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sábado, 27 de junho de 2026

comércio de lágrimas

 

Grok


um erro, um desacerto

uma fatalidade, um desastre natural

uma perda irreparável

uma ofensa, uma pancada no ego

e lá vem solícita a tristeza

esticar-se na nossa rede…


logo a sugadora

(carrancuda de dentes serrilhados)

grita - quero um cafezinho

para esquentar meu peito

árido, habitado de rancor

e desemparo...


e o dia se faz noite,

enquanto o breu nos abraça

nos privando de uma réstia de luz

(alívio pro nosso coração travado),

ouvimos martelar

quase que a tocar

maternal

o nosso ombro

longínqua lucidez:

- porque há gente

que se alegra com a tristeza

e fatura alto

no comércio de lágrimas?


 

sábado, 13 de dezembro de 2025

infância

 

Google Gemini


a criança sabia, sem saber

que o desafio da alegria

era esquecer

a melancolia, a tristeza

e viver

capitão da rua,

carrinho de rolimã,

asfalto por oceano

na ladeira, íngreme e grave...


(os apressados e distraídos adultos

com a inveja por fardo

fugiam gigantes

da fortuna de ser pleno)

 

joelhos ralados por medalhas

ranger das rodas, hino de guerra,

meu mundo era a rua

e o tempo

dolorida e doce felicidade


 

sábado, 7 de setembro de 2024

tristeza

 

Tristeza, Ema Mazánková, 2019


você é triste de que jeito?

escondido, na solidão das penas,

ou, rançoso, afogas mágoas

num copo, num prato, num coito?


qual o tamanho da tua tristeza:

te faz abraçar o mundo, compassivo

ou a autopiedade te amiúda em ais

e te leva à ira mas à poesia jamais?


o quanto permites te manipule,

te engane, a tristeza,

esse fado que acolhes?


se dor é fingir que é dor

a dor que deveras sentes…

que o teu amargor tal sina 

não ouse te fazer de besta


 

sábado, 6 de fevereiro de 2021

ode à tristeza

 

The Captive Slave, John Simpson, 1827




“Tire seu sorriso do caminho

que quero passar com minha dor”

Nelson Cavaquinho, A Flor e o Espinho




ouça, amiga, a poesia é triste…

justifica, atenua 

legitima a dor... 

sente a causa

quem sente a tristeza do mundo


evoco Rubens Alves e sua epifania

(no conto “ensinando a tristeza”,

inspirado no Eclesiastes 7:3 e,

principalmente, pela observação

que lhe faz uma neta entendida de compaixão):

“aquele alegrinho

que está o tempo todo esbanjando alegria

dizendo e querendo ouvir

coisas engraçadinhas

é um flagelo… perto deste

perdemos a liberdade de ser triste”


pois é, o alegrinho é um aleijão empático,

solidário apenas consigo mesmo...


desconhecido da compaixão,

resta a este alienado narciso

reivindicar, 

        atrevido e irresponsável,

que a sua alegria nos seja a prova dos nove:

        ilegítima pretensão.


é que faltou-lhe perceber que a alegria

não brota da vontade

de um movimento individual da vontade…


- a alegria, poetas

é filha dileta da dor!