sábado, 30 de outubro de 2021

Um trem do outro mundo

 

Guardians of the Time, Manfred Kielnhofer, 2007


Algoritmos são de direita, de centro ou de esquerda? Existe ideologia nestas construções lógicas transformadas em tomadores de decisões nos tempos atuais?

Algoritmos: ferramentas criadas para dispensar trabalhadores, prescindir de mão de obra, evitar a burocracia, facilitar o contato direto entre desejo e mercadoria, além de terceirizar e precarizar as relações. Fonte de sucesso de aplicativos, usado e abusado pelas grandes corporações digitais no direcionamento do trafego da procura por coisas e mercadorias.

Vivemos a era da interatividade instantânea. Nunca desejo e mercadoria estiveram tão próximos. Os algoritmos criaram uma relação de conveniência que facilita a vida do consumidor ao mesmo tempo que proporcionam altos lucros a serem distribuídos entre acionistas e bonificar gostosamente uma malta de executivos anualmente.

Este é o toque de midas da indústria da informação: transformar vontade em dinheiro. Isto faz do algoritmo o grande cafetão das relações no mundo virtual. E a ideologia do cafetão é sua amoralidade, não estar nem aí para qualquer princípio ou valor que não seja sua própria satisfação.

Ao privilegiar a relação desejo satisfação, os criadores e implementadores de algoritmos não têm levado em conta aspectos éticos, sensíveis, aspectos humanos… Mas aí, diriam os pacientes, num dia de excessivo otimismo: Ora, isto é algo novo, em vias de teste, vai chegar uma hora em que tudo melhorará e teremos uma sociedade perfeitamente integrada e sem intermediários que não a lógica e a exata matemática.

Sou um sujeito inquieto, então convido vocês a fazerem comigo uma simulação: digamos que alguém deseja destruir a diversidade humana e colocar no lugar meia dúzia de troços ditados por uma entidade sobrenatural. Como se comporta o algoritmo? Não dá a mínima para os aspectos legais ou ilegais envolvidos na satisfação deste desejo. Em vez de mandar o sujeito ir para a ponte que o partiu simplesmente irá colocá-lo em contato com outros dementes da mesma laia e dar uma banana para o resto porque o que vale é saber que a ferramenta funciona e de que o recado chega redondo ao devido destinatário. E com isto nos abre as portas do hospício, onde todos os doentes mentais, nos mais variados graus de insanidade, conseguem encontrar guarida e, ainda por cima, respaldo jurídico sob a alegação de que a Democracia garante a liberdade de expressão dos facínoras.

Querem outra? Cadastrei meu apartamento em um desses aplicativos de compra e venda de imóveis. Botei lá um valor que considero justo – levando em conta o local, os arredores e as facilidades existentes no entorno… O que aconteceu? Não passa dia sem que o danadinho do algoritmo me envie um relatório onde, com base em exaustivas pesquisas (o algoritmo trabalha dia e noite, sete dias por semana, 24 horas por dia) ele informa que, para melhor me posicionar diante da concorrência, devo abaixar o preço. Pelo raciocínio lógico do mequetrefe chegará dia em que terei que pagar para alguém comprar o imóvel.

É ou não um trem do outro mundo este tal algoritmo. No fundo ele conta mesmo é com o nosso desespero. Isto me lembra o ditado: só existe malandro porque todo dia nasce um otário.

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