sábado, 3 de janeiro de 2015

Aos Bons Companheiros


Boys, Nikolay Bogdanov-Belsky, 1910



Quero construir meu castelo e meu reino
sem matanças nem morrências.
Ariano Suassuna,
O Romance da Pedra do Reino


Hoje quero dizer, com algumas exceções
Que reafirmo tudo que disse ontem.
Permaneço em essência o mesmo
Um tanto mais seletivo
Porém, jamais um elitista,
Um aristocrata de espírito.
A nobreza que me embala
(Embora não seja de todo imaculada)
Guarda semelhança
Com a inocente esperteza
Daqueles que não têm nada
Uma certa alegria por despossuir
Gozar a liberdade de ter a si e não as coisas.

Hoje quero dizer
Que amo estar aqui, um entre tantos
E poder contemplar o milagre da existência
Em meio à extensa e profunda diversidade
Essa contínua busca de beleza, simetria e equidade.
Esse jogo artístico, essa astúcia espíritual
Têm me preservado da força bruta, da energia cega
Da descomedida potência dos que temem o impreciso
E preferem os grilhões à incerteza do incomensurável abismo
De que somos construídos.

Hoje quero dizer
Que embora o inferno seja feito
Das nossas boas intenções
Sem elas já teríamos sucumbido à desesperança
E que continuo a apreciar
As coisas boas da vida
Mas, sobretudo, aprendi a admirar nos outros
O que ficaria bonito em mim.  



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