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sábado, 1 de agosto de 2026

e no entanto respiro

 

Google Gemini




diga-me pleurôn,

porque sou o que sou?

se antes de mim, eu não existia,

o que me faz te perguntar isto

sabendo que logo estarei morto

apenas pó soprado no imenso deserto

esquecido do que fui, sonhei e fiz

neste curto espaço de tempo

em que acreditei que bastava

pensar para criar suposta realidade

onde nos debatemos uns nos outros

como cego, surdos e mudos

numa sala escura.


não, não me responda

não desejo pensar novas perguntas

e alcançar as mesmas respostas

de que a mim

me cabe um singular instante

um propósito além do imediatismo:

porque viver

é um truque de magia

indesmontável

aceitação daquilo

que jamais serei

ou conhecerei


 

sábado, 4 de abril de 2026

transição...

 

Google Gemini


(o dia em que deixei de ser criança

o dia em que, pela primeira vez, o adulto em mim, se mostrou

o dia em que a criança em mim teve que dar passagem ao adulto

o dia em que o adulto e a criança não se reconheceram um no outro


esse dia estranho não existe

esse dia não é

esse dia é uma invenção

busca tornar-se realidade

eis que a criança mostra seu olhar, seu sentir

o adulto os calos das suas mãos

sem violência é este confronto

para extrair sentido da lembrança

desse não-acontecido


esse dia

pois é...

esse dia não é meu

talvez não seja de ninguém

mas foi um dia sim

qualquer um pode afirmar:

seria bom construir

o drama daquele momento

daquele encontro interior

onde o espanto

teve que curar feridas

sem deixar cicatriz)


…veio de um estalo

no olhar de Clarice

na última fala pública

ali, enxerguei no vácuo

a criança que não se foi

o adulto que não se apaga:

o drama de dois estranhos

assinando, em silêncio

um tratado de paz

para que o corpo, enfim,

se mantenha inteiro


 

sábado, 5 de agosto de 2023

paradoxo

 

The Perfect One, Christo Coetzee, 1994


 

olhe em volta:

chove, venta, faz sol, frio... tranquilo

ambiente previsível

 

a mente não, a mente destrambelha

organiza, dá sentido, nomeia e determina

verdade, mentira, ficção e realidade

 

lotada de demônios, medos e incertezas

não para, não descansa

adoece e cura, oscila

lamenta e chora, entre vida e morte

reza, ora, clama

faz de conta que é natural

verdadeiro e real

tudo que pensa e dilacera...

 

não há quem ou quê

nos salve da mente...

a não ser ela própria


 

sábado, 29 de fevereiro de 2020

fruto da imaginação


The imaginative faculty, Rene Magritte, 1948




minha mãe não me deixava morrer de fome
mas me matava de amor

passei o dia a martelar
esse paradoxo na cabeça…

pensei em descansar
confiei que se dormisse
encontraria uma resposta

e sonhei
sonhei que resolvia a contradição
que ainda vive em mim

porém, quando acordei
a primeira coisa que lembrei foi
os termos
ao se somarem
anulam-se mutuamente
restando no lugar
uma carência…

se a realidade não passa
melhor ficar em paz
melhor fazer de si
um fruto
da própria imaginação