sábado, 7 de fevereiro de 2026

Balas custam caro

 

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O corpo mutilado do delegado Moreira, fora encontrado na Alameda dos Anjos. O Departamento de Ordem Pública soltou uma nota afirmando que o honorável servidor público, com relevantes serviços prestados à defesa da pátria, fora vítima da insídia subversiva e que sua morte seria vingada, exemplarmente. Tinha eu uns 20 anos na época e acompanhei chocado os desdobramentos.

Alguns dias depois, as dependências do quartel general da repressão estavam lotadas de familiares, parentes, amigos, colegas, conhecidos e conhecidos dos conhecidos de todos os presos políticos e procurados pelo regime de chumbo instaurado no país em 2034. Mas não havia lugar para tanto preso.

Os detidos foram encaminhados então para outros quartéis, hospitais psiquiátricos e quando também estes ficaram superlotados a cúpula decidiu ocupar estádios. Quando nos estádios não havia mais lugar para trancafiar os inimigos do sistema, veio a ordem para começar a eliminar, lenta e gradualmente, de fome, sede, maus tratos, privações, contaminações, todos os prisioneiros. Alguém, numa ponta, questionou se não seria mais fácil dar um tiro na nuca de cada um. Pouparia queixumes. “Não”, berrou o chefe dos chefes. Estavam em fase de contenção de despesas; que seria muito dispensioso; além do que o estoque de munição mal dava para meio dia de tiroteio; que seguissem as ordens e parassem imediatamente de tentar melhorar o que não tem jeito. Ponto final.

E neste ponto, é natural que nos perguntemos: o que de fato aconteceu com o delegado-chefe do maior centro repressivo do regime? Quem realmente fora o responsável por sua morte?

O motivo do crime era assunto que percorria toda a nação ninguém encontrava resposta. Ficou claro por A mais B que nenhum comando revolucionário emitira tal ordem. Então, como um rastilho de pólvora, a pergunta bateu nas portas do Ministério da Defesa e Segurança Interna. O general Portela, ministro-chefe, deu ordens severas para que o caso fosse arquivado e que o corpo fosse enterrado com honras de Estado e a família recebesse todos os benefícios a que o oficial da lei tinha direito, acumuladas todas as gratificações e mais algumas coisinhas.

Porém, o delegado adjunto Mosca, contando com apoio de uma meia dúzia de oficiais de alta patente, descontentes com os rumos que o Alto Comando vinha imprimindo ao projeto político, decidiu investigar por conta própria. Respaldado pelo general comandante da II Região foi à luta e encontrou a prova definitiva de que o colega fora executado por ordem expressa do Palácio Central.

Esse é um encrenqueiro. Só pensa no próprio umbigo. Já estou de saco cheiro dele. Dê um fim nisto”. Perdido no meio da papelada que abarrotava o prontuário do falecido, xerografo por um cúmplice no Ministério da Guerra, Mosca encontrou o bilhete, escrito em maiúsculas numa folha de papel com o timbre da presidência da república, dirigido ao ministro. A assinatura não deixava dúvida: a ordem veio do topo da pirâmide. Era preciso romper aquele ciclo, concluiu.

Teve inicio então sua militância clandestina na oposição. Logo arrastaria para seu lado boa parte dos delegados que trouxeram procuradores, juízes, políticos e uma camada significativa da elite rentista e empresarial insatisfeita com a política de torneiras fechadas até que o bolo crescesse.

Pressionados por seus próprios aliados e ameaçados pelo bilhete encontrado por Mosca - um homem do sistema, movido pela autopreservação, calculista político - agora alçado a líder oposicionista reconhecido internacionalmente, os milicos não tiveram alternativa senão voltar aos quartéis, não antes de firmarem um pacto com o subalterno de jamais trair seus antigos comandantes. A mesa fora virada, a transição começara. O homem que encontrou a prova da incompetência fardada, cumpriu o que prometeu, levou para o túmulo o porquê Moreira morreu?

Mas se o Mosca morreu sem revelar nada, de que jeito você ficou sabendo disso tudo”, perguntou minha neta. “Ora, eu sou o autor… sei de tudo que se passa nesta história. Não gostou, inventa a sua”.


 

sábado, 31 de janeiro de 2026

horizonte oculto

 

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uma janela inexorável olha

para outra janela de persiana abaixada...

e existe, no alto, uma porta

que jamais conversa com outra porta


ai de mim que,

debaixo do cobertor,

reclamo do intermediário

que dá bom dia por mim!


- zé, diga pro 12 que ele amassou a lateral do meu pegout!

- vou olhar no replay, doutor!

- pra que, foi ele e cabou!

- vê só, o seu vizinho do 27, não tinha que estar no segundo-subsolo, já que a vaga dele é no primeiro… às 22:45 ele fez uma manobra arriscada…

(não me desculpo, não é do feitio de ninguém da minha laia)

- dê seu jeito ou processo o condominio!


apenas advogados garantem

que causas sejam lembradas:

vitória ou vingança - quem perde, perde

quem ganha jogou dinheiro fora

e recebe do volta indiferença - doença mortal

produzida por uma bactéria

que caiu na Terra, alojada num meteoro

e criou a ilusão de que a gente

nunca jamais deve conhecer o horizonte…


 

sábado, 24 de janeiro de 2026

qual é o teu céu?

 

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será que o cachorro pensa,

que quando morre

vai pro céu dos cachorros?


e as gaivotas e as cigarras,

os bem-te-vis, os gaviões, os urubus...?


e os pernilongos - não sei se sonham -

será que vão para algum céu?


de minha parte quero ir pro céu da poesia

onde as coisas simples são sublimes


e eu continue a olhar a mesma tela

desta vista que tenho diante dos meus olhos

nesta Garça Torta que é sempre mar...


meu melhor sonho de paraíso

é transitar

e lembrar apenas

da última encarnação