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O
corpo mutilado do delegado Moreira, fora encontrado na Alameda dos
Anjos. O Departamento de Ordem Pública soltou uma nota afirmando que
o honorável servidor público, com relevantes serviços prestados à
defesa da pátria, fora vítima da insídia subversiva e que sua
morte seria vingada, exemplarmente. Tinha eu uns 20 anos na época e
acompanhei chocado os desdobramentos.
Alguns
dias depois, as dependências do quartel general da repressão
estavam lotadas de familiares, parentes, amigos, colegas, conhecidos
e conhecidos dos conhecidos de todos os presos políticos e
procurados pelo regime de chumbo instaurado no país em 2034. Mas não
havia lugar para tanto preso.
Os
detidos foram encaminhados então para outros quartéis, hospitais
psiquiátricos e quando também estes ficaram superlotados a cúpula
decidiu ocupar estádios. Quando nos estádios não
havia mais lugar para trancafiar os inimigos do sistema, veio a ordem
para começar a eliminar, lenta
e gradualmente, de fome,
sede, maus tratos, privações,
contaminações, todos os
prisioneiros. Alguém, numa ponta, questionou se não seria mais
fácil dar um tiro na nuca de cada um. Pouparia
queixumes. “Não”, berrou
o chefe dos chefes. Estavam
em fase de contenção de despesas; que seria muito
dispensioso; além do que o
estoque de munição mal dava para meio dia de tiroteio; que
seguissem as ordens e parassem imediatamente de tentar melhorar o que
não tem jeito. Ponto final.
E
neste ponto, é natural que nos perguntemos: o que de fato aconteceu
com o delegado-chefe do maior centro repressivo do regime? Quem
realmente fora o responsável por sua morte?
O
motivo do crime era assunto que percorria toda a nação ninguém
encontrava resposta. Ficou claro por A mais B que nenhum comando
revolucionário emitira tal ordem. Então, como um rastilho de
pólvora, a pergunta bateu nas portas do Ministério
da Defesa e Segurança Interna. O general Portela,
ministro-chefe, deu ordens severas para que o caso fosse arquivado e
que o corpo fosse enterrado com honras de Estado e a família
recebesse todos os benefícios a que o oficial da lei tinha direito,
acumuladas todas as gratificações e mais algumas coisinhas.
Porém,
o delegado adjunto Mosca, contando com apoio de uma meia dúzia de
oficiais de alta patente, descontentes com os rumos que o Alto
Comando vinha imprimindo ao projeto político, decidiu investigar por
conta própria. Respaldado pelo general comandante da II Região foi
à luta e encontrou a prova definitiva de que o colega fora executado
por ordem expressa do Palácio Central.
“Esse
é um encrenqueiro. Só pensa no próprio umbigo. Já estou de saco
cheiro dele. Dê um fim nisto”. Perdido no meio da papelada que
abarrotava o prontuário do falecido, xerografo por um cúmplice no
Ministério da Guerra, Mosca encontrou o bilhete, escrito em
maiúsculas numa folha de papel com o timbre da presidência da
república, dirigido ao ministro. A assinatura não deixava dúvida:
a ordem veio do topo da pirâmide. Era preciso romper aquele ciclo,
concluiu.
Teve
inicio então sua militância clandestina na oposição. Logo
arrastaria para seu lado boa parte dos delegados que trouxeram
procuradores, juízes, políticos e uma camada significativa da elite
rentista e empresarial insatisfeita com a política de torneiras
fechadas até que o bolo crescesse.
Pressionados
por seus próprios aliados e ameaçados pelo bilhete encontrado por
Mosca - um homem do sistema, movido pela autopreservação,
calculista político - agora alçado a líder oposicionista
reconhecido internacionalmente, os milicos não tiveram alternativa
senão voltar aos quartéis, não antes de firmarem um pacto com o
subalterno de jamais trair seus antigos comandantes. A mesa fora
virada, a transição começara. O homem que encontrou a prova da
incompetência fardada, cumpriu o que prometeu, levou para o túmulo
o porquê Moreira morreu?
“Mas
se o Mosca morreu sem revelar nada, de que jeito você ficou sabendo
disso tudo”, perguntou minha neta. “Ora, eu sou o autor… sei de
tudo que se passa nesta história. Não gostou, inventa a sua”.