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sábado, 25 de abril de 2026

inventário do pó


Google Gemini


sei do raro gás o segredo e o nó

mas para criar água me queimo:

unir o sopro ao fôlego da vida

explode em fogo a mão atrevida


na cidade, carcaça de metal e pressa

(onde o aço range sonho de extinção), 

o automóvel e as grades adornam

a cela da minha inóspita e amada solidão


no asfalto, trafego vaidosos espelhos

catedrais de luxo desumano

que sugam o sangue da eletricidade

enquanto o deserto reclama seu plano


de mim cobram ouro, brilho, apogeu

como se a chama em surto final

fosse a saúde daquilo que ainda vive

no espasmo do curto-circuito fatal


vendem-me tudo em parcelas risonhas

mas cospem no sábio que observa a brasa

preferem a ilusão do instante bento

ao seguro teto da reconstruída casa


filtro o mar com fúria e descrença

em busca de um gole de paz e luz,

mas o que sobra da bacia imensa

é puro sal que me humilha e reduz


interditei meu pais, o rio, a floresta - 

velhos gagás que nunca tiveram juízo

esqueço a salmoura que no fundo resta:

resíduo amargo do meu eterno prejuízo. 



sábado, 16 de setembro de 2023

sempre indo

 

Onde Ir, Alberto Sughi, 1992



todos foram embora
restaram os fantasmas…
e eu
tenho dispensado companhia 

falta vontade
de olhar as frestas,
as réstias
as sombras e os contrastes 

nunca fiz piada de mim mesmo
levo a sério decifrar poemas,
eu, esse rascunho 

todos foram embora… 

o protocolar “como vai”
me desgosta
como?
se sempre vou indo


 


 

sábado, 24 de setembro de 2022

apenas um poeta

 

The Poor Poet, Carl Spitzweg, 1837




não me peçam nada

além de palavras:

– sou apenas um poeta


ai, quem me dera

chegasse a maiakovski

chico, neruda ou drummond…


mas me fiz assim, ordinário

– a comungar com a própria solidão


por favor,

não me peçam nada

mal consigo me entender

com a rotina,

quanto mais…!


cotidiano, imploro:

ai, quem me dera

não desejar mais nada,

finalmente

acertar as contas

com minh’alma sucinta



sábado, 16 de abril de 2022

odisseia

 

Tillia Durieux (atriz austríaca) interpreta Circe, óleo de Franz von Stuck, 1912




me amas assim?

preciso ao menos cinco doses!

minha razão não compreende

esse sentir (ah, teu tom, teu olhar além…)

diante da sede de alegria e prazer


a aguardente me permite

navegar a sedução

mas também conduz ao susto e ao sono:

inteiro à tua mercê

isto é desigual, mulher,

impossível te alcançar

– que há comigo que não controlo,

no delírio de te entender, este artifício?


e cisma minha imperfeição, melhor esquecer

sereia encantada: 

teu canto em meus ouvidos

este faz de conta

meu sonho

acessível a todo instante...

basta que me embriague a solidão



 

sábado, 13 de fevereiro de 2021

arquipélago

 

Voyages #55: Galapagos Islands, Joyce Kozloff, 2006




pobres

pretos pobres

brancos pretos pobres

índios pretos brancos pobres

todos pobres…


pobres pretos

índios

brancos

todos pobres…


índios

pretos

e até mesmo brancos

somos todos pobres