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sábado, 5 de setembro de 2026

O Circo dos Ecos Perdidos

 

Google Gemini


A noite era perpetuamente úmida em Gromglot, capital do reino de Zulch-Barag, um país encravado entre montanhas de osso e pântanos de betume. No centro do Circo dos Ecos Perdidos, estrutura de ferro retorcido que rangia tal qual mil almas em agonia, a multidão de vultos se espremia, convocada pelo Protetorado do Catch, que logo fez soar em todos os fones de ouvidos que aquele não houvera comparecido seria exilado nos campos borbulhantes e enegrecidos afim de recolher barris e mais barris do pretume fedorento que alimentava as caldeiras que sustentavam o vida de todos desde sempre.

Sob um globo de luz, que mais lembrava um olho amarelecido, Grommuzar K'thagg - o Dourado, aguardava numa esquina do ringue. No lado oposto, seu oponente não era um qualquer, mas sim Vlork, o Herdeiro, convocado para enfrentá-lo num vale tudo onde o perdedor teria sua existência apagada dos registros. O imberbe Vlork passara vinte anos nos Abismos de Procyon, exilado pelo próprio pai, que temia que o filho lhe aplicasse o mesmo golpe que aplicara no seu antepassado. Fora criado pela Lúpula das Cavernas Uivantes - anciã que lhe ensinou os golpes abissais proibidos, os únicos capazes de romper a simbiose entre Grommuzar e aquela criatura que lhe servia de máscara.

A criatura dourada que adornava a cabeça de Grommuzar não era um simples adereço: na verdade, era um parasita que há décadas se alimentava de suas memórias, seus medos e, principalmente, de sua humanidade, deixando-o cada vez mais oco e dependente. Por isso nunca fora um lutador legítimo, apenas um hospedeiro que se juntara ao verme encontrado num cadáver nos pântanos. Daí, anos e anos após o inicio do processo, o Protetorado finalmente publicou a sentença: Grommuzar enfrentaria seu filho mais velho num corpo a corpo fatal.

A luta foi uma cerimônia de agonia. Grommuzar tentou seu favorito “aperto estrangulador de promessas”, mas suas mãos escorregaram no vazio que Vlork parecia habitar. A criatura dourada em sua cabeça chiava, tentava manter a aderência, enquanto Vlork o observava com olhos que não refletiam a luz do globo com insuficiência renal crônica.

A multidão de vultos não se manifestou mas o silêncio refletido ficou mais pesado que qualquer grito, urro ou clamor. E foi aí que Vlork finalmente envolveu o pai num abraço de desafeto, frieza absoluta. A máscara estremeceu, soltou-se do crânio de Grommuzar a emitir um som de espinho sendo arrancado da carne e caiu no chão, contorcendo-se morimbunda. Todos os olhos arregalados viram que Grommuzar não tinha face, seu rosto era apenas uma superfície lisa e cinzenta, tal qual de uma estátua castigada pelo tempo. Os vultos inclinaram-se e um murmúrio rastejou através do ambiente: "Sempre foi oco”. No camarote real, a consorte Xylophobia, levantou-se num estalar de vértebras e arremeçou um bilhete flutuante na direção do Conselho: "Fui buscar minha chihuahua no veterinário”. Seus filhinhos do peito, Grommzinho e Ivanka-Zoth - a Polida, tentaram capturar a sanguessuga, que ainda se contorcia no tablado, para colocá-la na cabeça um do outro, mas o sevandija já murchava, tornando-se um arremedo de uma lesma seca.

Vlork, olhou por um longo momento para aquela casca vazia que um dia chamara de pai. Depois, sem uma palavra, caminhou para fora, em direção aos pântanos, seguido não por aplausos, mas pelo rangido aliviado da estrutura de ferro. E no ringue, o que sobrou de Grommuzar K'thagg começou lentamente a rachar, e de dentro das fissuras, um cheiro de promessa vencida escapou, dissolvendo-se na umidade eterna de Gromglot, até que não restasse nada, nem mesmo a lembrança de que ali estivera alguém.

O Conselho dos Ecos, satisfeito, fez desaparecer seu nome dos registros e os vultos voltaram para suas moradas a buscarem, em suas frágeis sinapses, lembrar que a justiça, em Gromglot, era apenas outro nome para a morte e o esquecimento.


 

sábado, 7 de junho de 2025

Saída à Direita

 

Charge de Izanio Façanha, publicada na Coluna Esplanada (DF)

Com a colaboração do meu ghostwriter “Garganta Profunda” 

 

Era uma vez um alguém que pregava Lei e Ordem certo de que regras são como sardinhas: ótimas para os outros, mas ele mesmo jamais se sujeitaria ao cheiro.

Ah, os defensores da lei e da moralidade… até a lei chegar neles.

A mesma voz que estrondava “bandido bom é bandido morto” agora embarca, num avião da Patriot Escape Airline, rumo a um autoexílio regado a pix da malta — aqueles que babam por justiça seletiva e amam inventar malabarismos mentais para chamar covardia de heroísmo.

Porque o fascistoide de estimação nunca aceita o jogo quando perde. Se a democracia o condena, a democracia é “um erro”. Se a Justiça o alcança, a Justiça é “esquerdista”. Se a fuga é a única opção, então “Deus quis assim”.

Quando a Justiça — aquela entidade teimosa que insiste em funcionar de vez em quando — condenou “maria ninguém” a dez anos de prisão, ela não hesitou: “por que cumprir a lei quando posso criticá-la em live no interior dum apartamento de luxo emprestado por um bilionário, nos confins da velha Miami de guerra”?

Seus seguidores, é claro, logo encontraram explicações dignas de roteiro de filme B: “Está em exílio político, missão diplomática”.

E lá se vai ela, de mala cheia e princípios vazios, para uma terra de promissão e impunidade — porque patriotismo, no fim das contas, sempre foi só um disfarce para “minha vantagem primeiro”.

Enquanto isso, seus colegas de parlamento continuavam a votar leis “antifuga de criminosos” — uma ironia que, se for tempero, certamente estragará o feijão.

E o gado aplaude: “Coitada, vítima do sistema!” O mesmo sistema que ela jurou combater, até ele começar a funcionar.

A “maria ninguém”, agora “vítima ativista” internacional, posta fotos sorridente no seu “exílio”, enquanto condena “a ditadura da toga que assola o Brasil a soldo do comunismo. O detalhe? Seu visto era de investidora — porque nada combina mais com patriotismo do que converter dinheiro público em passaporte dourado.

Moral da história: Se a Justiça bater à sua porta, tenha um aeroporto de reserva. E, se possível, chame isso de “resistência”. Funciona.



sábado, 31 de maio de 2025

Considerações Finais

 

Limpando a prataria, Armando Vianna, 1923


Não me perguntem quem fez a denúncia. Talvez alguém da casa, parente, vizinho – alguém com a consciência dolorida. Talvez alguém ferido em seus interesses ou sentimentos e, por isso mesmo, tenha aflorado, em si, desejos de vingança. Bem, pouco importa.

O fato é que agentes do Ministério do Trabalho, devidamente acompanhados por policiais militares, num certo dia, tocaram a campainha da casa de número 1500 de uma das alamedas mais limpa, bonita e cheirosa do condomínio Mirante dos Pavões e esfregaram na cara dos donos (uma dupla de profissionais liberais com raízes fincadas em velhos e decadentes cafezais) um mandado de libertação da doméstica Osmarina Dias dos Santos, mantida em situação de trabalho escravo por quarenta e oito anos.

“Cheguei aqui com 13 anos… lavava, passava, cozinhava, arrumava a casa e cuidava das crianças… cuidei dos pais, dos filhos, dos netos e agora cuidava de um bisneto… três gerações foram alimentados com o leite dos meus peitos e até hoje o suor do meu rosto e o cansaço das minhas pernas e braços sustentaram esta família das 5 da manha até às 10, 11 horas da noite… quando os patrões iam pras festas eu não dormia, tinha que ficar acordada até eles chegarem e aí emendava… tinha que preparar o café da manhã, o lanche pras crianças levarem à escola, o almoço e nessa pisada ficava acordada mais de um dia… não saía, não passeava, não tive filhos, nunca mais soube dos meus parentes, cheguei até esquecer o meu nome porque aqui todos só me chamam de “preta”… acabei me acostumando sob a promessa de que um dia me levarem para conhecer a Disney… jamais pensei que poderia viver a minha própria vida”.

Ali mesmo na sala de estar, largamente decorada com motivos coloniais, dois agentes calcularam os valores devidos à vítima. O total da indenização, mais multas e juros, permitiria que ela vivesse, com folga, o restante dos seus dias onde quer que fosse. Outros dois não tiveram qualquer dúvida ao enquadrarem a família no artigo 149 do Código Penal e solicitarem o arresto dos bens do casal para cobrir todos os encargos devidos.

Os olhares do casal fuzilaram Osmarina com granadas de concussão e imaginaram rupturas de tímpanos e hemorragia cerebral seguidos do espalhamento dos membros e órgãos pelas ruas da cidade sendo esmagados pelos pneus do impassíveis automóveis cujos proprietários solicitariam, do poder público, compensação financeira pelos danos sofridos à propriedade privada.

No dia da audiência, o juiz, antes do bater o martelo e sentenciar aquela família temente a Deus a oito anos de prisão, além do pagamento de tudo que deviam à doméstica, cedeu a palavra à vítima para que fizesse suas considerações finais.

A moça foi de uma parcimônia exemplar: “Queria apenas que eles me agradecessem por tudo que fiz”.

E eu, que acompanhei tudo isto perplexo, com uma tremenda dor de estômago, pensei: “Osmarina será algum dia livre de fato”?



sábado, 15 de março de 2025

está na hora

 

Imagem gerada pelo ChatGPT


está na hora

da democracia romper as algemas

abrir os armários, deixar o vento levar

o pó dos coturnos que inda pisam nossa história

está na hora

de apagar do currículo das academias

as lições de medo e silêncio

de plantar nas cabeças dos quartéis

as sementes da civilidade.

está na hora

de viver para além do golpe,

do autoritarismo que assombra

das torturas que ecoam

das mortes que clamam: nunca mais!


o brasil, com sua dança,

sob a brasa do olhar dos cachorros loucos,

quer transformar pendengas em passos

soberania em abraço

dialógo em ponte

cooperação em festa mas

surja alguém

trazendo nas mãos os impasses

e ameaças nos dentes

erga-se da justiça a clava forte

a luz que corta a escuridão…

não fugiremos pois

não tememos quem cultua a morte,

o brasil conhece seu direito de existir

junto e misturado

no carnaval em que somos inventados

onde a diversidade não é máscara

para esconder desigualdades

nem sombra para ignorar conflitos.


 

sábado, 15 de fevereiro de 2025

ódio

 

Woman with Revolver, Alex Colville, 1987



o ódio tem nome, sobrenome,

selo, brasão e armas…

endereço gravado em mármore

altas portas de excêntricos adornos

cercas pontiagudas e elétricas

protetoras de cifras e sombras espertas.


frágil, humano, simples em essência,

o ódio é um corpo armado e nu

a erguer aos ventos ordinários altares

e engendrar deuses

no espelho estilhaçado do mundo

para negociar a extinção do próprio abismo.


o ódio leva as crianças à disney todo ano

frequenta culto aos domingos

faz dedutíveis doações

e sonega convicto

qualquer solidariedade

que não lhe renda fama e fortuna…

porém, em surto contínuo e calculado

propaga, desesperado

que seu direito de odiar é censurado

pelo jugo cruel da inveja opressora

negadora do mérito empreendedor

do trabalho que liberta


(eis um duelo narcísico ao pôr do sol:

o ódio exige reparo às próprias ofensas

infringidas pelo egoísmo na crença

da imagem e semelhança infalíveis…)


esquecido do abismo da dívida pública,

da sangrenta desigualdade que consome

a mínima justiça,

o ódio constrói muros,

atiça o fogo

sibila, voa

e normal ecoa

nos corriqueiros olhos

da vergonha e desgraça alheias.



 

sábado, 14 de maio de 2022

paradoxos nacionais: um roteiro da iniquidade

Portrait of Arman Frantsevich Aziber and his son
Pavel Filonov, 1915


1. Uma governadora, diante de uma crise monstro no sistema penitenciário do seu estado, lança um edital para compra de lagosta e champanhe para o cerimonial do palácio no mesmo dia em que impede a entrada da comissão de direitos humanos no presídio onde a degola corre solta.

 

2. Um secretário de governo de um importante estado brasileiro, acusado de receber propina de empresas que atuavam na construção e manutenção do metrô, permanece no cargo a pedido do governador que precisa, politicamente, de uma aceleração dos projetos.


3. Um dos donos de uma famosa rede de televisão, cuja fortuna é estimada em 8 bilhões de dólares, disse publicamente, em editorial no jornal do seu grupo, que é preciso colocar “travas” nos reajustes do salário-mínimo por considerá-lo inflacionário.


4. Um juiz da suprema corte, acusado de manter capangas na sua fazenda e de custear com verbas públicas cursos para protegidos na faculdade onde é sócio proprietário, concede dois habeas corpus e um guarda-chuva de proteção jurídica a um banqueiro, condenado em primeira instância, sob alegação de que o processo possui vicio de origem.


5. Político, flagrado em relações íntimas com um chefe de crime organizado, desfruta no estrangeiro, nas festas de final de ano, das delícias que o dinheiro pode proporcionar, livre, leve e solto e muito bem acompanhado.


6. Um dos presidentes do senado faz várias viagens em avião da força aérea, para fazer implante capilar. Descoberto, alega ignorância das normas (pela enésima vez).


7. No mesmo presídio em que sentenciados ao regime semiaberto cumprem pena no fechado, um tetraplégico amarga condenação por tráfico de drogas, por que a polícia encontrou um baseado no seu quarto.


8. Ao fazer um balanço das atividades do conselho nacional de justiça, o presidente da entidade foi enfático: “Cabe a nós, juízes, advogados, promotores, professores e estudantes, manter o empenho constante para tornar o Judiciário mais célere e fazer com que o acesso à Justiça seja, sobretudo, justo e seguro”. No que foi ovacionado pelos presentes pelas belas e sábias palavras.


9. Uma empresa acusada de promover pirâmide financeira, cujos bens dos sócios se encontram indisponíveis, continua patrocinando time carioca.


10. Numa padaria, um desembargador xinga policiais de cagões por se recusarem a prender um cliente que defendeu um garçom que, ao desconhecer com quem estava falando, não lhe obsequiou atendimento preferencial, cerimonioso e servil.


“n”…