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sábado, 17 de janeiro de 2026

Meu pai é um animal

 

Google Gemini


Até metade da minha infância me sentia igualzinha meu pai. Tinha ele muito pelo sobre o corpo e adorava exibir suas mãos grandonas e unhas grandes e envergadas. Era muito mais alto, o meu pai, maior que todos os outros pais que eu conhecia. Um gigante de nariz enorme, por onde fungava mais alto que som de carro de gente sem gosto. Acreditei que um dia, quando fosse maior – tinha eu uns 6 anos da época em que consegui vê-lo por inteiro - seria igual a ele, com a mãozorra, capaz de enchê-la com um coco, uma bola de basquete ou uma jaca e meter medo em todos à sua volta.

Um dia, meu pai perdeu o emprego, teve que gastar o pouco dinheiro que ainda tinha na poupança e começou a andar pela casa chutando a mesa, as cadeiras, dando murro na geladeira, no fogão, nas paredesTeve um dia que deu um murro tão forte na televisão que sobrou pedaço de vidro, plástico e negocinhos eletrônicos por todo a casa. Minha mãe me puxou pelo braço e trancou a gente no quarto.

No dia seguinte, meu pai tomou o café como se nada tivesse acontecido. Repousou sua mãozona sobre minha cabeça e pediu mil desculpas pelo susto. Ri pra ele um tanto desconfiada e fui pra escola. Minha mãe me contou depois que ele tinha saído para procurar emprego.

Eu estava dormindo quando ele chegou. Bêbado. Foi pra cima da minha mãe e jogou sobre ela toda culpa do mundo, a cobriu com todos os impropérios que conhecia, disse que ia embora, que não servia pra nada, que era o ser humano pior do mundo, que nós estariamos melhor sem ele… Minha mãe chorou e pediu que tivesse calma e pensasse no dia de amanhã, no meu futuro... Ele ficou mais brabo ainda, disse que ela não sabia de nada, que nunca o amou, que casara com ele por puro interesse e que agora tudo seria diferente… O choro da minha mãe aumentou e foi aí que eu levantei e fiquei atrás da cortina que separava meu quarto da sala e pedi a deus que mudasse o rumo daquela conversa, que desse ao meu pai sabedoria suficiente para enfrentar o momento ruim pelo qual estava passando e não nos deixasse no desamparo.

Não sei explicar como aconteceu. Parecia que algo ou alguém apertara algum botão no fundo deste infinito universo e transformado o meu pai num bicho, não um bicho comum: um bicho-fera. Sem mais nem porquê, empurrou minha mãe contra a parede e começou a sufocá-la. Desesperada, pulei a janela lateral a gritar por ajuda. A vizinhança chegou a tempo de arrancar os dentes do meu pai da jugular da minha mãe.

Hoje é dia de visita ao zoológico. Seis anos faço isto toda sexta-feira. Olho sempre para a placa que avisa que a gente não deve alimentar os animais. Por compaixão, desobedeço. Ao atirar na sua direção um pacote de amendoim e uma maça vermelhinha, cruzo com aqueles olhos amarelados, pedintes e lacrimosos por entre as grossas barras de ferro. Ele grunhe... Parece rir. Empalideço e dou um passo atrás.




sábado, 13 de dezembro de 2025

infância

 

Google Gemini


a criança sabia, sem saber

que o desafio da alegria

era esquecer

a melancolia, a tristeza

e viver

capitão da rua,

carrinho de rolimã,

asfalto por oceano

na ladeira, íngreme e grave...


(os apressados e distraídos adultos

com a inveja por fardo

fugiam gigantes

da fortuna de ser pleno)

 

joelhos ralados por medalhas

ranger das rodas, hino de guerra,

meu mundo era a rua

e o tempo

dolorida e doce felicidade


 

sábado, 8 de novembro de 2025

Quando foi a última vez que você?...

 

Google Gemini




- Tomou um banho de mar

- Sentou debaixo de uma cachoeira

- Conversou com um estranho

- Andou descalço na grama

- Deitou na areia do mar

- Escreveu um poema para um filho

- Prestou atenção no canto dos pássaros

- Contemplou o luar

- Bateu papo com uma criança

- Conversou com uma flor

- Cantarolou uma canção no banho

- Apreciou a alvorada

- Aplaudiu um crespúsculo

- Abraçou uma árvore

- Ficou tocado ao ler um livro

- Sentiu o cheiro de terra molhada

- Chorou na exibição de um filme

- Sentou sob a sombra de uma árvore

- Olhou para céu numa noite estrelada

- Fez perguntas e não aguardou respostas...

- Quando foi a última vez que você olhou à sua volta, não criticou nem corrigiu nada, pelo contrário, sentiu-se familiar a tudo e riu um sorriso tímido, mesmo que de canto de boca para ninguém estranhar a sua felicidade e guardar pra si a sensação de estar de bem com o universo, com o mundo e consigo mesmo?


 

sábado, 26 de abril de 2025

Dimensões

 

Old Man in Sorrow, Vicent van Gogh, 1890


Naquela noite, o velho senhor deitou-se mais cedo. Logo acercou-se uma voz íntima que chorava.

O velho quis interrogá-la, saber sua história mas, a voz não dizia, não falava… Só chorava. “O que esconde este choro”, pensou.

E antes que entrasse no sono, sem que arredasse o corpo de cima da própria cama, andou e andou, atravessou oceanos, escalou montanhas, desceu através de vales e só então percebeu que era de seus lábios que nascia a voz que chorava. Fora, o vento ensaiava seu uivo – mas era o choro interior que o preocupava.

Decidido a dormir, o velho senhor, naquela noite conseguiu alcançar sono profundo, mas sem sonho ouviu a voz, ouviu o choro que vinha de si mesmo.

Rajadas de vento açoitavam a janela nervosa, obrigando-o a abrir os olhos e, sem mover um músculo, viu uma criança – pequena, frágil, envolta em lágrimas e luz – emergir da escuridão tempestuosa. Suas mãos calejadas, com candura, a apanharam tal qual a um pássaro ferido. Aconchegados um ao outro, gemeram e perceberam a dor de existir. A dor é o próprio existir. Porém seus olhos de criança não mais choravam mas despertaram no quarto um singelo acalanto acompanhado pelo vento que zunia.

E o velho habitou a voz

E a voz habitava o mundo

E o velho era o mundo

E o mundo era dor

E o mundo era velho

E o velho viu

Que além da dor

do medo

da noite

da janela que estremecia

Entre o gemido e o vento

Havia-lhe nascido

Um poema de silêncio e asas

O velho enfim sorriu

e dormiu tal qual

quem nunca chorara antes.



sábado, 11 de janeiro de 2025

Uma história, três narrativas

Velho Triste no Portão da Eternidade, Vicent Van Gogh, 1890


1.

E naquela noite, o velho senhor deitou-se mais cedo.

E logo acercou-se uma voz íntima que chorava.

O velho quis interrogá-la, saber sua história mas, a voz não dizia, não falava… Só chorava.

O velho sentiu que deveria descobrir o que aquele choro escondia.

Acostumado, andou e andou… Atravessou oceanos, escalou montanhas, desceu através de vales e, para seu espanto, jamais saiu de diante da sua própria cama… E só então pode perceber que era de seus lábios que nascia aquela voz que chorava.


2.

Decidido a dormir, o velho senhor, naquela noite tapou os ouvidos e conseguiu alcançar um sono profundo.

E naquela condição sem sonho ouviu a voz, ouviu o choro que vinha do fundo de si mesmo.

E sem que fizesse qualquer movimento viu uma criança que nascia.

Aparou-a com suas mãos, aconchegou-a em seus braços e percebeu que ambos gemiam e souberam ali, sem que ninguém lhes dissessem, que a dor é a condição de existir. A dor é o próprio existir. E, seus olhos de criança despertaram num alegre acalanto.


3.

E o velho habitou a voz

E a voz habitava o mundo

E o velho era o mundo

E o mundo era dor

E o mundo era velho

E viu que além da dor

Além do medo

Além da noite

Havia-lhe nascido

Um poema…

O velho enfim sorriu

Qual nunca chorara antes.


 

sábado, 23 de outubro de 2021

a vida é bela

 

Young Girl and Child, William-Adolphe Bouguereau, 1869



minha filha do meio me liga
– quer conversar -
algo lhe machuca o peito...

 

eu, que cedo
fui entregar urina de 24 horas para exame
voltei, no ônibus,
na companhia de uma criança
que aliviou os minutos tediosos
do transporte público:
uma coisinha frágil e enérgica
e esta contradição me levava a desviar o olhar
toda vez que ela tentava contato
por temor de me deixar cativar

fazer-lhes umas gracinhas, brincar talvez 

é que me afastava o incômodo da mãe

que a controlava e corrigia a todo instante

como se a pobre pequena tivesse qualquer domínio
sobre a surpresa de lhe ocorrer
a todo instante
estar simplesmente viva

 

– queria eu ter aquele olhar
suficiente para iluminar o mundo
e fazer de conta que a humanidade tem jeito!

 

minha filha do meio, finalmente, marca uma hora
– aguardo ansioso…
e já que ela confia em mim para desabafar
penso em convidá-la para um passeio no fim de semana:
talvez um filme, uma exposição…
a gente consegue entender melhor as coisas
quando gastamos sola de sapato
até ali onde saboreamos esfihas, pastéis e quibes
(a vida é complicadamente bela)
assediados por outras tantas contradições,
possibilidades e senões…

a liberdade consiste nisto:
ter olhos dóceis para enxergar o mundo
e saber se esquivar das armadilhas
humanas…