A noite estava elétrica na Arena Tenochtitlán. Mais de vinte mil almas enchiam as arquibancadas, todas sedentas pelo espetáculo prometido, anunciado a meses. No centro do ringue, iluminado por um gigantesco holofote, El Naranjo Magnífico, com aquela pele opaca e acobreada, cujas gorduras flácidas faziam oscilar as pelancas, ergueu os braços num gesto de triunfo e exibiu sua marca principal: a peruca loiro-platinado com destaque para o topete tal qual um músculo rígido, às custas de muito laquê, deixava escorrer sobre o rosto alguns fios grossos e sebosos a cobrir-lhe o nariz e parte da boca entreaberta como se de prontidão para pronunciar alguma asneira. Duas tremulantes bandeiras saía-lhe de cada um dos lados da cabeça numa singela referência a chifres de bisão. O brilho daquela cabeleira resplandecia quem nem um farol de mau gosto, enquanto ele arranca o microfone das mãos do mestre de cerimônia e berra com aquela vozinha anazalada com sotaque caipira do sul de Sinalobola: “Eu sou eu e licuri e coco”. A multidão vaiou e aplaudiu, num êxtase esquizofrênico, tão apaixonada que as paredes tremeram contraditórias.
No canto oposto do ringue, seu desafiante não era um qualquer. Era seu filho mais novo, El Barranchón, o gigante silencioso de dois metros e meio de altura, a envergar uma máscara prateada sem nenhum adorno — a máscara "Dos Esquecidos", que Nana Lupita lhe dera antes de partir para Mictlán - a terra dos mortos.
A luta foi um horror, absolutamente sem graça. Nenhum golpe conseguiu arrancar entusiasmo da plateia. El Naranjo circulava pelo tablado a tentar surpreender El Barranchón, mas o olhar entristecido do garoto por vezes lhe comovia. Tentou uma ou duas vezes o seu famoso Aperto de Mão Trapaceiro porém a mão do jovem segurou a sua com uma força que vinha das décadas de silêncio que se impusera desde que fora abandonado naquela caverna escura, no ânus do mundo, sob o pretexto de evitar uma tragédia futura na família (na verdade El Magnifico temia que o menino feito homem lhe usurpasse a fortuna tal qual fizera com seu antepassado de triste memória).
No terceiro assalto, o impossível aconteceu: o gigante silencioso aplicou uma chave de braço simples e pura (aprendida num vídeo do YouTube na noite anterior) que El Magnifico caiu de joelhos, sua torre de cabelo dourado inclinou-se para o lado a revelar uma testa pálida e ardida de suor. O silêncio na arena se fez brutal. O árbitro ergueu o braço de Barranchón. El Magnifico tentou discursar, gritar que fora roubado, que os juizes, mesmo comprados, mijaram pra trás e deram a vitória ao filho ingrato, aquele luchador de quinta. La Dama de Hielo, a esposa-mãe, visivelmente constrangida, ao ouvir a palavra ingratidão subiu serelepe ao ringue e com um sorriso ensaiado numa tentativa de gerenciar aquela crise de imagem, retirou da bolsa de grife notas e notas de petrodólares e as derramou sobre aquele rosto moldado pela expressão de derrota tal nunca se vira em algum ser vivo desde tempos imemoriais.
El Barranchón aproximou-se daquele arremedo de pai. A multidão prendeu a respiração e aguardou o golpe de misericórdia. O rapaz não disse palavra. Ajoelhou-se, fitou aqueles confusos olhos azuis e removeu a peruca num gesto lento e delicado. As câmeras deram um close que repercutiu pelo eter até os enormes telões espalhados de costa a costa do país, atravessou fronteira e atingiu a galáxia… Não foi um mostro que contemplaram. O que os zilhões de olhos viram foi um carecón, um ratón acuado, com marcas de spray laranja a escorrer-lhe pelo rosto, tal qual maquiagem borrada por água de chuva ou enxurrada de lágrimas.
Barranchón caminhou na direção da saída sem olhar para trás… a multidão, num crescendo, fora levado, por algum fã que sabia da história o começo, a cantar o nome do vencedor: Dodô! Dodô! Dodô! (assim como a velha Lupita o chamava)... Quando o coro atingiu o ápice, o menino feito homem, estancou e nu de fantasia pediu silêncio, encarrou o mundo, refletiu eras e, finalmente, retirou-se.
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