Falo de uma noitada a convite de um amigão meu (amigão mesmo), regada a lindas garotas belamente interesseiras e superfaturadas. Ali degustei uísque ao preço de 100 mil dólares a dose e devorei fatias de filé de libélula pré-históricas, importadas das zonas úmidas das Trufeiras do Basyugan na longínqua Sibéria, banhadas de ouro 24 quilates.
Esse amigo, que considero um irmão, infelizmente, nasceu filho de um nababo turco-malaio. Ainda nos cueiros decidiu usar e abusar do hobby de jogar dinheiro fora como uma forma de combater os pecados familiares e assim se livrar da maldição que assola sua genealogia desde tempos imemoriais, quando seus antepassados acumulavam fortuna através de guerras, saques e pesados impostos sobre os ombros de uns pobretões ingênuos fanatizados pelo medo do bicho papão.
Dessa noite, lembro ainda de me jogarem numa luxuosa alcova, mais bêbado que um gambá (se bem que nunca vi nenhum gambá bêbado, embora tenha visto na infância um peru de natal cambaleando pelo cozinha). Ali penetrei um universo onírico e para meu gozo despertei na imensidão do Salão Nobre do Resort & Spa Quinta da Impunidade, localizado numa ilha privada, em águas territoriais internacionais. Diligentes secretárias exigiam, com seus cantos de sereias, que eu assinasse uma papelada. Reparei que acima das nossas cabeças pendia um imenso cartaz que galvanizou minha atenção. Em letras garrafais anunciava-se um Congresso Anual dos Canalhas a ser realizado naquela madrugada. Uma voz de veludo adocicada vinda sabe-se lá de onde, articulada por uma dicção impecavelmente shakesperiana, fazia ressoar a locução: “antes que o povo chore o fim da festa, os primeiros serão celebrados”. Sem mais delongas, rubriquei as páginas, do que presumi ser um contrato, paguei as taxas e emolumentos correspondentes, recebi a chave do meu quarto, uma pasta contendo o material descritivo do congresso além de um dispositivo de votação à prova de fraude. Senti-me pleno na irresponsabilidade dos nobres franceses antes da guilhotina.
Na primeira página, a composição da mesa diretora: um oportunista hereditário presidiria os trabalhos, acessorado por um pelotão de juristas de aluguel, uma mulher de negócios especialista em trabalhos voluntários e um publicitário encarregado de manter a sujeita da porta pra fora.
Afogado em baba que escorria da minha boca aberta e caía sobre meu queixo caído, não consegui impedir meus dedos de virar a página e ler as presenças confirmadas: políticos, empresários, influenciadores digitais, bloqueiros de fofocas, velhos amigos de aguas passada e alguns inocentes úteis.Meus olhos pesaram, pensei em parar, mas o livreto me agarrou e impôs às minhas retinas um mundo inescapável – a pauta. Sem rodeios ia direto ao ponto, ou seja a Institucionalização da Vantagem Própria às Custas da Boa-Fé Alheia. Definitivamente não era um evento de maldade pura, era sobretudo, um encontro para todo mundo garantir que a espada de Dâmocles não lhes caisse sobre a cabeça.
Remexi os glúteos no colchão recheado de penas de ganso zarolhos oriundos das terras altas suíças, envolto em lençóis fabricados em tendas nômades no deserto do Saara por esposas fidelíssimas, não resisti à sedução de ler um a um, pausadamente, os itens para discussão, dentre eles a Arte da Terceirização da Culpa; Técnicas avançadas de como apontar o dedo antes de ser delatado; Monetização da Narrativa e Prática de uma Honesta Canalhice; Como manter as aparências de virtude pública enquanto se opera nos bastidores, por baixo dos panos; Proclamação da Anistia Perpétua para todo e qualquer crime que venha a ser cometido por puro erro de cálculo; Mecanismos jurídicos e retóricos para perdoar os próprios desvios; Como criar regras que blindem o topo da pirâmide contra consequências reais; Engenharia de Acordos Descartáveis; Alianças temporárias baseadas estritamente na conveniência do momento; Estratégias de traição; e, a joia da coroa, um rascunho da redação do Manifesto do Cinismo – uma carta de intenções que deveria ser votada e aprovada ao final do congresso nos seguintes termos: “Nós, os arquitetos da conveniência e guardiões da hipocrisia, reunidos sob a égide do pragmatismo absoluto, declaramos o fim da culpa. A virtude rígida fracassou. O cinismo é, portanto, a única ferramenta sobrevivente para a navegação social eficiente. Fica estabelecida a supremacia da aparência sobre a essência. Afinal, o cinismo não é um desvio de caráter, mas um mecanismo de defesa. Quem exige a pureza do outro é o verdadeiro culpado pela decepção que sofrerá”.
E finalizava enfatizando que a verdade é uma construção adaptável, que a realidade não importa, que existe uma moralidade de ocasião, que a ética é um adorno estético e que a caridade e a solidariedade são desperdício de capital político.
Fechei os olhos e deixei-me invadir pelas palavras do nosso estimado grão-mestre na abertura o conclave: “Senhoras, senhores e…. Associados de ocasião. Sejam bem-vindos ao evento onde a máscara cai para que possamos, finalmente, ajustá-la melhor. Não se olhem com desconfiança; guardem o punhal na capa, pois hoje o interesse de todos nós é exatamente o mesmo: a sobrevivência no topo. A ingenuidade construiu este auditório, mas foi a nossa astúcia que financiou a decoração. Enquanto o mundo exterior se desgasta debatendo conceitos abstratos tais como "honra" e “virtude”, nós prosperamos na única moeda que jamais inflaciona: a conveniência. Não sintam culpa. A culpa é uma invenção dos fracos para tentar enjaular a sagacidade dos audaciosos. O que as ditas almas puras chamam de traição, nós chamamos de "recalcular a rota". Iniciamos os trabalhos com uma certeza inabalável: o maior erro do mundo nunca será o nosso. O maior erro do mundo é, e sempre será, de quem escolheu acreditar. A boa-fé é um convite ao banquete e nós somos os anfitriões. Ergam suas taças, declaro aberto o nosso congresso. Que vençam os mais rápidos na arte da delação oportuna”.
E pude ouvir o eco da sua confidência informal numa rodinha de pariceiros, antes do início dos trabalhos: “Um brinde ao nosso patrono, este ausente homenageado, que tem nos ensinado que não é necessário ser virtuoso, mas sim parecer virtuoso. Graças a ele, hoje operamos na luz do dia, aplaudidos pelas mesmas vítimas que financiam o nosso banquete. E já que ele está impedido de aparecer, por motivos óbvios, o troféu que lhe seria destinado resolvemos confiscar e leiloá-lo entre os membros da diretoria”. Lembro que rimos a bandeiras despregadas.
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