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sábado, 2 de maio de 2020

ontem morreu um homem


The Piano, Pablo Picasso, 1957





morreu ontem
um homem
recostado ao seu piano…
não o conhecia
(embora seu nome não fosse de todo estranho)

um jornalista escreveu uma singela nota
sete linhas sobre o amigo
… e nada mais se falou

também falar o quê
diante daquela imagem singular
a lhe imortalizar o derradeiro instante?

… há os que sucumbem infartados na calçada
os que partem velhinhos em casa ou no hospital
aqueles que falecem jovens nas periferias
tantos acidentados, afogados, eletrocutados
queimados, envenenados
assassinados…

mas recostado a um piano…
que tipo de gente morre recostada a um piano?
ainda mais não sendo músico
nem poeta
que tipo de humano morre assim tão diferente
não sendo artista?
não, não era comum este homem
não é comum morrer assim uma morte demasiado poética
e nem era cineasta, ele
a enquadrar o momento
última cena
pose congelada
close your eyes… fade out

morreu ontem
um homem humano
estava de barba, boné
cercado de livros
discos, vinhos, lembranças
sentidos e significados… era um filósofo
que ia à padaria e vivia numa esquina
por isso era de fato diferente
bem diferente dos desumanos
daqueles que não ousamos dizer que têm virtude
afinal,
apenas de humanos
podemos apontar defeitos
e o homem que morreu ontem
encostado ao piano
cometeu a mais terrível das faltas
soube ser gente
         pessoa
por isso lhe foi permitido partir
enquanto os dedos brincavam sobre um teclado