais. Por compaixão, desobedeço. Ao atirar na sua direção um pacote de amendoim e uma maça vermelhinha, cruzo com aqueles olhos amarelados, pedintes e lacrimosos por entre as grossas barras de ferro. Ele grunhe... Parece rir. Empalideço e dou um passo atrás.
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