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sábado, 20 de março de 2021

o poeta do castelo

 

Cena do filme, 1959



belo, belo, minha bela

tenho tudo que não quero

não tenho nada que quero”…


eis, Manuel, o poeta

na mercearia a comprar leite…


o prédio onde mora

        o Bandeira

é feio e frio


a rua

        por onde ele caminha

é solitária, feia e suja


é visível a condição do poeta

- triste

não fosse a música de fundo

que o homenageia…


Manoel Bandeira, o poeta do castelo

é um filme p&b de joaquim pedro de andrade

e tal qual o protagonista

inventa uma manhã possível

        de acontecer fora da arte...

- e quem prefere viver sem arte?


mas eis que o roteirista

coloca o poeta em pijamas

e o filma na cama

porém o poeta não dorme

(quem disse que consegue)

quem disse que o sonhador precisa dormir?

Bandeira não quer dormir

Manuel, o poeta, quer sonhar… e rir

a despeito

de toda solidão, tristeza e feiura…


e é justo aqui que o poeta ergue a bandeira

e Manoel decide partir

para Pasárgada

não sem antes

comprar um jornal

despedir-se de um conhecido

e atravessar a rua

a deixar para nós

um epitáfio em letras invisíveis:

- fiquem aí com minhas graças,

que me fui,

adeus...



sábado, 23 de janeiro de 2021

despedida

 

Farewell to the Red House, Alberto Sughi, 1992



esse tempo me obriga sumir

e leva junto a inspiração

o desejo, a vontade de sair, passear, olhar o mundo...

enquanto depressa me aparecem cabelos brancos

cresce a barriga 

inchaços aparecem

e dores, manias, cansaços e novatos medos…


ultimamente

(difícil sumir a sensação de que tudo é em vão)

tenho vivido de olhar

   entre quatro paredes

o que fiz de melhor

a tentar me convencer de que vali a pena


mas não estranhem: é que alcancei o instante 42

    aqui onde tenho resposta para tudo

e ao fazer das tripas coração,

me exercito na inventada expectativa

de alcançar seja o que houver além do hexagrama 64


ainda labuto… devagar, pequeno e fraco

e aguardo que a vida

(antes que algo se revele)

não se transforme numa enfadonha despedida