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sábado, 6 de março de 2021

Oh, mal tão belo

 

Pandora, William-Adolphe Bouguereau, 18...




Oh, mal tão belo… quem te criou,

senão deuses ciumentos

e rancorosos

com a alegria e o bem estar dos homens?


Oh, mal tão belo…

ornada com as dádivas e as artimanhas divinas

foste destinada ao nosso meio

com a missão de espalhar mazelas

que nos atormentam desde sempre


Oh, mal tão belo…

adornada com flores primaveris,

cheirosa, irresistível, astuta,

cheia de ardis e fingimentos,

curiosa e cínica

vieste para nos atormentar a alma

e instaurar o reino do males sem fim,

onde nos sustenta apenas a frágil esperança


Oh, mal tão belo…

confundiste e enganaste nossa capacidade

de nos anteciparmos ao futuro,

de prevermos possibilidades

diante do Destino que nos assola implacável…


Oh, mal tão belo...

que corrompe e destrói nosso discernimento,

levando-nos a permanecer à deriva

neste oceano incerto que é a vida,

à mercê dos caprichos teus

e das divindades que te engendraram


Oh, mal tão belo”… disse o poeta

ao refletir sobre um dos seus infortúnios

enquanto admirava a beleza das mulheres,

que iam e vinham diante dos seus olhos

sem lhe dirigir sequer um olhar

quanto mais uma palavra (ou um gesto,

por mais insignificante que fosse),

completamente inacessíveis

aos seus membros túmidos de desejos e aflições.