(o dia em que deixei de ser criança
o dia em que, pela primeira vez, o adulto em mim, se mostrou
o dia em que a criança em mim teve que dar passagem ao adulto
o dia em que o adulto e a criança não se reconheceram um no outro
esse dia estranho não existe
esse dia não é
esse dia é uma invenção
busca tornar-se realidade
eis que a criança mostra seu olhar, seu sentir
o adulto os calos das suas mãos
sem violência é este confronto
para extrair sentido da lembrança
desse não-acontecido
esse dia
pois é...
esse dia não é meu
talvez não seja de ninguém
mas foi um dia sim
qualquer um pode afirmar:
seria bom construir
o drama daquele momento
daquele encontro interior
onde o espanto
teve que curar feridas
sem deixar cicatriz)
…veio de um estalo
no olhar de Clarice
na última fala pública
ali, enxerguei no vácuo
a criança que não se foi
o adulto que não se apaga:
o drama de dois estranhos
assinando, em silêncio
um tratado de paz
para que o corpo, enfim,
se mantenha inteiro

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