sábado, 6 de setembro de 2014

O Sonho

The Dream, 
Max Beckmann, 1921


Barulho da porta. Carlos Rigot entra sem avisar. Vai direto ao filtro sobre a pia da cozinha e serve-se de dois copos d’água. Parado no corredor, acompanho seu corpanzil desgrenhado aboletar-se na minha poltrona diante da TV. Sento no sofá ao lado. Largo o livro sobre o tecido empoeirado. 

Fazer o bem desgasta.

Não há diálogo. Com ele é sempre monólogo. Mas aprecio. Sempre aprecio. Gosto e aguardo sua figura saída dalgum romance indefectivelmente gótico. Ansioso e gasto todo o tempo. Puído em sua indumentária negra e perene. 

Alguém a pouco, no ponto de ônibus, me perguntou como chegar à Rua da Abolição. Relutei mas assenti. Só faltei desenhar. Sabe o que o mal-agradecido fez? Foi perguntar pro vizinho.

Arrisquei muito ao mudar minha atitude e dizer que talvez ele não tenha inspirado a devida confiança.

Não inspiro confiança?

Não…

Não ou sim?

É que não existe mais inocência.

Não existem mais ingênuos no mundo?

É. Talvez sejamos todos espertos. Ou fazer o bem faz mal.

Soa bem. Posso pegar um copo d’água? O que me ocorreu, meu caro – disse quase a quebrar um dos copos pousados na bandeja sobre a geladeira – é que o meu amigo ingrato não entendeu a minha linguagem ou eu não tenha sabido falar a dele. Somos todos falhos na comunicação, com a graça de Deus.

Voltou a sentar-se. Agora no sofá. Afastou o livro e aproximou-se de mim. Quase a sussurrar no meu ouvido, disse: – Escute. Quer ouvir?

Existe um acordo entre nós, sobre o qual nunca falamos. Eu o ajudo, ele me ajuda. Embora nunca seja fácil encontrá-lo. No entanto, dada a minha natureza, estou sempre disponível no mesmo endereço há mais de trinta anos.

É uma pequena cena. Algo que encontrei na Antologia da Literatura Fantástica elaborada por Borges, Bioy e Silvina: uma velha narração do século passado, de um obscuro escritor que morreu na miséria acreditando que viera ao mundo para fazer o bem sem olhar a quem.

Fiquei curioso. Ele percebeu e arrancou do bolso um amassado pedaço de papel. Empurrou na minha direção aqueles hieroglíficos mas antes que eu começasse a decifrar aquela receita médica, soltou o verbo…

Conta-se que, numa tarde, tomando um café num bar de subúrbio, um jovem escritor defrontou-se com uma figura esquálida que o mirou durante alguns minutos. Sem resistir, convidou-o a compartilhar um drinque. O estranho recusou a bebida mas solicitou que lhe ouvisse o sonho da noite anterior. Queria saber se poderia ajudá-lo a formatar uma narrativa ligeira. Havia algum tempo começara no exaustivo ofício de contista e como sabia que o outro era um literato não podia deixar passar a oportunidade de lapidar o estilo. “Parece que existem muitos pretendentes mas a noiva é uma só”, disse desajeitadamente. O outro fez uma associação mitológica em meio a um sorriso condescendente. Foi corda o bastante para que o esquisito discorresse num fôlego: “Estava num piquenique com a mulher e filhos. No balneário dos trabalhadores. Na grande vasilha, sobre a toalha aberta sobre a grama do parque jardim, o melhor da festa. Servia a todos. Sorridente, reparei, próximo, dois olhos pedintes. Sem hesitar, perguntei-lhe se aceitava um pouco. Os olhos famintos consentiram. Mas faltava um prato. Ninguém cedeu o seu. Fui até o restaurante do clube buscar louça e talher. Demorei na escolha. Por quê? A indecisão custou-me um quarto de hora. Ao regressar, vi que a minha família acabara de devorar os deliciosos e grandes pastéis. Os últimos. E pra mim, não sobrou nada? Os olhos esfomeados queixou-se. Afastado, falava mal. De mim”. Que acha?



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