Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador morte. Mostrar todas as postagens

sábado, 30 de abril de 2022

pétalas e plumas

 

The Spring, Walter Crane, 1883




Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas”

Ezra Pound, E Assim em Nínive





sou poeta,

bebo vinho,

saúdo a vida

e clamo a ti, fulana:

quando eu morrer

espalhe pétalas e plumas sobre a terra

para aqueles que ainda caminham

pisem suave

sobre o efêmero lar


 

sábado, 26 de março de 2022

A guerra que nos vive

 

War, Marc Chagall, 1915



Partiria. Atenderia ao chamado, decidiu.

Que o esperasse, com uma torta de frango sobre a mesa, pediu e jurou, diante dos olhos tristes da mulher, que retornaria assim que o conflito terminasse.

A ela (enquanto ajudava na arrumação da mochila) ocorreu que o caos não duraria para sempre…

Até riu, e contentou-se, tudo passa, fixou!


Mas o esperado demorou…

E o tempo, implacável, se sucedeu em opressiva inutilidade.

Então, as mãos cansaram, os seios murcharam… os dentes caíram até


Numa desavisada manhã, sem que nenhum estrídulo de sirene arranhasse o ar, a própria esperança se extinguiu e o relógio cessou a vigília.


O que era vivo faleceu e o que tinha perecido insistia em viver.


Enfardado de cicatrizes e remorsos, o maltrapilho homem cruzou o vão da porta morta.

Automática, a vista perscrutou a sala fúnebre e ao sentar-se à mesa defunta sentiu que o abandono era sua única companhia.

E ali, habituado ao vazio conquistado, compreendeu que morrera no instante em que partira.


Lá fora, a guerra zurrava. 



        

sábado, 13 de março de 2021

a luz que abomino

 

Candles, Gerhard Richter, s/data


enquanto a luz (da vida) caminha

inexorável

à escuridão

prossigo minha busca

à poesia que esclarece…

e digo: não odeio

"a luz que começa a morrer

nesta noite serena”,

(oh, quanto desespero lírico, Dylan Thomas!)

antes, suspiro

meu pesar

e chego a chorar

todas as ausências que sofro

minuto a minuto

quando me entrego

por completo

aos raros momentos

em que me comovo

com um genuíno gesto de amor…


porque é disto que sentirei falta

se me lembrar!

durante toda a escuridão que me aguarda...


eis é a causa do sofrimento poético:

tal qual Dylan

considero a Morte injusta sim

mesmo sabendo que morrer é nossa condição

mas isto não esconde

o fato de que a Morte nos priva de tudo

que amamos

nos segrega do afeto, do gesto, do convívio

esta é a violência denunciada:

- o problema não é morrer

o problema é ficar sem o amor de quem amamos


nesse sim e não cósmico

compartilho com Dylan do mesmo horror

da mesma procura poética: luz!

não a evangélica

destruidora/construtora do mundo (interior/exterior)

segundo sua imagem e semelhança

habitada de infinita opressão

e corro para o lado de Ariano Suassuna

para compartilhar da sua simpatia pelos loucos:

porque eis que a loucura

nunca nos pediu um cordeiro no altar em holocausto

isto tem sido sempre tarefa da lucidez...

- a loucura tem nos levado

sim

a escapar da dualidade

da violência divina, violência de deuses dúbios

inseguros da própria divindade

esses tais que exigem sacrifícios

mas são absolutamente incapazes

de livrar da morte aqueles que amamos


eis a luz que também abomino


sábado, 12 de dezembro de 2020

reflexão em dia de juízo

 

The Sun, Edvard Munch, 1911


toda vez que me sinto aperreado

penso na minha Morte

e todos os meus problemas

se evaporam

na névoa da inutilidade


mas embora seja libertadora

(e justamente por isto)

não almejo qualquer poder sobre ela


que me alcance

apenas naquele instante

em que o mistério

da minha biologia revelada

permita e contemple


por fim, a seguirei, Mãe...

       (senhora do descanso, fiel à tua paz

que me livra e guarda nessa hora,

       sob a alegria do Tempo - meu pai)

recostado numa ribanceira

nos braços da mulher amada

cercado de netos por todos os lados



sábado, 5 de setembro de 2020

estrada de versos

 

The Path of Enigmas, Salvador Dali, 1981




encontrei cassia eller

e depois de umas duas pensei:

- a gente morre tão jovem


eu que já morri tantas vezes

quase sempre esqueço de escrever um poema

e olha que sobra verso nesta vida tão curta


as coisas fogem ao controle

(no mapa que nos tem levado a nada)

faço de um tudo

pra encontrar aquela marca

na próxima lua

que tínhamos combinado cheia


resta preparar o melhor almoço de todos os tempos

e imaginar

você a lamber os beiços

os dedos

estalar aquele sorriso e dizer

a seu modo

que está a fim de dormir aqui em casa...


ah, foi só um sonho

esqueci

de combinar morrermos juntos

com tempo de sobra

para garimpar outro verso



sábado, 2 de maio de 2020

ontem morreu um homem


The Piano, Pablo Picasso, 1957





morreu ontem
um homem
recostado ao seu piano…
não o conhecia
(embora seu nome não fosse de todo estranho)

um jornalista escreveu uma singela nota
sete linhas sobre o amigo
e nada mais se falou

também falar o quê
diante daquela imagem singular
a lhe imortalizar o derradeiro instante?

há os que sucumbem infartados na calçada
os que partem velhinhos em casa ou no hospital
aqueles que falecem jovens nas periferias
tantos acidentados, afogados, eletrocutados
queimados, envenenados
assassinados…

mas recostado a um piano…
que tipo de gente morre recostada a um piano?
ainda mais não sendo músico
nem poeta
que tipo de humano morre assim tão diferente
não sendo artista?
não, não era comum este homem
não é comum morrer assim uma morte demasiado poética
e nem era cineasta, ele
a enquadrar o momento
última cena
pose congelada
close your eyes fade out

morreu ontem
um homem humano
estava de barba, boné
cercado de livros
discos, vinhos, lembranças
sentidos e significadosera um filósofo
que ia à padaria e vivia numa esquina
por isso era de fato diferente
bem diferente dos desumanos
daqueles que não ousamos dizer que têm virtude
afinal,
apenas de humanos
podemos apontar defeitos
e o homem que morreu ontem
encostado ao piano
cometeu a mais terrível das faltas
soube ser gente
         pessoa
por isso lhe foi permitido partir
enquanto os dedos brincavam sobre um teclado