sábado, 30 de novembro de 2019

O apresentador e eu


Autorretrato, Nam June Paik, 1983



O apresentador lê a notícia. Sobe o tom e, com ele, os pontos da audiência. Vende bem o peixe, o menino… Conforto para o bolso de acionistas, anunciantes, publicitários… doce colírio para o olhos de debutantes.
E num passe de mágica, eu sou o apresentador. Desfaço a sombra por um instante e confio. E pouco importa os fatos, pouco importa…
Eis que o apresentador é família… e eu sou ele, meu próprio astro, meu galã. Acima dos olhos, ocupo da sala, grave e solene… Fruo o gozo ao tinir o martelo da justiça enquanto cascavelo a narrativa estudada: poema bem feitinho para conduzir manada.
Quão humana é a minha (nossa) simpatia; vigorosa e sólida honestidade… Penso que talvez inexista alguém tão fácil assim, inteiramente construído de respostas. Alguém suporia outra intenção senão aquela que me (nos) sai da fala?
Apenas o amor constrói… Corra atrás dos teus sonhos… Invisível é a mão do mercado… A cada um, o seu mérito… Contra caspas, o inofensivo xampu de babosa vai bem, obrigado…
Ah, o espetáculo… essa roda viva onde a liberdade de expressão é mero artifício, inacreditavelmente realista, forjada verdade. Quantas dificuldades desumanas (?) que nos fogem nessa obra imensa de deus?… E os toques coloridos, sexy e perfumados que desenho em minha (nossa) pele... essa alegria e certeza fabricadas sob medida para o meu (nosso) figurino.
Porém, não demora e tudo se esvai. É quando fico (ficamos) abarrotado (s): há mais mundo do que posso (podemos) suportar. E é agora, que nós (o apresentador e eu), por força do hábito, sobramos como resto de sobremesa sobre a mesa, saciados, a par de tudo, lindos, arrumados, puros…
E antes do costumeiro boa noite, naquele instante em que olhamos finalmente nos olhos um do outro, silenciosamente nos arrepia o fato de que perdemos a capacidade de nos darmos conta de que a boniteza tem sido proporcional à nossa perversidade.
Mas, infelizmente, não há tempo para lamentar, não há mais tempo: um comercial nervoso está programado para nos atropelar, imediata e automaticamente.

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