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sábado, 9 de abril de 2022

tempus mortis

 

The Damned Soul, Michelangelo, 1525


em meio a pandemia

o papa caminha deserto pela praça de são pedro

em direção ao altar de sacrifício

uma bruxa dança solitária numa praça de sant’orozo

clamando tesão às forças telúricas

os pobres do mst distribuem toneladas de alimentos

        a outros pobres das cidades

os profissionais da saúde dormem no chão dos hospitais

exaustos de incharem estatísticas


mas nada disto funciona:

o mundo continua estúpido,

o mundo desconhece os tempos verbais além do eu

e não faz a menor ideia

de como sair da armadilha

do paradigma criado

em salas engravatadas

acondicionadas à aventura

irresponsável diante do espelho

onde faz a barba, passa rímel… narciso em si mesmo!


eis que hoje muitos irão às compras

eis que um tilt no sistema avisará em horário nobre

que tudo acabará numa coluna de sal…

mas aí cortam para os comerciais

e com a boca cheia de estupidificantes

seremos abordados pelos mercadores da fé

(os tais que matraqueiam em nome de um deus

cercado de advogados e policiais)

a nos oferecer a sobrevivência das baratas -

ora, se o comportamento único e oficial fosse a solução

as formigas, os cupins e as abelhas

seriam os soberanos do planeta…


em meio a pandemia

os danados caminham secos de lágrimas

não choram mortos, desconhecem a empatia,

apenas profanam

a linguagem, a beleza, o sagrado…

em meio a pandemia

assistimos a injúria impune dos danados -

escandaloso repúdio à vida e à consciência alheia




sábado, 15 de janeiro de 2022

composição 1

 

Ilustração de Jô Oliveira




antes de ser brasileiro

sou nordeste e só depois

me reparto inteiro em partes


briosa sina, meu caminhar

querer linda redondilha

como se cá fosse uma ilha

braço de céu outro de mar



sábado, 4 de dezembro de 2021

metafísica dos costumes

 

The Metaphysical Muse, Carlos Carrà, 1917




três aspectos da existência:

tempo

para pregar um botão

memória

para cultivar e curtir

imaginação

para voar e partir


mas

se não fores capaz de pregar um botão

tudo o mais será em vão


 

sábado, 27 de novembro de 2021

loop

 

Waterfall, W.C.Escher, 1961




de manhã nasço

meio dia apogeu

tarde estrebucho


arquiteto no crepúsculo


ah, noite…

tarde demais pra pensar em ti

baby... liberto a madrugada espiral

onde os sonhos escapam ao loop -

agonia no meu encalço - 

e exausto sossego



sábado, 23 de outubro de 2021

a vida é bela

 

Young Girl and Child, William-Adolphe Bouguereau, 1869



minha filha do meio me liga
– quer conversar -
algo lhe machuca o peito...

 

eu, que cedo
fui entregar urina de 24 horas para exame
voltei, no ônibus,
na companhia de uma criança
que aliviou os minutos tediosos
do transporte público:
uma coisinha frágil e enérgica
e esta contradição me levava a desviar o olhar
toda vez que ela tentava contato
por temor de me deixar cativar

fazer-lhes umas gracinhas, brincar talvez 

é que me afastava o incômodo da mãe

que a controlava e corrigia a todo instante

como se a pobre pequena tivesse qualquer domínio
sobre a surpresa de lhe ocorrer
a todo instante
estar simplesmente viva

 

– queria eu ter aquele olhar
suficiente para iluminar o mundo
e fazer de conta que a humanidade tem jeito!

 

minha filha do meio, finalmente, marca uma hora
– aguardo ansioso…
e já que ela confia em mim para desabafar
penso em convidá-la para um passeio no fim de semana:
talvez um filme, uma exposição…
a gente consegue entender melhor as coisas
quando gastamos sola de sapato
até ali onde saboreamos esfihas, pastéis e quibes
(a vida é complicadamente bela)
assediados por outras tantas contradições,
possibilidades e senões…

a liberdade consiste nisto:
ter olhos dóceis para enxergar o mundo
e saber se esquivar das armadilhas
humanas…


 

sábado, 4 de abril de 2020

oremos pelas máquinas de lavar


Washing Machine, Roy Lichtenstein, 1961



coloquei roupa para lavar no programa total
(molho-lavar-enxaguar-centrifugar)
a velha máquina chiou… mexeu pra lá
mexeu pra cá… ruídos estranhos
remexeram sua alma mecânica
– caceta (entrei em pânico)…

desesperado e impotente
acariciei a superfície branca e fria
abracei-a
beijei-a
sussurrei palavras amorosa e gentilmente sinceras:
– não quebre, não quebre, não quebre
por favor, não quebre… e ela não quebrou
        aleluia (nas epifanias dons são revelados)
foi aí que encontrei sentido na minha reclusão compulsória

para que essa boa obra continue
suplico a vocês, reverenciadores e propagandistas
do poder do pensamento positivo
sobre a matéria bruta e insensível, please
deposite na conta que aparece no rodapé da página
qualquer quantia compatível com a fé
no meu singelo propósito
ajudar indefesas donas de casa
(através de uma foto com boa resolução)
a sobreviverem à circunstância
de ver sua doméstica eletrônica
finada em meio a uma enxaguada
em hora tão imprevista e pandêmica
dou graças e peço améns...