Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens

sábado, 2 de abril de 2022

A viagem


Matched Marriage, Quentin Marsys, 1530



Dissemos um ao outro: vamos viajar, sem volta! Era um tempo duro, suado, nada de dinheiro fácil, havíamos de economizar. Ao contar tostões alcançamos suficiente para comprar a passagem mais barata num daquele ônibus pirata. Aí justifiquei: luxar pra quê, se desta vida não se leva nada? Além disso, é uma aventura, sem pressa para chegar a algum lugar, viagem de curtição, com paradas aqui e ali, tempo de sobra para curtir a paisagem.

Ficara bom nesse negócio de inventar desculpas para não fazer a coisa certa. Mas o que sabia eu da coisa certa? Naquela longa época tinha muito poucas ideias. Sobrava o que eu sentia e pronto…. apesar dos protestos e das advertências (que não ouvia e se ouvia não entendia).

Juntamos as trouxas… só não juntamos as escovas porque aí seria nojento e não estávamos a fim de ser chamados de hippie ou, pior, comunistas… e fomos para o ponto, aguardar a embarque.

Não invento: o local estava tomado de gente. E chegava mais e mais. Uma horda do tipo retirantes e nós iguais. Porém, apenas eu e ela havíamos combinado partir para aquele lugar algum.

Procurei-a para confirmar, mas envolta pela multidão começara a se afastar cada vez mais. E esta constatação jogou-me num abismo: sabia de fato o significado da partida?… qual o ônibus?… qual a companhia? Em meio a esse frenesi, percebi que havia começado a perder a noção e a lembrar que esquecera de perguntar ao vendedor se o ponto era aquele mesmo e o qual o horário de partida? 

Minha derrota foi presumir que ônibus, todos eles, passam pela mesma estrada, a estrada na qual me encontrava. E se era assim, melhor acalmar: o ônibus que me (nos) levaria apenas de ida a algum lugar, a qualquer momento pararia bem ali, no ponto em que estava, envolto por esta multidão que me desconfortava e aumentava a distância entre eu e aquela… mas, onde estaria agora?

Presumi além da conta. Minha esperteza deu chabú. Desesperado, procurei o número telefônico da empresa… queria alcançar o setor de informações… mas, nada, nada trazia nos bolsos além de um contrato manuscrito em chinês tradicional em quatro folhas de papel almaço. Traição!

Havia sido traído. Mas calma: fora eu meu próprio traidor. Qual o quê? Tentei abrir espaço entre as gentes, buscando alívio. Queria falar com ela, prometer em alto e bom som que iria ressarci-la mas meu esforço se mostrou vão e paradoxal: cada vez que buscava me aproximar, mais ela se afastava e mais eu me afastava do ponto em que deveria embarcar no ônibus que nos (me) levaria a algum lugar e a multidão em volta não dava a mínima para qualquer movimento que eu viesse a fazer, abarrotado de tralhas em louca disparada, através de ruas, vielas, becos, solos e subsolos – em busca de encontrar o guichê onde havia comprado a passagem mas desembocara num mundo onde a verdade ia ficando cada vez mais inacessível.

Impossibilitado de alcançar, quis gritar, xingar, maldizer… grimas ansiosas de liberdade vieram em meu socorro. Larguei mão, abri as comportas do desespero e do alívio. Busquei refúgio no primeiro templo que encontrei pela frente. O sacerdote não se deu ao trabalho de responder minha indagação convulsiva sobre o que estava acontecendo? Condescendente, me ofereceu um lenço branco que acabei por esquecê-lo no bolso de uma velha calça nos anos que se seguiram.

Reparem: esta é uma estória de fraqueza. Não lhes contei aquilo que escapa por não buscar os instrumentos que me permitissem entender o que precisava entender. Tudo que acabei de narrar foi uma pequena tentativa de contextualizar um mero sonus convulsus: pesadelo, que tem me torrado a paciência cada vez que lembro dele.



 

sábado, 26 de março de 2022

A guerra que nos vive

 

War, Marc Chagall, 1915



Partiria. Atenderia ao chamado, decidiu.

Que o esperasse, com uma torta de frango sobre a mesa, pediu e jurou, diante dos olhos tristes da mulher, que retornaria assim que o conflito terminasse.

A ela (enquanto ajudava na arrumação da mochila) ocorreu que o caos não duraria para sempre…

Até riu, e contentou-se, tudo passa, fixou!


Mas o esperado demorou…

E o tempo, implacável, se sucedeu em opressiva inutilidade.

Então, as mãos cansaram, os seios murcharam… os dentes caíram até


Numa desavisada manhã, sem que nenhum estrídulo de sirene arranhasse o ar, a própria esperança se extinguiu e o relógio cessou a vigília.


O que era vivo faleceu e o que tinha perecido insistia em viver.


Enfardado de cicatrizes e remorsos, o maltrapilho homem cruzou o vão da porta morta.

Automática, a vista perscrutou a sala fúnebre e ao sentar-se à mesa defunta sentiu que o abandono era sua única companhia.

E ali, habituado ao vazio conquistado, compreendeu que morrera no instante em que partira.


Lá fora, a guerra zurrava. 



        

sábado, 4 de setembro de 2021

E eles viram o futuro...

 

Guerra Total, Dan Witz, 2015




A reunião estava marcada para três da tarde. Quinze minutos antes, ela se apresentou na recepção e foi convidada a subir – uma assistente iria recebê-la na saída do elevador. Sozinha, diante do espelho, deu leves retoques na aparência, limpou com o mindinho uma mancha de batom que lhe escapulia no canto da boca, ajeitou o cabelo e aguardou a porta abrir.

Um tremor percorreu a espinha da assessora, quando a viu. Se tivéssemos acesso ao histórico da vida íntima dessa moça, veríamos que sua figura esquálida, resultado de um projeto minimalista, consistia apenas de um sorriso marmóreo fixado, sem nenhum contraste na máscara que servia de rosto e que nunca a flagraríamos em desejos sexuais na direção de qualquer pessoa muito menos em relação a outras mulheres... No entanto, ali, alguma coisa a atingiu, provocando-lhe a impressão de que, praquela outra, carregaria bondes. Mas como boniteza e tesão são conceitos relativos, fez de conta que não era com ela e apenas limitou-se a indicar a direção. - Por aqui!

O currículo impecável passou por toda a cadeia de comando da Tomorrow e acabou na mesa da diretora de desenvolvimento que, contrariada, não via necessidade da contratação de novo colaborador. Porém, em face dos tantos "ok" emitidos pelos sócios ficou meio que numa saia justa. Mas, decidida a fazer o seu trabalho, convocou toda sua equipe para participar da avaliação e cobrou um rigor além do necessário. Alegou que o cargo a ser preenchido era altamente estratégico e que não estava disposta a arriscar o futuro do seu departamento.

Quando ela entrou, a sala foi tomada por uma espécie de transe e embora ninguém tenha esboçado qualquer reação àquele impacto, o clima pesou. Ela sentiu a gravidade mas não demonstrou abalo e colocou diante de si, sobre a mesa, o conteúdo da pasta que trouxera a tiracolo e preparou-se para a apresentação.

- Você veio muito bem recomendada, disse a diretora, com um certo desdém perceptível apenas por quem lhe vinha prestando serviços nos últimos cinco anos. - Quem sabe você venha a apresentar alguma coisa que nos desperte apetite

Todos se mexeram nas cadeiras, alguns fizeram esboço de que iam tomar a palavra mas foram apenas falsos movimentos, jogos de cena, trejeitos de poder, afinal ninguém sabia muito bem como agir diante da possibilidade de que aquela desconhecida pudesse representar qualquer ameaça ao departamento e, consequentemente, à toda poderosa diretora.

Mas ela possuía todas as qualificações e ia além, dava de lambuja uns dez projetos onde tinha conseguido resultados que explodiram no íntimo dos presentes como edições especiais em horário nobre de todas as TV comerciais. Seria uma aquisição e tanto, capaz talvez de duplicar o faturamento em muito pouco tempo. Faca nos dentes ele tinha. E entregava o que prometia. Via-se nos comentários de diversas fontes, em recortes escrupulosamente catalogados numa pasta à parte, onde apareciam notas e resenhas de influenciadores econômicos, dos melhores informativos em diversos níveis da cadeia lucrativa.

Com uma lucidez que nunca foram capazes de obter em nenhuma de suas epifanias de marketing, viram como num filme, o futuro deles e do departamento: aquela mulher era o caos mais lindo e perfumado do mundo; assistiram tsunamis, participaram de degolas, colaboraram em suicídios… tudo para que ela palmilhasse um caminho até o topo com a tenacidade dos predadores… e, ao final, sentiram seus dentes brilhantes penetrar-lhes as carnes, mastigá-los e engoli-los, um a um, sem dó nem piedade.

Ninguém vacilou em dar o seu não. Ninguém é maluco a ponto de colocar sua cabeça a prêmio, assim de graça, apenas para que acionistas possam babar sobre o lucro no final do semestre. Ficaram com o arroz e o feijão costumeiro, muito mais confortável.



sábado, 6 de junho de 2020

A mágica de fazer branco


Punindo Negros no Calabouço, Augustus Earle, 1822




Ouvi de um professor que disse ter ouvido da sua avó.

“No tempo da escravidão, cinco negros foram mandados para um fazendeiro, terror da região.

Se, naquela época, você fosse dono de escravos e, diante de qualquer desobediência, tivesse que castigar um negro, não perdia tempo dando chicotada nele, mandava logo para o Santos Silva. O temido fazendeiro sabia dar um jeito no rebelde.

Assim que os cinco negros chegaram na fazenda, foram levados direto para o tronco.

Santos Silva avisou: - Comigo, vocês vão ficar brancos.

E ordenou ao açoitador: - Cinco lapadas nas costas de cada um. Se um de vocês gemer ou reclamar, serão negros para o resto da vida. Mas os que ficarem em silêncio, se transformarão em brancos. Tenho um dom da magia, de fazer negro virar branco. Eu mesmo virei branco através dessa mágica.

Nas primeiras chicotadas voou sangue para tudo quanto é lado. A roupa de linho branco do Santos Silva ficou tingida de vermelho…

Plá, plá… Já não existia lugar no terreiro que não estivesse coberto de sangue… Espirrou sangue até nas paredes de dentro das casas.

Quatro negros se mantiveram em silêncio mas, o quinto gemeu e falou um palavrão em sua língua nativa.

Santos Silva mandou parar. O bigode dele tremia.

Soltem todos. Agora peguem só o que gemeu. Ponham ele no tronco principal. Sei muito bem o que ele falou.

E virando para os outros quatro, disse: - Vocês têm mais uma chance de virarem brancos. Cada um pegue um chicote. Agora terão a oportunidade de completarem a mágica. Devem chicotear este que gemeu e me xingou… A cada chicotada, vossa pele ficará mais clara. A transformação total dependerá da força com que cada um de vocês chicotear o lombo desse negro.

E surraram o quinto, chicotearam forte, enquanto o outro gemia, urrava, xingava e amaldiçoava o mundo.

E continuaram os açoites, cada vez mais fortes, cada vez mais letais, mas a única brancura que conseguiram foi a palidez do medo estampado em seus rostos”. 



sábado, 15 de fevereiro de 2020

Os ovos de ouro



Hallow Egg, Alexander Calder, 1939




Um dia, um gênio apareceu na cidade e ofereceu seus dons. Como ali todos eram pobres, lembraram da história antiga e cada um pediu uma galinha que botasse ovos de ouro.
O gênio, relutantemente, concedeu o desejo. Todos foram pra casa com a certeza de que agora finalmente não precisariam se preocupar com mais nada na vida.
Com o passar do tempo, ninguém mais precisou ou se lembrou de trabalhar.
Todo mundo agora era milionário. Ninguém mais produzia um alfinete que fosse. Afinal, tinham montanhas de ouro e podiam comprar tudo que desejassem.
Porém, o que havia em estoque um dia acabou. E como não tinham produzido nada para repor o que consumiram, logo as prateleiras dos mercados ficaram completamente vazias.
Quando, bateu a fome, não havia alimento; quando o frio entrou, não havia agasalho; quando a doença acordou, não havia remédios… E todo dia, a galinha de cada um botava mais um ovo de ouro que nem era comestível.
Perceberam que, na verdade, haviam desejado e recebido uma inutilidade, todo ouro que possuíam não valia nada.
Foi aí que decidiram matar suas respectivas galinhas, para aplacar a fome. E, de barriga cheia, voltaram aos seus afazeres anteriores em busca de suprirem suas necessidades e, eventualmente, produzir um tanto a mais que lhes permitissem trocar por outras coisas que precisarem.
Num passe de mágica, todo o ouro acumulado desapareceu da história e ninguém sentiu a falta dele.


sábado, 8 de fevereiro de 2020

O Paraíso Deserto



Cosmic Map, Bruno Munari, 1930




João da Silva Guimarães, mestre de campo, encarregado de desbravar o sertão baiano, está velho, cansado e delirante. Passa o tempo rememorando suas andanças em busca de ouro e prata para a coroa portuguesa.
No fim da jornada, tem como propósito escrever uma carta para El Rei (e estamos falando aí de algo por volta de 1760 e alguma coisa) onde narrará as aventuras de Belchior Dias Moreira, o Muribeca (Mosca Chata), filho de Diogo Alvares Correia, o Caramuru (Moreia, em tupi) com a cunhada Moema (Abençoada), irmã da sua esposa Paraguaçu (Mar Grande). Será uma história ouvida de várias vozes de um cem números de gentes, cujo título já tem pronto: Relação histórica de uma oculta, e grande povoação antiquíssima sem moradores.
Mas como a terra gira e a lusitana roda, a missiva, se chegar a ser escrita, ficará conhecida apenas Documento 512. E ficará arquivada na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro a espera de que, um dia, alguém a decifre. Porque ali estará firmado, com todas os símbolos e letras, que Muribeca saberia da existência de uma tribo desconhecida que exibia lindos enfeites dourados e prateados. Que, após muitos obstáculos e revezes conseguiu chegar a uma montanha cintilante, coberta de cristais. Que daí seguiu por uma estrada de pedra, passou por dentro de uma montanha e, finalmente, através de um caminho pavimentado, chegou a uma grande cidade onde, na entrada, havia três arcos (um central, grande; dois menores nas laterais) com inscrições grego ptolomaico (?). Que reparou que as casas eram todas iguais e interligadas. Algumas tinham mais de um andar. Que na praça central, havia uma enorme estátua, em pedra preta, de uma figura despida da cintura para baixo, com a mão esquerda sobre o quadril e o braço direito estendido a apontar para o Norte, trazendo na cabeça uma coroa de louros. Que ao lado da praça, corria um rio que desembocava numa cachoeira rodeada de tumbas e que, neste exato local, Muribeca encontrou uma moeda de ouro, que trazia, numa face, o relevo de um rapaz ajoelhado e na outra, um arco, coroa e flecha.
Envolto nesse mistério alucinante, João Guimarães se perguntava o que significava tudo aquilo? E via a si na estrada de pedras, entrando na montanha dos cristais, atingindo o caminho pavimentado e chegando aos três arcos na entrada da grande cidade… completamente em ruínas… mas não enxergava vivalma. E beirando o rio que beira a praça, chega à cachoeira, às tumbas, ao local onde Muribeca encontrou a moeda
Súbito, já se vê às margens do Rio Paraguaçu cumprimentando seu companheiro João Gonçalves da Costa que, a mando do governador da capitania, Manuel da Cunha e Menezes, estava dando guerra aos elegantes Mogoyóis em busca de ficar pé naquelas brenhas sertanejas do que um dia seria o estado da Bahia. E ali, sem qualquer reparo ou remorso, os dois articulam um plano infernal: promover uma festa, em honra dos nativos e após embriagá-los, mata-os todos. Desta forma nasceu o arraial da Conquista, mais tarde batizada de Vitória da Conquista, terra onde este narrador que vos fala tem um vago nome e escutou, certa feita, do mestre cantador Elomar esta singela estrofe:
Depois, depois de muitos anos
Voltei ao meu antigo lar
Desilusões que desenganam
Não tive onde repousar
Cortaram o tronco da palmeira
Tribuna de um velho sabiá
E o antigo tronco do oliveira
Jogado num canto pra lá
Que ingratidão pra lá

Por que a gente insiste em voltar? Porque há sempre o retorno. Porque havemos de ver o que poderia ter sido. Porque o mais grave de tudo é a gente esquecer. Isto fui eu quem disse, porque o João da Silva Guimarães, em meio a carnificina programada, vê surgir o Muribeca, com um mapa nas mãos e larga pra lá aquele mundaréu de corpos mutilados, aquela sangueira tingindo as árvores e o segue… pelo caminho das pedras, por dentro da Montanha dos Cristais até a entrada da grande cidade deserta.
Não entendo, para onde foram todos?
Talvez tenhamos errado nalguma dobra do caminho…! Respondeu João Magalhães, sem evitar de pensar em como contar esta história a El Rei sem que desse prova de estarmos todos loucos? Mas teve que interromper sua dúvida porque o Muribeca já insistia em rumar a conversa para outra banda
De que adianta o paraíso se não há gente pra olhar?



sábado, 25 de janeiro de 2020

Um bom dia para desenterrar tesouro


Ilustração de N.C.Wyeth 
para o livro A Ilha do Tesouro
de Robert Louis Stevenson



Thomas Clement Douglas era um pastor batista, nascido na Escócia, que tornou-se um proeminente político social-democrata no Canadá. Como primeiro-ministro da província de Saskatchewan, de 1944 a 1961, pelo partido CCF (Cooperative Commonwealth Federation), liderou o primeiro governo socialista da América do Norte e introduziu o modelo de saúde pública universal, o Medicare. Morreu em 1986. Lembrado por sua sagacidade e atuação destemida em favor dos direitos constitucionais, em 2004 foi eleito o maior canadense de todos os tempos. A Carta dos Direitos de Saskatchewan precedeu, em 18 meses, a adoção da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela ONU. Seu idealismo pode ser reconhecido neste conto político conhecida como Mouseland, contada por ele num discurso proferido no ano de 1944. Vamos à fábula:

Esta é a história de Ratolância, uma país semelhante em tudo aos demais. Ali, os ratos viviam e brincavam, nasciam e morriam. Da mesma maneira que eu e você. Em Ratolândia tem casa, tem rua, tem praça, tem fábrica, igreja, escola, hospital… tem também Parlamento. Por isso, a cada quatro anos os ratos faziam uma eleição. Iam às urnas e votavam. Como você e eu. E todas as vezes, os ratos, os camundongos e as ratazanas elegiam um governo. Um governo composto de grandes e gordos... gatos pretos.
Se você acha estranho que ratos escolham um governo composto de gatos, basta olhar para a história do Canadá nos últimos 90 anos e talvez você perceba que eles não são mais idiotas do que nós.
Não tenho nada contra os gatos, acho até que são boa gente… Conduzem o governo com dignidade. Aprovam boas leis - isto é, leis que são boas para os gatos. Mas as leis que são boas para os gatos não são muito boas para os ratos. Uma das leis diziam que os buracos de ratos têm que ser grandes o suficiente para que um gato possa colocar a pata. Outra, obrigava os ratos a viajarem em certas velocidades - de modo que um gato possa tomar seu café da manhã sem pressa. Todas as leis são boas leis…. para gatos.
A vida era dura para os ratos. E foi ficando cada vez mais difícil. Cansados desse estado de coisas, os ratos decidiram que precisavam fazer algo a respeito. Chegaram à conclusão de que deveriam votar, em massa, nos gatos brancos porque eles tinham feito uma campanha fantástica, cujo slogan era: “Abra seu olho”. Em todos os meios de comunicação apareciam os candidatos brancos afirmando: “O problema de Ratolância são esses buracos de rato redondos que temos. Vote em nós que criaremos buracos de ratos quadrados."
E fizeram. Só que os buracos de rato quadrados eram duas vezes maiores do que os buracos de rato redondos, e agora um gato conseguia colocar não uma, mas as duas patas. E a vida foi ficando mais dura do que nunca. Quando os ratos não aguentaram mais, votaram e trocaram o governo dos gatos brancos por… gatos pretos.
E a cada eleição votavam ora nos brancos ora nos pretos. E houve uma eleição, que pra variar, votaram em gatos meio pretos e gatos meio brancos. E chamaram isso de coalizão. E na eleição seguinte votaram nos gatos com manchas. Como podem ver, meus amigos, o problema não é com a cor do gato. O problema é que eles eram gatos. E porque são gatos, naturalmente cuidam de gatos em vez de ratos.
E aí surgiu um ratinho com uma ideia. E disse aos outros ratos: "Por que continuamos a eleger um governo composto de gatos? Por que não elegemos um governo composto de ratos?"…
- Oh, disseram, ele é um comunista. E o colocaram na cadeia. Mas esta é uma atitude inútil, de nada adianta. Afinal, os carcereiros jamais conseguem prender uma ideia e basta que ela consiga entrar na maioria das cabeças para, finalmente, tornar-se realidade”.


sábado, 21 de setembro de 2019

Fábula com notas


O Futuro chegou faz pouco, Fede Biagioli, Argentina



Como se ocorresse num conto futurista (no velho e mundialmente consagrado estilo science-fiction opera), meia dúzia de cópias piratas de personagens mal-ajambrados e toscos invadem a cidade e causam um tremendo estrago com sua linguagem chula, injúrias e insultos pornograficamente inaceitáveis.

Através de edital, o chefe da polícia convoca o Homem “Branquinho” - super-herói pau-para-toda-obra e professor particular de gramática, para dar um jeito naquelas monstruosidades atentatórias aos costumes talentosamente criativos do povo do lugar.

Pintada como o combate do século, pelas forças de segurança(1), a porrada come solta em cada canto, cada beco, cada brecha da lei, sem nunca se atrever disputar audiência com a novela das nove por justa e legítima reivindicação da primeira e única rede de mídia nacional.

E tal qual nos conflitos épicos típicos, o herói apanha pra chuchu no começo para somente no final conseguir realizar seu objetivo que, coincidentemente (2), devido a providencial ajuda das mais requintadas agências de propaganda, é o mesmo da população que o assiste e acompanha através das redes sociais e dos costumeiros noticiários e comerciais.

Chegado neste ponto, imediatamente após o estupro da liberdade de expressão pela intolerância, o herói oficial consegue finalmente apagar do sistema, um a um, as esdrúxulas criaturas – não sem deixar um rastro de más recordações e péssimas lembranças, o que é perfeitamente normal e aceitável, já que, diz o adágio popular, não se faz omelete sem quebrar alguns ovos.

Com o tempo ficamos sabendo que tudo não passou de uma cortina de fumaça. Tinha sido o prefeito, dono de empreiteira, o cérebro por trás daquelas criaturas. Tudo fizera para destruir a cidade, com o propósito de pressionar a população na aprovação de novas e vultosas verbas para a construção de um novo empreendimento que atraísse turistas do mundo inteiro para a sua rede de hotéis temáticos arrendados a preço vil para um conglomerado de mídia internacional, exatamente o mesmo encarregado de transmitir ao vivo, através de sua cadeia de televisão, toda a movimentação de tropas pela libertação da rua de baixo das garras sangrentas e ignóbeis dos autonomistas prejudicados que atuam em conluio com uma legião de multifacetados criadores de trovas e quadrinhas.

Em meio aquela confusão, o alcaide não só embolsou a grana como, pê da vida, ateou fogo em tudo e foi curtir a boa vida, de braços dados com Madame (aquele caso perdido que não vale a pena discutir), no paraíso fiscal conhecido como La House of Nooca, longe e a salvo dos mosquitos, saúvas e cucarachas.
E todos – uma fauna e flora exuberantes e com alta taxa de diversidade – viveriam infelizes para sempre, sem nunca encontrarem o rumo de casa, não fosse o pessoal de Bacurau chegar a tempo de impedir que aquela lambança continuasse.

No apagar das luzes, quando já estávamos prontos para a subida dos créditos, a comunidade serenamente irritada, de saco mui cheio e com uma peixeira nos dentes, pegaram o prefeito, sua curriola e cupinchas dos naipes executivo, legislativo e judiciário, botaram pra pentear macacos, catar coquinho, chupar pregos até virar tachinhas e foram aplaudir o pôr do sol porque o amanhã, entre nós, reza a lenda, fica pra depois e nada é tão urgente que não possa esperar uns cinco minutinhos.


Notas
(1) As mesmas que, na ausência de um inimigo externo, faz com que seus generais, visando manter as tropas em prontidão, insistam na velha e surrada manobra de inventar um saco de pancada local no qual - tais cachorros loucos - possam descarregar seu ódio na porção mais fraca da raça humana. Dizem os mais proeminentes psicanalistas, tratar-se de uma profunda negação do self, misturado com um alto teor de vergonha pequeno-burguesa, pelo fato de serem todos filhos da tia do cafezinho com o motorista do patrão.

(2) Na tenra idade, talvez anterior ao útero, aprendemos que privilégios são inatos. Desta forma, certos uns (segundo a teoria da meritocracia e chancelada pelo personagem mítico conhecido pela alcunha de meupapai) não têm o que temer quando se trata de disputar o filé na Colina dos Recursos Escassos.



sábado, 10 de agosto de 2019

Finalmente, respeito


Fantasia de Soldado Romano, Nicolaes Maes, 1675



Ele avisou e nós ficamos naquela… Estávamos todos acostumados a tratar as coisas na base da galhofa, do deboche. A verdade é que ninguém acreditava mais na palavra de ninguém. A vida continuaria a de sempre, não fosse ele falar a vera e ganhar a eleição.
No primeiro dia de governo, baixou um decreto, terceirizando as forças armadas. No final do ano, com o maciço investimento da indústria de armas (nacional e estrangeira), exército, marinha e aeronáutica – conduzidos com a eficiência da iniciativa privada – apresentaram índices de desenvolvimento surpreendentes.
A medida foi tão eficaz que zerou a taxa de desemprego. Os militares ofereciam agora emprego bem remunerado, em todos os níveis da hierarquia, para quem quisesse trabalho e aventura. Baseados em campanhas publicitárias agressivas, apenas os covardes não foram transformados em fardados. Todo e qualquer cidadão agora tinha a possibilidade de ostentar uma farda elegantíssima e uma reluzente Glock .40 na cintura.
Nunca na história do mundo, viu-se um poderio surgir assim do nada, em tão pouco tempo. O país transformou-se, da noite pro dia, numa potência guerreira. E para testar a capacidade de combate fizemos logo a nossa guerra civil: sul contra o norte. Em meia hora liquidamos a fatura. O sul dividiu a terra em capitanias, colocou grandes empreiteiras no comando e foi curtir a vitória com a sensação de dever cumprido e muito futuro pela frente.
Evidente que vinha mais coisa por aí. Sabíamos que ele tinha em mente algo maior, que não pararia por ali. Sonhava alto e parecia que nada o impediria de colocar a máquina a serviço de um objetivo realmente digno da nossa vocação de país grande.
A maioria do empresariado estava com ele… Os grandes bancos, a grande imprensa, a totalidade do Poder Judiciário, Polícia Federal, Ministério Público… No Congresso foi barbada aprovar a Nova Lei Maior - inteiramente redigida por seu vice, um general a serviço da moral, dos bons costumes e do embranquecimento da raça. Em questão de dias (parece que já a tinha pronta) nos entregou a mais enxuta e severa de todas as nossas Constituições.
Mas e o grande lance? Quando seria dada a ordem? Eram estas as grandes perguntas percorrendo todos os corredores, becos e ruas sem saída. Não foi preciso esperar muito, a ordem veio… Para romper com velhos hábitos, o dia Z chegou.
Invadimos primeiro os vizinhos com forças mais bem armadas e treinadas. Depois, fomos avançando um a um até que, finalmente, todos ruíram. Ninguém conseguiu impedir o banho de sangue e a limpeza étnica que se seguiu para nunca mais haver fronteiras ou oposições. O continente fora unificado e toda a riqueza passou a ter um único dono.
Consolidada a nova potência militar, a história agora seria outra. O mundo finalmente nos respeitaria. Foi aí que a Grande Liga Setentrional nos chamou para conversar...


sábado, 13 de julho de 2019

O Aleph de Matías


Ilustração de Diego Alterleib 
para o livro O Segredo de Borges




Um dia alguém lê que certa feita um garoto ouve de um velho escritor o segredo para se viver tanto.
Conta o menino, agora homem feito, em livro, muitos anos depois, que a tarde caía sobre o mestre enquanto ele improvisava:
Eu costumava beber água numa fonte onde viviam tartarugas. Depois de algum tempo percebi que a água que eu tomava quando era criança na fonte onde viviam as tartarugas não era água, era água de tartaruga. E como as tartarugas vivem muito, vivo muito desde então”.
E conta mais, conta que, na hora que a estrela das letras argentinas inventa a história “olha para cima mas não vê que a cortina atrás da poltrona verde é muito branca e muito bonita por causa da luz do sol”.
De tanto revisitar a história, Matías Alinovi descobre que havia sido enfeitiçado aos nove anos, naquele momento mesmo em que Jorge Luis Borges, aquele que para ele, antes daquela tarde, no ano de 1981, cinco anos antes de morrer, era um completo vazio de significado. 




sábado, 10 de novembro de 2018

O gosto da vingança


Ilustração de KPG Ivary



Nunca dá para prever quando Carlos Rigot irá aparecer. Mas que trará consigo um comentário, uma história, um dilema… às vezes uma pegadinha, isso posso ter certeza. E eu, que nunca o aguardo, sou sempre surpreendido com suas revelações.
Rigot é aquele mestre que não é… Dele, penso não possuir qualquer intenção que não seja me surpreender. Assim, cada encontro com essa figura é uma experiência a ser vivida com e em todos os sentidos.
Não foi diferente, naquele terça, 15:30 de uma tarde nublada, na esquina, um quarteirão antes da minha casa…
Senti uma mão segurar meu braço direito e, envolvido por uma enxurrada de palavras, fui obrigado a realizar um esforço para começar a registrar aquele relato que, ao reproduzí-lo aqui o faço a partir do momento em que consegui isolá-lo do restante do mundo e passei a unicamente escutá-lo.
Após me servir, olhei para a mesa costumeira, ao lado do refrigerador: estava vaga.
Melhor lugar do restaurante, longe dos aparelhos de televisão que, naquela hora, todos os dias, estavam sintonizados no canal de sempre.
Verdade que ninguém prestava atenção, preocupados em devorar a comida e voltar logo pro trabalho.
Mesmo sabendo disto, o dono do boteco, não sei por qual razão, insiste em manter tal inutilidade, num mundo repleto de celulares. Talvez ele saiba que pode fazer diferente mas, não está disposto a pagar o preço… prefere agarrar-se ao fácil, seguro e rotineiro – é bem mais barato.
Após me servir, olhei e vi que a mesa costumeira estava vaga, corri para o meu canto. Ali, pelo menos, ficava a salvo do som e, principalmente, das imagens que saíam daquelas duas máquina de fazer doidos.
Porém, naquele meio dia, à minha frente, na mesa adiante, alguém falava ao celular num tom acima do tolerável.
Baixei a cabeça, comecei a comer tentando esquecer daquela demonstração de incivilidade. Mas o som da voz daquele estranho começou a penetrar no meu cérebro e aquilo me irritou.
Fiz sinal ao vizinho... apontei o dedo indicador para o ouvido direito.
O sujeito nem aí e até aumentou a voz mencionando qualquer coisa relativa a polícia federal… foi o que ouvi.
Olhei fixo para o inconveniente e insisti: amigo, não preciso ouvir a sua conversa.
Quê? Zangou-se o outro. Então pare de escutar.
Não desejo ser convidado para tua festa...
Otário, foi a resposta dele. Levantou-se e foi na direção do caixa.
Abaixei a vista e encarei a salada - estava gostosa… saudável, fresquinha… e ao levar um bocado de cenoura à boca, ouvi ao pé do ouvido, novamente a voz desagrádavel do desconhecido, replicando a palavra otário.
Não vacilei: acertei a jugular do indivíduo com o garfo e, ato contínuo, apliquei-lhe um chute bem colocado nas caixas dos peitos. O bicho despencou dois degraus e acabou estatelado na calçada enquanto me ouvia gritar: está bem assim, cidadão de bem, está bem assim?
- Você fez isso, mesmo?
- Não. Claro que não. Se eu tivesse feito, sentiria o gosto da vingança apenas uma única vez. No entanto, o fato de não ter cedido ao impulso me permite elaborar, a cada lembrança do fato, uma nova forma de acabar com aquela coisinha ordinária fantasiado de pequeno burguês bem sucedido... e as possibilidades são infinitas.
Convidei-o para tomar um café. Ele disse que não, largou do meu braço e perdeu-se em meio aos passantes.



sábado, 6 de outubro de 2018

Fábula Estúpida


Personagens do Mamulengo Presepada, Brasília-DF



No Reino do Bafafá, era uma vez, um capetão da cavernas (também conhecido como o inominável) que um belo dia, na padaria da esquina, onde toda tarde tomava um sisudo cafezinho, encontrou uma viúva (conhecida na vizinhança como a baranga histérica) e logo deram de trocar umas ideias. Conversa vai, conversa vem, decidiram (para espanto geral) que era hora de juntarem armas.
Feitos os acordos, emendaram os fios dos bigodes e após tomarem posse da vaquinha arrecadada pela seita que os uniu, foram passar a lua de mel na Casa de Noca - reduto de uma massa destra e bastante fashion, a crème de la crème de uma seleta brava gente de patrióticos e brancos corações.
Quando chegou a hora do onça beber água, quer dizer, na hora de botar a rotina pra funcionar, ela, dona de uma rede de mercadinhos, louca de pedra pelo retorno da dita-dura (que a tempos não curtia) começou a perceber que dois e dois não resultavam quatro e tratou de botar olheiros para monitorar as escapadelas do varão.
E não é que o belo saía para se encontrar ora com uma loira recatada e do lar, ora com uma ruiva limpinha e cheirosa… e houve vezes até que foi filmado, gravado e fotografado dentro de uma quitinete (devidamente preparada para abater incautos de qualquer sexo) com um halterofilista desempregado conhecidíssimo na baixada pela alcunha de prepúcio glande.
A bocca chiusa comenta-se que, o musculoso levantador de pesos mortos, após acalentar a baioneta, por várias e repetidas vezes, diante de um público ávido por emoções baratas, conseguira do capetão (agora presidente da cadeia varejista de secos e molhados da mulher) uma boquinha como gerente de marketing encarregado de criar frases de efeitos para serem esculpidas em letras de fogo logo acima das tabelas de preços.
Na hora, sem pensar, o bruto e serelepe prepúcio cuspiu algo que vivia guardado a sete chaves em seu caderno de notas com jeitão de diário: “Literatura, Filosofia, Sociologia e Arte são ótimas para libertar a mente mas quem precisa de liberdade se a boa e velha Sacanagem nos mantém com os pés no chão”.
Encantado com a perspicácia e charme do seu tonitruante auxiliar o capetão se riu tanto que estourou-lhe as pregas. Estimulado, prepúcio aproveitou a oportunidade para tecer elogio ao seu tripé macroeconômico, declarando-se pronto para desenvolver, para gáudio da indústria nacional, uma potente e monumentosa produtora de filmes educativos sexualmente, totalmente customizados e ao gosto do cliente.
Fula da vida (porque puta ela não podia ficar, sob pena de pisotear seus próprios princípios) a baranga histérica, que tudo vira e ouvira, sem pestanejar, em sua tela de plasma e agora, absoluta e definitivamente recalcada, vendo que seus encantos de fêmea de nada lhe valiam, resolveu enfiar o dedo nas fuças do marido, chamando-o, na cara dura de, nada mais nada menos, um tremendo viado boiola e baitola desmunhecado da silva, logo que ele lhe pedisse para servir o jantar. Vixe, praquê! Suas amídalas foram parar do outro lado do Atlântico, vítimas de um cirúrgico pescoção nos cornos.
Decidida a buscar justissa a qualquer preço, deu uma chegada no quartel mais próximo de casa e registrou queixa, em nome da moral e dos bons costumes. Porém, a cúpula judiciária-midiática-militar, sorteada para julgar o caso, baseada da teoria da dependência, decidiu pela nulidade do processo sob a alegação de que o principio “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, supera todas as disposições em contrário.
A baranga histérica ainda cogitou buscar outros meios de reparação mas, como haviam sido revogados todos os outros meios, engendrou derramar água quente no ouvido do cônjuge. E foi assim que viveram infelizes para sempre.
Moral da história: em terra dos tais homens de bem, ninguém vale um vintém.