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Ouvi a expressão "Hospício a Céu Aberto, de um repórter que tecia considerações acerca do
avanço da extrema-direita no Brasil e o seu objetivo final. Aí, joguei no Gemini, pedi
que compusesse um pequeno texto satírico e ele me saiu com esta
joia. Modifiquei uma coisa e outra, acrescentei alguns detalhes, e
eis aqui este modesto resultado que dedico à memória de Murilo
Rubião.
Na
Vila do Desvario, o decreto nº 299 foi aprovado por unanimidade pela
Câmara Municipal: a realidade estava terminantemente proibida.
Cansados de secas, boletos e notícias deprimentes, completamente
desiludidos com a vida tal qual herdaram dos antepassados, os
representantes do povo decidiram que, dali em diante, a cidade
viveria num estado de "alucinação oficial coordenada".
A
prefeitura foi rebatizada de "centro nervoso do faz-de-conta"
e o prefeito denominado “arquiduque das nuvens”, a partir de
então, não mais despachava sobre obras, melhorias e impostos...
passava as tardes assinando autorizações para que os cidadãos
ignorassem a lei da gravidade, interpretassem literalmente a Bíblia
além de tornar obrigatório o ensino da terra plana nas escolas e
delegar aos vereadores o uso capião do orçamento municipal.
-
Senhor arquiduque - disse o secretário de finanças, usando um
chapéu feito de cascas de banana - a contas de luz chegou.
-
Transforme-as em confete, meu caro! - respondeu o governante. - Diga
ao povo que a escuridão é apenas um descanso visual patrocinado
pelo universo. Quem reclamar de falta de luz será multado por
"excesso de pragmatismo".
A
negação passou a ser o motor da economia daquela vila sertaneja. No
mercado central, não se vendia mais feijão ou arroz. As prateleiras
estavam repletas de caixas vazias, etiquetadas com nomes como "bife
de unicórnio" ou "sorvete de saudade". As pessoas
pagavam com folhas de árvore secas, jurando solenemente que eram
notas de cem dólares.
O
ápice do delírio institucionalizado foi a criação da “patrulha
do sorriso, do contentamento e caluda”. Se alguém fosse pego
suspirando ou olhando para um buraco na rua com desaprovação, era
imediatamente levado para o "centro de reeducação criativa"
(a cargo de um pelotão de choque da vetusta, insigne e ilibada
polícia política, treinada nas melhores e mais eficazes técnicas
de fazer calar um inimigo) onde o meliante era forçado a assistir a
vídeos de gatinhos tocando piano, desfiles de bandas marciais e
sermões de religiosos redpill’s até admitir que o buraco, na
verdade, era uma entrada para um reino mágico.
Certo
dia, um engenheiro tentou avisar que a ponte da cidade estava prestes
a desabar por falta de manutenção. - A estrutura está podre! -
gritou ele. A comunidade se reuniu na margem do rio. Olharam para as
vigas rachadas e, sob o comando do arquiduque, fecharam os olhos e
entoaram em coro:
-
A ponte é de algodão doce! - A ponte é feita de desejos! Quando a
estrutura finalmente ruiu com um estrondo, ninguém se desesperou. Um
morador, vendo as tábuas boiando no rio, comentou com um sorriso
satisfeito: - Vejam só! A ponte decidiu virar um barco. Que
criatividade maravilhosa a nossa cidade tem!
Na
Vila do Desvario, a verdade era a única coisa que não encontrava
guarida. A maioria esmagadora dos desvarianos preferiam afundar no
rio, abraçados ao delírio, do que admitir que estavam molhados.
Ao
decreto nº 299 seguiu-se
o nº 300: "É
proibido morrer de causas naturais."
Em Desvario, ninguém morria; as pessoas apenas "decidiam se
tornar estátuas invisíveis". Quando o velho Adauto,
comerciante de livros deteriorados
de astrólogos
desconhecidos, caiu estrebuchando no meio da calçada, vítima de um
infarto fulminante, a multidão não chamou a ambulância. O
arquiduque
das nuvens
aproximou-se, derramou um balde de purpurina sobre o
cadáver, ainda quente, e declarou: -
Vejam a performance artística do Adauto! Ele agora interpreta o
papel de “pedra
de calçamento
imóvel”.
Não pisem nele, ou quebrarão o encanto!
Três
dias depois, o cheiro de putrefação empestava a rua principal, mas
os habitantes passavam com lenços perfumados, importados da
Tailândia, amarrados no nariz, elogiando o "perfume exótico de
flores raras do submundo" que Adauto exalava.
A
“patrulha
do sorriso”
evoluiu. Agora, eles portavam agulhas cirúrgicas e fios de nylon
transparentes. Se o "centro
de reeducação
criativa"
não funcionasse, eles garantiam a felicidade do cidadão costurando
os cantos da boca diretamente nas maçãs do rosto. O resultado era
uma população de rostos esticados, olhos arregalados de pânico e
dentes permanentemente expostos, apodrecendo por trás de sorrisos
eternos.
O
horror atingiu o ápice da negação criativa, quando o “seu”
Machado, não tendo mais como comerciar carne animal, visto eles
terem entrado em extinção volutária, passou a oferecer o "filé
de amigo imaginário”. - É carne de anjo, freguesa - dizia ele,
entregando um pedaço de músculo humano, tatuado com o nome Lourdes,
a uma recatada e piedosossíma senhora.
-
Oh, Machado, que textura divina! - respondeu a mulher, ignorando o
dedo indicador que ainda balançava no fundo da embalagem. - A
Lourdes sempre teve um expírito elevado, agora finalmente nos
alimenta de sua luz!
O
delírio institucionalizado passou a exigir sacrifícios. Quando as
crianças choravam de fome, as mães lhes entregavam pequenos seixos
e as convenciam de que eram "balas de silêncio eterno".
Na
noite em que a ponte de algodão doce desabou e os moradores caíram
no rio, eles não lutaram contra a correnteza. Afundavam com os
pulmões cheios de lama, borbulhando risadas histéricas e gritando,
entre engasgos, que a água era, na verdade, champanhe francês.
O
engenheiro, único que ainda enxergava o sangue e o chorume, foi
cercado pela “patrulha”:
- Você está sendo antipatriota, disse o arquiduque,
enquanto os guardas preparavam a agulha e o nylon. - Vamos te ajudar
a ver o mundo como ele realmente é: uma grande piada que nunca
termina.
Enquanto
a agulha perfurava sua bochecha, o engenheiro percebeu que o
verdadeiro terror de um hospício a céu aberto não era a loucura em
si, mas a obrigação
de ser feliz enquanto se é devorado.
Para
coroar
esse ciclo de horror e negação, Desvario instituiu o seu feriado
mais sagrado: o
dia
do grande
rega bofe.
Nessa
data, uma vez por ano, o "hospício a céu aberto"
suspendia qualquer resquício de moralidade fingida. Sob o sol do
meio-dia, o arquiduque
das nuvens,
paramentado
com suas centenas de medalhas confecionadas a partir de tampinhas de
refrigerantes e botons de campanha política,
soava um berrante feito de osso humano e o pacto era renovado. O
canibalismo tornava-se um sacrifício
ritualístico.
A regra era simples: cada cidadão deveria entregar "um pedaço
de si ou do seu vizinho" para a grande caldeira na praça. Em
meio a risos histéricos e danças coreografadas, eles mutilavam uns
aos outros com fações
de prata, com uma polidez aterrorizante. Enquanto devoravam a carne
daqueles com quem compartilharam o pão o ano todo, o efeito era
químico e espiritual: a aniquilação
da empatia.
Ao mastigar o próximo, o morador destruía em si a capacidade de
reconhecer o outro como humano. Naquela noite, qualquer crime era
permitido. Saques, linchamentos e violações eram chamados de
"expressões
espontâneas
de alegria".
O sangue nas calçadas era ignorado ou elogiado como "pintura
abstrata
de frescor
matinal".
Porém,
assim que o sol nascia no dia seguinte, a "paz" voltava.
Durante os 364 dias restantes, a cidade operava sob um código penal
rigoroso, onde o sistema de justiça mostrava sua verdadeira face.
Em
Desvario, você podia roubar se dissesse que estava "pegando
emprestado um sonho". Você podia ferir, desde que chamasse a
ferida de "beijo do destino". Agora
que todo sinônimo havia se tornado seu antônimo sem qualquer
possibilidade de reciprocidade, tentar
acordar a comunidade era considerado um ato de terrorismo. E
o agente perpetrador do dolo, passava a ser considerado um
lesa-pátria.
Se alguém apontasse para o cheiro dos corpos sob o sol, era preso
por "poluição
sonora da harmonia"; Se
um pai chorasse a morte do filho no dia
do rega bofe,
era condenado por "exibicionismo
melancólico"; Se
alguém ousasse dizer que as folhas secas não eram dólares, era
enforcado em praça pública sob a acusação de "tentativa
de homicídio da imaginação coletiva".
O
ritual anual garantia que todos tivessem as mãos sujas de sangue.
Assim, durante o resto do ano, ninguém ousava denunciar a loucura do
vizinho pois seria admitir o próprio sabor da carne humana ainda
preso entre os dentes.
E
a Vila do Desvario seguia assim: um lugar onde o assassinato era um
detalhe artístico, mas a verdade era uma heresia insuportável. Eles
morriam felizes, devorando uns aos outros em silêncio, apenas para
não terem que admitir que o hospício nunca teve muros porque eles
próprios eram as celas.